22/09/2018
 


AMOR EM REDE


Há cada vez mais aplicações e empresas a encaixar milhões com a promessa do par ideal. Há quem diga que a tecnologia revolucionou as relações, mas estaremos assim tão diferentes? 

Textos | Sofia Martis Santos

Mobirise

RELAÇÕES

O AMOR TEM PREÇO E DEU LUGAR A UM NEGÓCIO DE MILHÕES

O Facebook perdeu a confiança de muitos e foi obrigado a criar saídas de emergências para voltar a ser uma rede social apetecível. Uma das novidades é o plano de oferecer um serviço de encontros para os utilizadores solteiros. De acordo com Mark Zuckerberg, o Facebook está mais do que preparado para este novo desafio porque conta já com mais de 200 milhões de solteiros com perfil nesta rede social.

“Um em cada três casamentos nos Estados Unidos da América começam online”, afirmou Mark Zuckerberg que pretende ter tudo pronto no final do ano. “Milhões de pessoas dizem que são solteiras no Facebook e temos de fazer algo quanto a isso”, garantiu o fundador da rede social.

O anúncio de que o Facebook terá este novo serviço fez com que as ações do Tinder caíssem abruptamente. O Match Group, dono do Tinder e de outros serviços de encontros, afundou 26% em reação ao anúncio.

Dizem que o amor não tem preço, mas a dona do Tinder e de outras aplicações do género não é da mesma opinião. A verdade é que ajudar a encontrar parceiro é mais lucrativo do que se pensa e as ambições das empresas, que detêm estas aplicações, fazem o match perfeito com os interesses dos utilizadores. No final do ano passado, o Tinder, por exemplo, conseguiu mesmo atingir oficialmente a medalha de aplicativo mais lucrativo da App Store.

O Tinder foi lançado em 2012, mas cresceu muito rapidamente. De acordo com o fundador da empresa, Sean Rad, a aplicação conseguiu eliminar um dos maiores medos nos encontros reais: o medo de ser rejeitado. “Se eu abordo uma pessoa em um bar, estou nervoso, com medo de ser rejeitado, e a outra pessoa se sente caçada. Nós [com o app] conseguimos eliminar o medo da rejeição. Um match no Tinder é como cruzar o olhar com alguém em uma sala”. Um argumento mais do que válido, pelo menos, a julgar pelo número cada vez maior de utilizadores. A empresa precisou, aliás, de apenas dois anos para bater a barreira dos 100 milhões de utilizadores.

Um negócio onde há cada vez mais motivos para entrar e não o contrário. Um estudo de 2015 apontava um público-alvo de 511 milhões de pessoas na América do Norte e Europa, dispostos a utilizar tecnologia para encontrar alguém. E é preciso não esquecer que o Tinder, o OkCupid e outros têm a opção de pagar para aumentar o ‘poder de conquista’.

Facebook garante ter mais de 200 milhões de utilizadores solteiros e promete ferramenta para este público

Não faltam pessoas novas para adicionar à lista de interesses, assim como não faltam plataformas que ajudem a fazê-lo. A Happn, ajuda uns bons milhões de pessoas no mundo a relacionarem-se. “Se calhar, podes encontrar uma pessoa ótima para passares a noite, um bom amigo ou a pessoa que vai ser o pai dos teus filhos. Nós não sabemos”, garante o presidente da empresa, acrescentando que prometer às pessoas que vão encontrar o amor nestes espaços é puro marketing.

“O que dizemos às pessoas é que lhes damos as ferramentas que podem ajudá-las a conectar-se com a vida real numa app. Só isso. Depois, as pessoas fazem o que querem e comportam-se como são”.

Os exemplos são muitos. O Bumble, por exemplo, nasceu para se distinguir do Tinder ao abolir aquela regra não escrita de que os homens é que tomam a iniciativa de ter o primeiro contacto. De resto, tudo igual: os utilizadores visualizam dezenas de perfis de potenciais parceiros, dão uma pontuação positiva ou negativa, e em caso de correspondência abre-se um canal de conversação entre as duas pessoas compatíveis.

A diferença, na prática, é que só a utilizadora do sexo feminino pode iniciar o chat. E esse canal de chat só fica aberto durante 24 horas, impedindo que o utilizador masculino assedie a sua correspondente após uma ‘tampa’.

Há pessoas que contam experiências de como estas aplicações podem ser usadas na ótica de um loja de doces, mas para relacionamentos. É possível a comparação numa lógica de serem sítios que funcionam “como catálogos”, onde se olha para o pacote e se decide, num milésimo de segundo, se a embalagem interessa ou não.

No entanto, também não falta quem encontre na tecnologia uma porta aberta para relações de sucesso. Há quem tenha entrado neste tipo de aplicações “por brincadeira” e tenha saído apaixonado. A verdade, é que é também por isto que os números surpreendem e que se multiplicam apostas destes géneros. Os utilizadores encontram, muitas vezes, o que procuram e as empresas encontram cada vez mais formas de encaixar dinheiro com isso.

“Acho que tivemos um impacto enorme não apenas no sucesso que as pessoas podem ter quando andam à procura de amor, mas porque quando pensamos nessas cerca de 20 mil milhões de ligações, percebemos que se não fosse o Tinder elas não existiam. E também porque é mais eficiente no que diz respeito a criar ligações com significado entre as pessoas. Acho que assegurámos que toda a gente pode encontrar o amor”, dizia em 2016, Sean Rad, cofundador do Tinder.






A PROMESSA DO PAR PERFEITO

A GENÉTICA E AS TELEVISÕES AO SERVIÇO DO PRIMEIRO ENCONTRO


O negócio em torno do amor não acontece apenas com aplicações ou redes sociais. Desde muito cedo que as televisões começaram a apostar em formatos para juntar casais e há lugar para várias versões polémicas. Entretanto, apareceram também empresas que prometem, através de testes de ADN, dar garantias de compatibilidade

O amor, o sexo e até a amizade têm vindo a seguir novas dinâmicas. Mas não são apenas as aplicações que encaixam milhões com as relações interpessoais. Existem empresas que garantem que a ciência ajuda a encontrar o parceiro ideal e até canais de televisão que apostam em programas cujo único objetivo é explorar a possibilidade de criar casais. E a verdade é que, neste campo, só a imaginação parece ser o limite.

Provavelmente, já ouviu falar do Naked Attraction, nem que seja pela polémica que gerou inicialmente. O objetivo é o mesmo de todos os programas de encontros: escolher alguém para um encontro a dois. Mas os escolhidos estão nus. Uma escolha que valeu várias queixas na Nova Zelândia. No entanto, nem só de queixas é feito o impacto deste formato. No Reino Unido, o Channel 4, responsável pela criação deste conteúdo, já começou a preparar uma nova temporada com celebridades e já vendeu os direitos para a Alemanha.

O original britânico chegou a Portugal pelas mãos dos responsáveis da SIC Radical, em cujo site se explica: “Naked Attraction é um reality show de “dating” britânico, apresentado por Anna Richardson, em que um /a participante seleciona dois concorrentes entre outros seis, com um twist: os seis participantes estão nus dos pés à cabeça. Tanto o corpo como as faces irão ser revelados, em etapas, dos pés à cabeça. A pessoa que decide, em seguida, aparece nua também e terá de selecionar, desses seis, uma delas para um jantar romântico. Após o encontro, o programa mostra o resultado dessa escolha”.

De acordo com o diretor da SIC Radical, Boucherie Mendes, falamos de um “formato dentro do género social experiment” que nada mais é do que “um programa deste tempo”.

Exemplos há muitos, ainda que alguns modelos sejam mais arrojados do que outros. Existem até os que contam com especialistas para analisar os dados de cada concorrente e escolher o que deve ser o par perfeito. No limite, falamos até de formatos onde os concorrentes aceitam conhecer o futuro marido ou mulher apenas no dia marcado para dar o nó. É o caso do Bride and Groom Meet For The First Time. A produção cria casais que parecem ter tudo para resultar. No entanto, apenas se conhecem no dia do casamento e nada sabem sobre o parceiro. Depois de um tempo a viver a dinâmica de casal, chega a hora de decidir se aquela pessoa é mesmo a ideal e se estão dispostos a mudarem alguns aspetos das suas vidas para que seja possível o casamento continuar.

As experiências em Portugal

Em Portugal, já passaram mais de quinze anos desde que estreou na SIC o programa Acorrentados: um reality show que pretendia ser direto na formação de casais. Cinco pessoas estavam acorrentadas e tinham de ir juntas para todo o lado. Quatro eram do mesmo sexo e a do oposto tinha de ir eliminando os que menos interessavam até sobrar apenas um. No entanto, o formato não convenceu os portugueses. Outros modelos foram tentados, mas não atingiram os objetivos pretendidos.

Em 2016, o reality show ‘Love on Top’, da TVI, gerava polémica. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) tinha começado a receber participações contra o formato emitido diariamente pela estação de Queluz de Baixo. Em causa estavam queixas de violência verbal e física e conteúdos de teor sexual. Recorde-se que este foi o primeiro reality show com pessoas fechadas dentro de uma casa a ser emitido em Portugal com a classificação para maiores de 18 anos (que é identificada com a tradicional bolinha vermelha).

Também o Big Brother e a Casa dos Segredos deram origem a muitas queixas por causa do conteúdo, mas sem resultarem em multas para a estação.

Empresas prometem ajuda

Há pouco tempo, um estudo da Universidade do Estado de Michigan, nos EUA, garantia que esperar pelo par perfeito não era mais do que uma bela perda de tempo. Mas não é com essa base que trabalham algumas empresas que usam a bandeira de ter a solução ideal. Para quem não se quer expor na televisão e não acredita na eficácia das redes sociais ou das aplicações criadas para o efeito, existem outras soluções e até a ciência é chamada ao barulho.

Para grande infelicidade dos mais românticos, há quem garanta que é possível explicar biologicamente a sensação que nos domina quando se gosta de alguém. Tendo isto por base, essa sensação pode então ser medida e até controlada. Pelo menos, é nesta base que se criam empresas que prometem testar compatibilidade através de análises de ADN. Uma pesquisa rápida no Google basta para perceber a variedade da oferta. A GenePartner, por exemplo, mostra que não existe nada melhor para avaliar a química antes de investir num relacionamento.

Existem ainda empresas que disponibilizam verdadeiros ‘kits do amor’. É o caso da Instant Chemistry. De acordo com os responsáveis pela empresa, a ideia é conseguir comparar, através de três testes, a compatibilidade química do casal através das características genéticas. Estas empresas prometem ainda ajudar a ultrapassar alguns obstáculos. “Se faltar compatibilidade, o kit fornece informação que permite detetar o conflito antes que ele apareça. A aposta dos casais deve então ser uma tentativa de resolver estes potenciais focos de conflito, sem brigas”, explica Sara Seabrooke, da Instant Chemistry.

Para muitos, este tipo de testes pode não fazer sentido, mas a verdade é que como negócio parece funcionar. Seja como for, na era da tecnologia, muito tem mudado e parece até haver um novo código de regras para os primeiros encontros, ainda que muita coisa não passe de mito.
Mobirise



Relações de A a Z
Verdades e mitos


Há quem diga que a tecnologia veio revolucionar a forma como nos relacionamos. O i fez uma lista de perguntas para perceber o que dizem os psicólogos sobre o assunto. Será que estamos mesmo assim tão diferentes?

A Internet ajuda ou prejudica?

A tecnologia veio facilitar o acesso que temos uns aos outros. Mas a lógica de termos as pessoas à distância de um click tem facilitado ou complicado as relações? De acordo com Jorge Gravanita, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica, “aparentemente, tudo é mais fácil. Criou-se uma ilusão de grande facilidade, mas não passa de ilusão. Com a Internet parece que temos dados que nos permitem saltar uma data de passos, mas as pessoas continuam a ter dificuldades de entendimento, até mesmo com as pessoas mais próximas. Além disso, não podemos olhar para isto com a lógica dos supermercados”.

Também Maria do Carmo Cordeiro, psicóloga clínica, diz que com as “apps de encontros/engate ganhou-se, porventura, mais possibilidade de encontros e perdeu-se a tolerância à frustração e a necessidade de se elaborarem convenientemente separações e lutos. É muito fácil ter encontros, mas tal não significa que sejam relações duradouras. Pode acontecer, mas frequentemente funcionam mais como ansiolíticos ou antidepressivos”, explica, acrescentando: “As pessoas hoje têm muita dificuldade em estarem sós, bem consigo mesmas antes de partilharem a sua intimidade. Partem para encontros para não estarem sós ou para terem experiências sexuais.
Mobirise

Há um novo código de conduta?

Ainda faz sentido existir a ideia de que o homem deve dar o primeiro passo ou até pagar a primeira conta ou será que tudo isto faz cada vez menos sentido? Maria do Carmo Cordeiro acredita que faz “cada vez menos sentido, embora os países latinos sejam os últimos a mudarem de mentalidade”.

Já para Jorge Gravanita, é importante perceber que estamos perante estereótipos e é nesta lógica que tudo tem de ser analisado. “Há já muitos anos que este tipo de estereótipos não são usados por todos. Os estereótipos funcionam sempre um bocadinho na lógica do desconhecimento e vão perdendo força à medida que as pessoas têm mais informação e assim mais conhecimento”.

Também no trabalho muito tem mudado na convivência entre homens e mulheres. Com o tema do assédio sexual a ser cada vez mais discutido, existem novas realidades. Entrar num elevador com uma colega do trabalho, dizer um piropo ou dar boleia à nova colega pode trazer problemas. Para a maioria dos portugueses são situações normais, mas em países como a Suécia, Brasil ou EUA poderia ser o necessário para que se seja chamado aos Recursos Humanos. No Brasil, por exemplo, há empresas que proíbem cumprimentar colegas com beijos ou abraços.
Mobirise

Ex-casais devem cortar relações?

E quando uma relação acaba? A tecnologia permite sabermos muito da vida dos outros, sem termos contacto direto. Neste sentido, os ex-casais devem cortar ou não ligações nas redes sociais? No entender de Maria do Carmo Cordeiro, “tudo depende do caso. É como na vida. Faz falta o bom senso e a autoproteção quando se elabora uma separação. Não se ganha muito em se manter contacto, se é necessária a distância”.

Também Jorge Gravanita defende que as pessoas devem ter em conta a importância da “higiene mental”. “Na vida há coisas saudáveis e outras menos saudáveis e é importante saber fazer a separação. Manter um vínculo com o passado pode não ser nada saudável porque pode servir apenas como uma forma de alimentar fantasmas”.

Para o psicólogo, é ainda importante relembrar que existem casos mais graves, mas que aconteceriam mesmo sem as redes sociais. “Há um lado patológico que pode fazer com que as pessoas continuem ligadas ao passado. Espionar a vida do outro ou até mesmo a perseguição são situações que têm a ver com casos mais graves. Mas aconteciam mesmo quando não havia tecnologia. Havia sempre forma de arranjar informação, nem que fosse perguntar às vizinhas”.
Mobirise

Há mais frustração na falha?

No geral, todas estas plataformas têm feito com que haja mais frustração quando alguém não arranja companheiro/a ou, por outro lado, trouxe mais liberdade e assistimos a uma mudança de mentalidade?

Para Jorge Gravanita, “a partir do momento em que introduzimos a ideia de facilidade é normal que apareça a frustração quando não funciona. Mas é importante não esquecer o que está na base de tudo”. Para o psicólogo é necessário ter em mente fenómenos de compensação como o transtorno compulsivo por compras. Os consumidores apostam nas compras como forma de obter alívio de emoções negativas. “É o mesmo que estar infeliz e ir ao supermercado comprar tudo com a ilusão de que vou deixar de me sentir tão mal. Não funciona. Vou continuar infeliz. Marcar encontros com diferentes pessoas não ajuda a ultrapassar a frustração”.

Também Maria do Carmo Cordeiro garante que “pode haver mais frustração no sentido em que os encontros estão muito facilitados. Se alguém não tem companheiro/a pode sentir-se frustrado. Até parece que toda a gente arranja, mas resta saber de que companheiro/a estamos a falar. Acho que aí é que reside a questão”.

Porque há tantos divórcios?

Temos tido cada vez mais divórcios. O que se passa? As pessoas têm perdido capacidade de se relacionarem umas com as outras?

“Haverá menos dificuldade em assumir que há problemas inultrapassáveis no casamento, mais liberdade, menos preconceitos, mais igualdade de decisão entre homens e mulheres. Mas, há, também, menos tolerância”, sublinha Maria do Carmo Cordeiro.

Por outro lado, Jorge Gravanita refere que “é verdade que a exposição às novas tecnologias pode ser disruptiva para os relacionamentos tradicionais”. Mas é preciso não esquecer que o mais importante é o laço que temos uns com os outros e a força que tem. “A questão é perceber se os laços são ou não vulneráveis a um telefonema, uma mensagem ou a uma rede social. Além disso, será que conseguimos mesmo construir um laço social nestas plataformas ou redes sociais?”.

E será que são mesmo os opostos que se atraem ou é o que leva ao fim de uma relação? Maria do Carmo Cordeiro entende que “as pessoas diferentes podem sentir-se complementadas numa primeira fase. Faz sentido”. Uma ideia que Jorge Gravanita também defende ainda que alerte para o facto de “o semelhante levar sempre ao ódio” ou “repúdio”.
Mobirise

Precisamos de um guia no amor?

Há cada vez mais empresas e aplicações que prometem ‘ajudar a encontrar o amor’. Também há cada vez mais quem recorra a esta ‘ajuda’. O que explica isto?

De acordo com Maria do Carmo Cordeiro, falamos, sobretudo, de “um bom negócio. Se se encontra ou não” será sempre uma outra questão. Ainda que seja inquestionável, de acordo com a psicóloga, que se possam sempre encontrar “eventuais parceiros”. E há um bom motivo para tanta procura: “Há mais receio da solidão”.

Também Jorge Gravanita defende que “há uma falta de amor enorme e isso faz com que cada um procure com os recursos que tem”. “A emoção é a nossa forma de comunicar e, havendo uma grande dificuldade em lidar com sentimentos, temos uma crise de inteligência emocional. As pessoas não sabem comunicar umas com as outras e as redes sociais dão o automatismo. Mas também diminuem a função própria. Tudo o que é mais subjetivo tem de ficar para trás”, defende ainda o psicólogo.

“Tudo é mais fácil e também mais rápido, a vida é agora porque o mundo pode acabar amanhã. Vemos isso no imaginário coletivo dos filmes de extermínio/invasão terrestre”, defende ainda Maria do Carmo Cordeiro.