20/09/2018
 

A REVISTA ESTÁ VIVA

VIVA A REVISTA                      

Texto | Filipa Traqueia
Fotografia | Bruno Gonçalves

No dia Mundial do Teatro, fomos aos bastidores do espetáculo Portugal em Revista para conhecer a luta do Maria Vitória para manter a revista no Parque Mayer

O ator chega cedo. Dirige-se ao camarim, onde se senta ao espelho e começa a preparar-se. Coloca a base para fazer frente às luzes do palco, dá um retoque nos lábios para os destacar, pinta um bigode e umas sobrancelhas, prende o cabelo para colocar a peruca. E deixa de ser ele mesmo, passando a ser uma das muitas personagens que compõe o espetáculo Portugal em Revista, em cena no teatro Maria Vitória, no Parque Mayer, em Lisboa. “Cada um tem uma forma de se preparar”, diz Miguel Dias, ator e autor do espetáculo, enquanto se diverte com um jogo de telemóvel. Há quem prefira ocupar os poucos minutos que faltam até às pancadas de Molière ouvindo música, cantando os temas das rábulas ou simplesmente pondo a conversa em dia.

Do outro lado do pano, na sala, as pessoas vão-se sentando nos seus lugares. Algumas das cadeiras têm uma placa verde que homenageia pessoas ligadas ao teatro e, nas paredes, há fotos dos grande nomes da arte de representar. Dois grupos de excursão vieram a Lisboa de propósito para ver o espetáculo do Maria Vitória mas a sala não chega a encher.

“Atenção a toda a companhia, faltam cinco minutos para iniciar o espetáculo, cinco minutos para o espetáculo começar”, ouve-se nos bastidores. Os atores que entram na primeira rábula descem as escadas que levam ao palco, juntando-se ao corpo de dança que já está a postos para começar. Pedro Silva é o primeiro a entrar em cena e benze-se e bate três vezes na madeira. “São superstições”, explica “é uma coisa que vem desde que me conheço. Sempre fiz, tranquiliza-me”. A música começa a tocar, o pano sobe, a partir de agora é “muita merda” e esperar que o público goste.

Portugal em Revista está em cena no teatro Maria Vitória desde setembro e, ao contrário do que muita gente pensa, não tem falta de público. “Isso é um fantasma que as pessoas pensam que é verdade”, diz o ator Paulo Vasco que se estreou no teatro de revista “fez o ano passado 30 anos”. “A revista não está com falta de público, e a prova é que este espetáculo está há sete meses em cena e vai continuar”, garante. Também Susana Cacela, atriz da companhia, admite ter tido “uma agradável surpresa”: “Temos muito público, a revista é muito vista. Eu não tinha noção sinceramente”, diz, acentuando que “não existe um público tão carinhoso e tão querido como o público que vem à revista”. “As pessoas adoram-nos e adoram a revista e isso é muito bom”, diz, emocionando-se.

Para além do público fiel que nunca deixou de ir ao Maria Vitória, o único teatro que atualmente faz revistas no Parque Mayer, Miguel Dias afirma que a afluência de novos públicos tem aumentado “Há muitas pessoas que esperam por nós à porta dos artistas no final do espetáculo e dizem-nos ‘eu nunca tinha vindo à revista’ ou ‘tenho 50 anos e nunca tinha vindo à revista’, e isso é muito bom. Para já é uma sensação de vitória sentir que conseguimos captar a atenção das pessoas”. O autor, que integrou também a equipa de autoria da revista anterior, Parque à Vista, partilha ainda os comentários de desconfiança que algumas pessoas têm sobre este género. “As pessoas dizem ‘eu nunca tinha vindo à revista mas tinha um preconceito e muito má impressão, e hoje saio daqui com uma imagem completamente diferente”.

“Há a revista à portuguesa, e o preconceito à portuguesa”, critica José Raposo, ator que sempre esteve ligado à luta da revista e do Parque Mayer. “O português é muito preconceituoso e diz muito mal de si próprio, só o que vem de fora é que é bom”, explica. Mas não é só o público, a discriminação do teatro de revista existe dentro do próprio meio da representação, denuncia Raposo. “As classes mais intelectuais são contra a revista porque acham que é um espetáculo menor, um espetáculo fácil, da piada fácil, da brejeirice, da ordinarice. Eu fiz muitas revistas e só tenho que dizer que esses senhores não assistiram a revistas que se fazem com muita qualidade.”

Miguel Dias recusa a ideia de que a revista “é pequenina”. “É tudo menos pequenina, a revista é nossa e fala sobre nós, fala sobre o mundo, fala sobre Portugal, é uma coisa nossa”. A opinião é unânime: todos concordam que seria importante para a revista à portuguesa que se avançasse com uma candidatura a Património Imaterial da Humanidade. “É um género genuinamente português”, diz Flávio Gil, “merecia uma tentativa de candidatura a património porque, efetivamente, não há coisas com a importância do teatro de revista no teatro em Portugal”. José Raposo subscreve a opinião, lembrando que já houve uma tentativa de fazer aprovar na Assembleia da República um Teatro Nacional da Revista à Portuguesa, um movimento liderado por Raul Solnado.

O formato em quadros e a crítica são os principais fatores que diferenciam a revista dos outros géneros. “É um grande desafio para um ator porque nós temos sete ou oito minutos para mostrar o que valemos”, explica Miguel Dias. “É aquilo que me fascina: agora sou isto, agora sobe as escadas a correr, troca, muda tudo, agora és outra pessoa, és outro personagem. E vai lá outra vez e desce as escadas e vai conquistar o público outra vez... É desafiante e apaixonante”, diz em êxtase enquanto caracteriza o teatro como “uma doença maravilhosa que a partir do momento em que se experimenta já não tem cura”.

Luís Paulino Pereira, médico que acompanhou grandes nomes do teatro como Ivone Silva, Henrique Santana, Eugénio Salvador e, atualmente, José Raposo e Otávio de Matos, recorda que a profissão de ator, e em particular de teatro, não permite a falta por doença. “Os atores não podem estar doentes. Quando um espetáculo está em cena - salvo raríssimas exceções - os atores têm que trabalhar e o público não se apercebe disso”, partilha o médico lembrando as vezes que foi aos camarins “prestar assistência médica a atores que estavam na sala e que estavam a trabalhar”.

A Crise e a morte anunciada

“Quando eu entrei em 1982 já ouvia dizer que havia uma certa decadência da revista”, conta José Raposo. “Na altura não sentia decadência nenhuma porque o Parque Mayer ainda estava cheio de gente”. Nos últimos 20 anos a revista foi perdendo público e apoio. Há quem diga que foi a liberdade de expressão, ou que tenham sido a televisão e a internet as principais responsáveis pelo afastamento entre o público e os teatros. Também o abandono do Parque Mayer contribuiu para que as pessoas se fossem esquecendo que existia a revista. Para José Raposo, a decadência da revista é “culpa de todos nós”.

Mas se hoje a revista começa a contradizer o pronúncio da morte anunciada que lhe deitam, nos últimos anos a situação não foi tão fácil. “O teatro é um espelho da sociedade: se nós estamos em crise social e financeira, a primeira coisa que sente a crise é a cultura porque as pessoas em vez de vir ao teatro compram um quilo de carne ou um quilo de peixe”, explica Paulo Vasco, um dos atores em cena com mais experiência na representação deste género de teatro. “Isso é que é para as pessoas o fundamental, ter comer em casa”, acrescenta.

Para além da crise económica, a subida “violentíssima” do IVA de 6 para 13% - que “é mais do dobro”, como recorda Flávio Gil, um jovem de 27 anos que junta à representação a escrita e a encenação do espetáculo - também prejudicaram a rentabilidade dos espetáculos. “Cada vez há menos revista porque a revista é um espetáculo muito dispendioso”, explica Paulo Vasco. “O empresário quando arrisca montar um espetáculo de revista tem de empatar muito dinheiro, que não sabe se irá reaver, é uma roleta russa”, acrescenta.

No que toca a apoios do Ministério da Cultura, o teatro de revista não está “em condições de concorrer” por ser considerado “teatro comercial”. “Ou seja, se é um teatro que tem público não precisa, em princípio, de apoio”, explica Flávio Gil. “Eu acho que o governo é que fez com que a revista quase acabasse”, acusa Susana Cacela e Pedro Silva faz a aposta na revista: “Eu recordo uma entrevista que a Marina Mota deu em que disse, e com razão: tirem os subsídios aos teatros que neste momento são subsidiados e vamos ver o que morre primeiro, se a revista se os teatros com subsídio. Porque se a revista não morreu até hoje sem subsídio, então com subsídio até tínhamos duas revistas no mesmo teatro”. No entanto, ao i, Hélder Freire Costa, produtor do teatro Maria Vitória, explicou que recebe um pequeno apoio da Câmara Municipal de Lisboa. 

Hélder Freire Costa é o homem por trás da luta pela sobrevivência do Parque Mayer e do Maria Vitória. Todos os atores recorrem à expressão popular e tiram o chapéu ao produtor. “É importante marcar a coragem de Hélder Freire Costa que não desistiu e sem apoio do Estado”, afirma Miguel Dias. “Porque isso é que é coragem, nós vemos companhias que perdem o apoio do Estado e fecham portas automaticamente e o Hélder Freire Costa está há 54 anos - salvo erro - a lutar em prol de uma coisa em que ele acredita e não desiste”, reforça. “Eu não sei se conseguiria passar o que ele passou, fazer o que ele já fez e o que ainda virá a fazer porque é preciso uma grande bagagem para ir contra quase o mundo todo”, diz Pedro Silva, enquanto Patrícia Teixeira, a atriz de 20 anos que é a mais jovem da companhia, considera-o “o grande lutador da revista à portuguesa e do Parque Mayer” porque “se não fosse o senhor Costa, metade disto já não existia”.

Rosa Villa não tem dúvidas: “As coisas só estão acabadas quando não existir talento. E aqui existe talento, temos novos talentos, pessoas muitíssimo novas que estão a escrever novamente. O teatro de revista vai continuar a ter a sua força e o seu lugar na cultura portuguesa”.

Um novo Parque Mayer

O teatro ABC foi demolido, o Capitólio foi restaurado agora pela Câmara Municipal e o Variedades está em obras. A funcionar e com teatro de revista em cena só resta o Maria Vitória. E onde antes havia as barracas de “tirinhos” e os carrosséis é agora um parque de estacionamento gerido pela Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL).

“Isto era o salão de visitas de Lisboa”, lembra Paulo Vasco que começou a “vir muito cedo ao Parque Mayer” acompanhado pelo avô. “Uma das coisas que me chamou a atenção quando eu cheguei aqui, foi aquela entrada do Parque Mayer que fervilhava de luz porque eram quatro teatros a funcionar todos com os seus cartazes, com as suas luzes e com as fotografias dos artistas”. O dr. Paulino Pereira acredita que o espaço “tinha condições para se transformar numa Broadway à portuguesa”. 

Para José Raposo foi “um crime” o que fizeram ao Parque Mayer, deitando teatros abaixo e deixando o espaço degradar-se. “Fizeram isto de propósito. Há muitos interesses financeiros no meio disto tudo porque o Parque Mayer está no coração de Lisboa. O que os grandes homens do dinheiro queriam era fazer ali grandes bancos e hotéis”, denuncia o ator. “Agora o Parque Mayer é visitável mas houve aqui uma altura em que era um lamaçal absoluto”, recorda Flávio Gil.

A Câmara Municipal iniciou um processo de restauração dos dois teatros que estavam abandonados, o Capitólio e o Variedades. Enquanto o segundo ainda está em obras, o primeiro foi desenhado para ser um espaço cultural multiusos. No entanto, o famoso cineteatro Capitólio deixou de ter condições para se fazer teatro. Segundo os atores, a falta de inclinação da plateia, a pouca altura do palco e os problemas de acústica tornam o espaço desajustado para a prática de teatro.

“Eu tenho muita pena pelo engenheiro que fez aquilo, mas fez ali um pavilhão”, diz Rosa Villa, revoltada. “Aquilo é um pavilhão, não é um teatro, há problemas de acústica, não pensaram em formas de representar, nada, zero.”

No entanto, os eventos que se vão realizando no Capitólio trazem uma nova vida ao Parque Mayer. “Houve uma série de noites, agora há pouco tempo, com concertos do Sérgio Godinho. E eu fiquei super feliz ao ver a vida que o Parque Mayer teve naquela noite”, conta Miguel Dias. E voltar a haver vida no Parque Mayer é sinónimo de mais pessoas para ver a revista: “Acho que é bom que o Capitólio tenha eventos, porque as pessoas entram no Parque e veem que não está morto, que está aqui um teatro a funcionar de quinta a domingo”, afirma Patrícia Teixeira.

Sobre o futuro Variedades, ainda há esperança que, depois das obras, seja um espaço de teatro. “Portugal precisa de teatros, não faz sentido ser só mais um espaço de qualquer coisa, acho que o Variedades é teatro e eu tenho esperança que continue a ser”, acrescenta a jovem atriz.

“O tempo do antigo Parque Mayer é uma utopia” para Miguel Dias, que defende que a recuperação do “espírito e a essência do Parque Mayer” é o mais importante. Também Paulino Pereira acredita que é preciso “adaptar o Parque Mayer aos tempos que correm” porque não se pode “parar no tempo e querer um Parque Mayer como era nos anos 80 ou 70”.

Porém, existe uma realidade que é preciso reforçar: “Existem centenas e centenas de grupos amadores que fazem revista regional”, lembra José Raposo. “As pessoas têm tendência a misturar tudo, Parque Mayer, revista, portanto se acabou o Parque Mayer acabou a revista, ou se acabou a revista acabou o Parque Mayer. Para já, não acabou nada!”

Hélder Freire Costa

“Cheguei à altura em que sair já seria uma atitude de cobardia”

No Dia Mundial do Teatro, o produtor do Maria Vitória explica como ultrapassou a crise económica, mesmo sem apoios

Reparei que costuma ver do balcão os espetáculos, vê todas as sessões?

Sim, exatamente ali de cima (aponta para o balcão do lado direito). O escritório é ali ao lado e de vez em quando venho aqui espreitar porque ouço qualquer coisa que não estou a gostar e venho ver aquilo que se está a fazer. Aquelas coisas que são triviais quando estão à vontade, quando sabem que o patrão não está a assistir. Isso não prejudica o espetáculo, às vezes até são coisas que têm graça, mas eu entendo que se a revista agradou na estreia é isso que se deve continuar a fazer.

O que é que o trouxe ao Parque Mayer e como é que chegou ao Maria Vitória?

Não me trouxe nada e nem eu pensava ficar cá já vai para 53 anos - quase 54. Eu era empregado bancário e em determinada altura perdi o emprego porque chegava sempre tarde. Com os meus 23 anos gostava dos bailaricos, de andar na paródia durante a noite - a noite é muito mais agradável que o dia. Nessa altura era hábito respondermos a anúncios e eu respondi a um. Fui chamado, falei com o senhor Giuseppe Bastos, que era empresário. O teatro naquela altura vivia de letras, de cheques, e era exatamente a secção onde eu tinha estado no banco. Quando eu lhe falei disso fiquei logo admitido. Posteriormente houve ali uma empatia entre mim e ele - eu para ele era o filho que ele nunca teve, ele para mim não era o meu pai, porque eu tinha pai e mãe na altura, mas era uma pessoa muito agradável, humilde de bom trato e eu fiquei muito agradado com ele. Na altura em que ele morreu, em 1975 e, aqui, neste mesmo palco, a companhia que então atuava pediu-me para chegar ao palco e para continuar com a atividade, com o apoio deles. Uma coisa é eu pedir para uma outra pessoa, outra coisa é eu pedir para mim próprio. Assustei-me um bocadinho e a verdade é que já passaram uma data de anos.

O que o move para continuar neste projeto?

Eu fui ficando, ficando, ficando. Tive a grande oportunidade de me ir embora mas sentia que havia muita gente que dependia de mim e protelei. Até que cheguei à altura em que sair já seria uma atitude de cobardia porque surgiram os problemas - e problemas muito graves - no país que atingiram fortemente o teatro. Eu que passei a minha vida a dizer que o teatro é tão necessário como pão para a boca, que o povo sem cultura não avança e cheguei à conclusão que é uma grandessíssima mentira. Na altura em que as pessoas tiveram de optar entre as rendas de casa, o pagamento da luz, da água e a escola dos filhos, optaram por isso tudo, nada pelo teatro.

E como foi ultrapassando os obstáculos?

Foi dia a dia com muitas horas sem dormir, muito trabalho dado ao teatro, muita esperança, tive sempre esperança... Desistir era ficar a dever dinheiro às pessoas e pôr o meu nome em risco e eu tenho filhos, continuar talvez tivesse a oportunidade de conseguir ultrapassar os obstáculos. A crise arrasta-se desde 2010, 2011, até agora e portanto tem sido difícil. Mas também devo dizer que já conquistei muitas coisas, já consegui ultrapassar várias dívidas e cá estou para enfrentar o futuro e continuar a pagar a quem devo.

Na peça agora em cena existe uma rábula sobre a falta de apoio da cultura ao teatro de revista. Como é que um espetáculo tão dispendioso conseguiu sustentar-se nessa altura?

Foi bastante difícil. Por uma questão de princípio, eu tinha as pessoas muito bem pagas, uma companhia grande e não quis despedir ninguém porque entendi que tinha de levar até ao fim o espetáculo. E isso foi-me embrulhando ainda mais. No espetáculo a seguir não quis que a queda fosse muito grande. Mais uma vez me embrulhei e fui fazendo isto lentamente até conseguir pôr os ordenados com justiça, mas bem diferentes daqueles que eles tinham. Nem por isso deixámos de dar bons espetáculos. Nos últimos anos tenho tido um pequeno apoio da Câmara de Lisboa e estou muito grato. Ajuda, seja o que for, ajuda sempre. Esse apoio tem feito com que não haja aumento no preço dos bilhetes, de revista para revista vamos incluindo mais material, vamos enriquecendo os espetáculos depois da pobreza que apresentámos devido à crise.

Acredita que o teatro de revista tem possibilidade de continuar nas próximas gerações?

Há uns anos que ando a precaver essa possibilidade. No Variedades lancei nomes como Marina Mota, Carlos Cunha, José Raposo, Maria João Abreu, Fernando Mendes. Já vinham trabalhando connosco, já vinham trabalhando em teatro há bastante tempo, só lhes faltava ter a oportunidade de serem primeiras figuras. Eu tenho lançado muita gente jovem, como agora vê o caso do Flávio Gil que é um jovem que tem 27 anos e é já ator, cantor, fadista, autor, encenador, portanto é um artista completo. Tenho tido companhias recheadas de gente jovem e que andam por aí a fazer teatro.

Em relação ao Parque Mayer, considera que este espaço pode vir a ter a vida que tinha?

A vida que tinha já não virá a ter porque as mentalidades e as pessoas são outras. No Parque Mayer havia quatro teatros mais um ao ar livre e havia o cinema no terraço do Capitólio. O Parque Mayer já não vai ser assim porque acabou o ABC, o Capitólio está praticamente como um fórum. Eu estive lá a assistir a uma peça e para aí na terceira fila já não se vê o ator. É plano, não tem inclinação, o que é mau para o teatro. Também estou à espera do que é que me reserva o Variedades porque já destruíram a parte de trás onde eram os camarins e a parte lateral onde era o bar e um salão de estar, onde se faziam ensaios até. Entretanto vejo as obras paradas, o que é uma praga.

No Estado Novo, a crítica que passava nas entrelinhas dos textos era um dos pontos principais da revista. Hoje em dia esta crítica ainda faz sentido?

Antes do 25 de Abril eles não deixavam passar nada, antes pelo contrário cortavam tudo. No 25 de abril nós tínhamos em cena uma revista que se chamava Ver, Ouvir… e Calar, aconteceu a revolução e no dia seguinte os autores reuniram-se aqui de emergência e incluiram no espetáculo aquilo que a censura tinha cortado. Foi um sucesso. Depois foi o Até Parece Mentira que, na minha geração, foi o espetáculo que maior agrado teve. Nós abríamos a bilheteira à uma hora com uma fila que se iniciava na Praça da Alegria e concluía ali na bilheteira do Maria Vitória.

Mas a questão da crítica. Acha que faz sentido continuar a haver crítica política e social na revista?

É a base da revista. O mote principal é exatamente a crítica social e política. Eu peço sempre aos meus autores é que não utilizem o palavrão a não ser bem defendido, quando é necessário - às vezes é necessário dar um porra -, e também que não ofendam as pessoas que se criticam porque as pessoas têm de ser respeitadas mesmo que não estejamos de acordo com a sua atuação.

E como é que tem sido a afluência de público nestes últimos anos?

Nós tivemos público até à crise. Sentimos a crise com uma certa antecedência, sem nos apercebermos que era uma crise. Pensávamos que o público não tivesse gostado da revista e que para a próxima seria melhor. Depois o público afastou-se completamente, tivemos casas muito fracas. Mas de há dois anos a esta parte, quando houve uma estabilização governamental - é verdade que a geringonça tem pelo menos trazido às pessoas uma esperança no futuro - também o público passou a vir ao teatro. O público não tem mais dinheiro agora do que no passado mas atravessou durante a crise um momento de medo. Atualmente estamos a fazer mais do triplo das receitas que fizemos durante a crise.

No Dia Mundial do Teatro costuma distinguir alguns atores da companhia. Quem vai levar as máscaras de ouro este ano?

As máscaras de ouro são dois emblemas, um de homem e outro de mulher, com duas máscaras (a comédia e o drama) contrastado em ouro com - salvo erro - quatro brilhantes. Portanto é pequena mas é uma joia que eu ofereço com muito prazer. Este ano são contemplados a Cidália Moreira que teve neste teatro inúmeros sucessos, foi uma vedetíssima. Ela está mais dedicada ao fado e já não canta muitas vezes, a vida modificou-se um bocado, mas era senhora de uma voz tremenda e circulou pelo mundo, não foi só em Portugal. O Flávio Gil é a prova de que não basta ser idoso para se ser contemplado com este prémio. O Flávio trabalha comigo aqui há alguns anos embora seja muito jovem, tem subido os degraus todos. É neste momento o ator mais completo.