23/01/2019
 

A NOVA VIDA DOS
CELÍACOS EM
PORTUGAL

Nunca se ouviu tanto falar da intolerância ao glúten, mas ainda há mitos a desmontar e cuidados que os
estabelecimentos comerciais não seguem. A denúncia é da presidente da Associação Portuguesa de Celíacos.
Já há 16 espaços certificados em Portugal. O i visitou uma geladaria e falou com doentes de diferentes gerações
para perceber se mais informação é sinónimo de uma vida mais facilitada 

Mafalda Carvalho

TESTES PARA CELÍACOS NAS FARMÁCIAS? "NÃO SERVEM RIGOROSAMENTE PARA NADA"

TEXTO | Carmen Guilherme

Bruno Gonçalves

A doença celíaca caracteriza-se por ser uma doença autoimune do intestino causada por uma reação ao glúten, um composto de proteínas presente nos mais variados alimentos. Nestes casos, a ingestão de glúten, mesmo em pequenas quantidades, leva o organismo a desenvolver uma reação imunológica contra o próprio intestino delgado, provocando lesões. Estas fazem com que ocorra uma diminuição da capacidade de absorção dos nutrientes. Alguns sintomas são a perda de apetite, de peso e de energia. A eliminação do glúten da alimentação de um celíaco permite que o intestino e o organismo recuperem das lesões. Com a reintrodução do glúten na alimentação, as inflamações e os sintomas reaparecem. Assim, surge a necessidade de encontrar espaços seguros para que as pessoas que vivem com este problema possam comer fora de casa sem risco de contaminação. É neste panorama que surge o projeto Gluten Free, uma parceria da Associação Portuguesa de Celíacos (APC) com a Biotrab, uma empresa que trabalha na área da segurança alimentar, que tem como objetivo certificar locais 100% isentos de glúten em Portugal. Mafalda Carvalho, presidente da APC, explicou a importância destes espaços, bem como os critérios necessários para a certificação.

Como surgiu a ideia de atribuir certificados Gluten Free? 

A parceria que nós temos com a Biotrab permite atribuir um certificado aos estabelecimentos que são glúten free, ou seja, totalmente isentos de glúten. Mesmo que vendam outros produtos, é garantido que ali podem comer pratos sem glúten. Além disso, também é garantido que ao longo do processo de tratamento desses ingredientes - confeção, manipulação das matérias primas, do produto já confecionado e do seu transporte - não há contaminação cruzada, que é o maior risco que existe para os celíacos.

Muitas vezes, os produtos em si não têm nenhum ingrediente com glúten, mas ao longo deste processo pode ocorrer uma contaminação. No caso dos estabelecimentos com certificado, não temos de nos preocupar. 

O espaço mais recente com esta atribuição é a gelataria GROM no centro de Lisboa. 

No caso da GROM não existe mesmo nada que contenha glúten - desde os cones às bolachas, tudo o que se vende é gluten free e não há qualquer risco de contaminação. Neste processo de certificação, por exemplo, até a comida que os colaboradores levam de casa, se eventualmente levarem, a maneira como eles a utilizam, como a manipulam, tudo é explicado no processo de certificação, para que não haja nenhum agente que venha do exterior que possa vir a contaminar. Facilita a vida do cliente, porque não tem de pedir para abrir uma caixa de gelado nova com receio que a colher para servir tenha sido contaminada ao tocar num gelado que tem glúten. 

Na prática, o que torna um gelado deste espaço diferente de outros? Estes produtos são diferentes de outros comercializados em espaços que vendem gelados sem glúten?

A segurança. Existem outros locais no país que vendem cones glúten free, mas existem outros problemas: o meu cone pode ser glúten free e até estar embalado num plástico, mas a cuba de onde vão tirar o meu gelado pode ter sido contaminada com uma colher que tenha servido, por exemplo, um gelado de Oreo. Se depois escolher um gelado de manga, o grande problema é que, quando tirarem o meu gelado, se calhar vão mergulhar a colher naquela água quente, para que o gelado deslize melhor. Nesse caldo, hão de estar migalhas da Oreo e outros produtos que têm glúten. Na GROM eu sei que não existe esse problema.

Em Portugal são 15 os espaços com certificado Gluten Free. Recorda-se do primeiro espaço a receber esta atribuição?

Acho que foi o restaurante Open, no hotel Santa Marta, aqui em Lisboa. Foi há pouco tempo, há uns cinco ou seis anos. 

Já me falou de algumas questões a ter em conta, mas quais os critérios para atribuição do certificado? 

Não sou técnica de qualidade e, por isso, temos uma parceria com uma empresa que trabalha nesta área. Tem que haver, para já, uma rastreabilidade das matérias primas - todas elas têm de entrar no processo de confeção com a garantia de que são isentas de glúten, porque não basta que sejam matérias sem glúten. Lá está: é preciso que ao longo do seu transporte, da sua transformação, não tenham sofrido contaminação. Todas as matérias primas têm de ter um certificado em como são gluten free. Depois, começa-se a entrar no estabelecimento. 

Como é que o espaço em si pode influenciar a certificação?

Desde a forma de armazenar, à forma como os alimentos são manipulados, confecionados, embalados, até como são entregues ao cliente, tudo isso tem que ser feito de modo a ser gluten free. Vamos imaginar um restaurante que vende produtos com e sem glúten: os sem glúten estão rastreados, mas durante a confeção a colher utilizada para a massa com glúten pode ser a mesma para mexer a que não tem. É isto que a certificação garante. Dou-lhe um exemplo: uma vez, num restaurante estrelado, fui jantar e avisei que era intolerante ao glúten. Trouxeram um cesto de pão e disseram: ‘este pão é do senhor, este é da senhora’, no mesmo cesto. E eu disse: ‘Não, a partir do momento, em que vêm todos no mesmo cesto, é todo do senhor’. Eles tiveram todo o trabalho a confecionar o pão, mas pela questão de transporte fizeram ali um erro que estragou tudo o que estava para trás. Além disso, fazemos análises periódicas e aleatórias ao estabelecimentos, sem aviso prévio.

São os espaços que vos procuram? 

Acontece das duas formas. Cada vez mais se fala na questão do sem glúten, não só por causa dos celíacos. Temos estabelecimentos que vêm até nós porque têm muitas solicitações dos clientes e começam a ter interesse nesta questão. Outras vezes somos nós que vamos ao encontro dos clientes. Se eu for a um restaurante que tem nas ementas assinalado o que contem glúten, percebo que existe o mínimo de conhecimento e vejo que é um restaurante em onde se pode implementar um programa de isenção de glúten. Vejo-me como uma embaixadora desta ideia. Na prática, qualquer celíaco deve ser embaixador desta ideia. Esta é a melhor maneira de garantir que um maior número de estabelecimentos estão certificados.

Que números existem sobre os celíacos em Portugal? 

Não existem números oficias porque não é uma doença de notificação obrigatória [doença que tem de ser comunicada às autoridades de saúde pública]. Sabemos que somos cada vez mais procurados, o que dá a entender que o diagnóstico está a ser mais eficaz. E isto está relacionado com várias coisas: a classe médica está cada vez mais alerta para a doença - e é preciso estar atento, porque nem sempre aparece de uma forma convencional e clara - e, por outro lado, a população está mais atenta ao assunto e procura um diagnóstico. Atualmente, os meios de diagnóstico são muito mais infalíveis do que eram há uns tempos. Apesar de tudo, ainda existe um longo caminho a percorrer: continuam a ser cometidos erros que atrasam o diagnóstico, como por exemplo dizer para retirar o glúten antes de o diagnóstico estar confirmado.

Li, de acordo com as informações da APC, que existem 15.000 celíacos diagnosticados em Portugal, mas estima-se que o número real seja entre 70 a 100 mil, o que representa uma taxa de casos por diagnosticar de 85%. Porquê esta discrepância? 

É uma diferença que existe no mundo inteiro. É o que se chama iceberg celíaco - a parte visível é muito menor que toda a parte que está submersa. Acontece porque a classe médica tem de estar mais atenta aos sintomas, porque esta é uma doença que não é fácil de diagnosticar e, muitas vezes, quando se revela já é tarde demais. Dos 15.000 celíacos diagnosticado em Portugal, muitos não fazem sequer dieta. Isto porque os próprios médicos não percebem a importância do cumprimento rigoroso da dieta. Há muita gente diagnosticada que fica exposta aos riscos de desenvolver doenças, riscos esses que seriam evitados caso a dieta fosse cumprida. Se o fizer, tem a mesma expectativa de vida de um cidadão comum.
ATÉ A COMIDA QUE OS COLABORADORES DE UM ESPAÇO LEVAM DE CASA E A MANEIRA COMO A UTILIZAM É EXPLICADO NO PROCESSO DE CERTIFICAÇÃO
 
E o que compõe essa dieta?

Grande parte do que está na roda dos alimentos está isento de glúten e não é preciso fazer grande sacrifício. Há um conjunto muito pequeno de produtos que devem ser substituídos por outros com o mesmo tipo de sabor, textura e comportamento.

Este número, os 15.000 diagnosticados, tem crescido de forma constante?

O número cresceu muito. Os médicos estão mais atentos, as pessoas mais atentas e os meios de diagnóstico são mais incisivos. Há muita gente que acha que é intolerante ao glúten porque fez um teste de farmácia e isso não serve para rigorosamente nada, serve para as pessoas gastarem algum dinheiro e para quem o fez ganhar algum dinheiro. Mas em termos de diagnóstico não serve. Pessoas celíacas são pessoas que foram diagnosticadas de forma correta, através do seu historial clínico, a sua sintomatologia, os marcadores que determinam a presença quase certa da doença e várias biopsias. 

Além de questões de saúde, há quem procure estes espaços por outras questões. Acha que os espaços Gluten Free estão na moda? 

Estão e ainda bem. Adoro essas pessoas, sou fã delas, porque são essas pessoas que fazem com que existam espaços a vender produtos sem glúten. Acha que alguém fazia um negócio para vender a dezenas de milhares de pessoas? Se se trata de um negócio que cresce constantemente, é porque efetivamente existem muitas pessoas a consumir sem glúten. Adoro a Victoria Beckham, o Djokovic. Eles consomem por moda, para emagrecer, o que seja. Quantas mais pessoas assumirem estes hábitos, mais produtos existirão para mim. 

Não sente que esta moda desvaloriza o problema de saúde?

Não desvaloriza nada, até nos dá oportunidade de falar sobre ela. Há espaço para todos. Até dá para corrigir algumas ideias sobre o assunto, porque, na verdade, são ditas muitas asneiras. Por exemplo, a ideia de que retirar glúten da dieta ajuda a emagrecer é mentira. Se eu substituir tudo o que consumi com glúten por produtos sem esta componente, eu vou engordar. Os produtos desenvolvidos para substituir produtos com glúten são muito mais calóricos do que qualquer equivalente com glúten. Têm mais gordura, em geral mais açúcares, tem tudo para engordar. Só é verdade se eu deixar de comer massa, pão... Aí sim, eu vou emagrecer. Mas mesmo que digam uma série de asneiras como esta, é-me indiferente: o que eu quero é que se fale sobre este assunto.

O facto de as pessoas procurarem este tipo de espaços ou produtos sem que exista um problema de saúde pode desencadear uma intolerância? 

É obvio que se eu evitar certos alimentos de forma consistente e durante um longo espaço de tempo, é normal que o organismo diga ‘há muito tempo que não te via por cá’. Não lhe sei responder a isso, nem sei se há estudos que comprovem isso. É verdade que nos entupimos com coisas que contêm glúten - qualquer pastelaria só tem bolos para comer e glúten por todo o lado. Se as pessoas abusarem deste tipo de alimento vão-se sentir mal. O culpado é o glúten? É parte do vilão, mas há outros produtos que não têm nada a ver com o glúten e que se forem retirados da alimentação também ajudarão a fazer com que nos sintamos melhor.

Vão atribuir mais certificados brevemente? 

Quando houver essa possibilidade. Seguramente que há projetos em curso. Além disso, estão sempre a aparecer novos espaços, felizmente.

A MODA DO GLUTEN FREE MUDOU A VIDA DOS CELÍACOS EM PORTUGAL

Sofrem sem que ninguém os ajude, pois a doença é de difícil diagnóstico. Emagrecem muito, sofrem dores agudas, perdem energia e ficam sem apetite. Felizmente, nos últimos anos os médicos estão mais sensíveis para o problema e um diagnóstico precoce favorece a vida dos celíacos. Histórias de quem se habituou a viver sem glúten

TEXTO | Carmen Guilherme

Comer produtos sem glúten tornou-se uma moda. Além dos primeiros espaços gluten free, encontrar produtos isentos não parece uma tarefa difícil, sobretudo nos supermercados que hoje têm secções específicas para este tipo de produtos. Será que esta moda mudou a vida dos doentes celíacos em Portugal? O i procurou pessoas que sofrem da doença e quis saber o que mudou nos últimos tempos.

Manuel Rodrigues tem 76 anos. Desde o dia em que recebeu o diagnóstico – já lá vão mais de dez anos – garante que o acesso a produtos nem sempre foi fácil, mas que a moda de comer sem glúten levou a um investimento favorável no mercado. Antes, comer pão ou massas era impensável. Agora, tudo é mais fácil: “Hoje há cada vez mais produtos, é fácil ir aos supermercados e encontrar variedade. A maioria são produtos importados, mas nota-se o desenvolvimento e progresso que há uns anos não existia. Dar a conhecer o glúten e o que pode acontecer com a ingestão deste fez toda a diferença”, contou. Contudo, no que toca a espaços 100% isentos de glúten e que tragam a garantia de segurança, Manuel defende que estes continuam a ser poucos, acrescentando que é fácil encontrar estes espaços em grandes centro urbanos, mas que fora se torna difícil.

Cinquenta a três anos separam Manuel de Inês, uma jovem que foi diagnosticada aos 18 anos, mas ambos partilham a mesma opinião. “Acho que com as modas e a preocupação pelo ser saudável trouxe coisas boas. As pessoas que têm a doença celíaca hoje têm muito mais oferta do que há 5 anos. Eu sinto que quando descobri não havia muita oferta”, começou por dizer Inês Cunha, acrescentando que os espaços com certificado gluten free “são tão importantes que é difícil encontrar uma resposta”.

“Quando dou por mim a comer num espaço certificado pareço uma criança a ver doces pela primeira vez ou alguém que nunca viu o mar. Acho que é uma boa comparação para se perceber a importância que têm para mim e para a minha vida. É pena que ainda sejam tão poucos”, frisa. Para os celíacos estes espaços representam comer com segurança e sem receio de contaminação, ainda assim a qualidade tem um preço.

Valor de mercado

Gluten Free De acordo com a empresa Allied Market Research, o mercado de glúten free valia, em 2017, 3.126 milhões de dólares (cerca de 2.7 milhões de euros). A empresa de análise de dados e estudos de mercado revela que, até 2022, este mercado deverá crescer até aos 5.279 milhões de dólares (4.644 milhões de euros). Os produtos da área da panificação são os que terão maior crescimento. O mesmo cenário deverá ocorrer na área da comida de bebé, das massas e da comida ‘pronta-a-comer’. Segundo a Allied Market Research, a exigência cada vez maior por parte dos millenials tem vindo a exigir um crescimento do mercado.

PREÇOS

O acesso a produtos sem glúten começou a ser mais fácil, mas também implica um maior investimento. Marta Pires, de 35 anos, é da opinião que “os preços são mais altos”, talvez pelo trabalho que requer “a ausência de contaminação cruzada”. “Pela experiência que tenho, alguns produtos, como por exemplo o pão, podem chegar a ser três a cinco vezes mais caros”, diz Marta. “Tenho sorte de ter a possibilidade de poder comprar estes produtos, porque acredito que algumas pessoas não possam fazer o mesmo”, refere Manuel. Mas nem todos partilham da mesma opinião. Lídia Luís, de 47 anos, considera que a maior parte dos espaços são acessíveis e que a segurança é o mais importante. “Acho que a maior parte dos espaços são acessíveis, talvez alguns produtos do supermercado sejam mais caros”, afirma Lídia, acrescentando que o certificado permite que se sinta segura, já que “não basta estar assinalado que não tem glúten”.

SEM GLÚTEN, MAS NÃO ISENTO

Se há coisa em comum entre Manuel, Inês, Marta e Lídia é o facto de todos já terem tido problemas com produtos que diziam não conter glúten e é por isso que valorizavam tanto a importância de um certificado glúten free, já que muitas vezes os produtos podem ter assinalado que não contêm glúten, mas têm vestígios. “Não me sinto sempre segura, se não tiver certificado, fui a um restaurante que na ementa estava assinalado que não tinha glúten, mas quando recebi o prato vi que tinha pão. É preciso ter atenção, mais cuidado, no meu caso foi fácil perceber, mas e se fosse uma criança com o mesmo problema? Possivelmente comia tudo sem que os pais se apercebessem”, conta Lídia. “Acho que há vários espaços que oferecem opções sem glúten, onde há sempre o risco de contaminação”, acrescenta Marta. Também Manuel teve uma experiência semelhante: “Uma vez pedi uma pizza sem glúten, esperei três horas para ser servido e quando regressei senti-me mal disposto. Existia uma percentagem de glúten”, queixa-se. Para Inês, explicar esta intolerância pode ser difícil: “Aconteceu várias vezes dizerem-me que o produto era sem glúten e eu dizia que era celíaca e nem os próprios funcionários tinham formação sobre isso. Outras vezes, digo que tem que ser com talheres diferentes, que não posso ter pão no meu prato ou certos artigos para não haver contaminação e as pessoas ficam desconfiadas e acham que eu estou ali só a dificultar o trabalhos e sinto-me mal por isso, mas tenho de evitar a todo o custo a contaminação”, relata.

A DIETA

Ser celíaco significa ter uma dieta regrada e uma mudança de vida, mas para a maioria esta já não é uma dificuldade. “Para mim tomar medicação era pior do que fazer uma dieta. Acho que não é difícil”, diz Lídia Cunha. Para Marta, por vezes, alguns alimentos “deixam saudade”, mas confessa que “quando se tem sintomas fortes pouco depois de ingerir alimentos com glúten”, percebe que “custa menos prescindir deles”. Da mesma opinião partilha Inês Cunha: “Só queria a solução para o meu problema. Se esses alimentos me fazem mal então não é difícil, penso logo nas consequências que trazem na ingestão”. “Hoje sei tratar-me perfeitamente e não é difícil, é uma questão de disciplina”, defende Manuel, que destaca o papel da Associação Portuguesa de Celíacos no pós-diagnóstico.

DIAGNÓSTICO

Se há coisa que o tempo trouxe foi a facilidade de diagnóstico. Apesar de este ser um processo penoso e demorado, atualmente é mais fácil diagnosticar e estar atento à doença, do que era há uns tempos. Marta Pires relembra que os sintomas começaram por volta dos 12 anos com uma anemia por deficiência de ferro, mas foram precisos mais dez anos e muitos outros sintomas para finalmente perceber o que tinha. Hoje, quando olha para trás, garante que os próprios sintomas podem ter muitas causas e dificultar o diagnóstico.

Também Lídia, que recebeu o diagnóstico há menos de um ano, recorda que sempre teve “más digestões, barriga inchada e hemoglobina muito baixa”. Há anos que realizava a endoscopia alta por prevenção, depois de o pai ter sofrido um cancro no estômago, mas só recentemente descobriram os primeiros vestígios da doença celíaca. “Os casos estão a ser detetados muito tarde porque antes esta era considerada uma doença pediátrica. É um arrasto, arranjei sempre muitas desculpas, todas elas erradas, e depois traz muitos problemas”, conta.

Apesar de não terem sido tempos fáceis, Manuel recorda o diagnóstico com algum humor: “Quando o médico me disse ‘é celíaco’, eu perguntei se tinha algum cancro. Nunca tinha ouvido falar”, recordou, acrescentando que felizmente nunca teve “muitas dores”, mas que perdeu muito peso. Tal como Manuel, também Inês, hoje com 23 anos, recorda que na altura perdeu muito peso. Para a jovem o processo até ao diagnóstico foi uma das coisas mais difíceis pelas quais já teve de passar. “Quando não tens problemas de saúde, nem dás valor porque sempre te sentiste bem. Só sentes que a saúde é realmente importante quando não a tens. E eu senti isso na pele. Ter de ir dia sim, dia não ao hospital. Fazer exames constantemente, fazer dietas para certos exames como a endoscopia e a colonoscopia é muito desgastante, ainda para mais quando fazes isso tudo e chegas à conclusão que não sabes o que tens. Tinha 60kg no início, no final do processo tinha 42kg. O ano de 2013 para 2014 foi longo. Foi um ano de incertezas, magreza extrema, mas tudo o que é mau tem sempre um fim”.

“TEMOS DE IR COMER PARA A RUA PARA PREVENIR CONTAMINAÇÃO”

A GROM é o espaço mais recente em Portugal a receber o certificado Gluten Free. Dezasseis anos depois da abertura da primeira loja, em Itália, chega agora ao Chiado

TEXTO | Carmen Guilherme

A pequena gelataria ocupa o número 42 daquela que é uma das ruas mais movimentadas na baixa de Lisboa. Quando entramos no espaço, na Rua Garret, reparamos que existe apenas um balcão para o público se sentar, mas rapidamente o laboratório onde a ‘magia’ acontece rouba toda a atenção. Na GROM, todos os produtos, sem exceção, são isentos de glúten e para isso existe uma “regra fundamental”: “não podemos trazer comida com glúten cá para dentro. No caso de existir, tem de estar embalada e não a podemos abrir. Temos um espaço onde a podemos aquecer, mas para comer temos de ir para a rua para prevenir qualquer risco de contaminação”, começa por contar ao i Rúben Abreu, que trabalha no espaço desde a sua abertura, em julho. O funcionário diz mesmo que é o mínimo que pode ser feito, já que a isenção de glúten é a principal “promessa” ao público.

Rúben explicou ainda que, a primeira coisa que fez assim que foi contratado foi perceber o que era o glúten e o que significa sofrer de doença celíaca. “Ao trabalhar aqui fiquei mais consciente. Para mim, não é um sacrifício não comer glúten quando estou a trabalhar, quando há pessoas que não podem a vida toda”, defende.

GELADOS NATURAIS

Além de não conterem glúten, os gelados da GROM não têm aromatizantes, corantes, conservantes e emulsionantes químicos. Todos os produtos são cultivados na quinta Mura Mura, entre Langhe e Monferrato de Piemontee (Itália) e, posteriormente, tratados na fábrica de Turim. Às lojas chega apenas uma base de gelado, o resto acontece no laboratório pelas mãos dos funcionários, que fazem as misturas e dão forma aos gelados com a ajuda da “Carpigiani”, a máquina que dá textura aos gelados. “Uma vez produzido [o gelado] deve ser consumido no período de, aproximadamente, sete dias. Para nos assegurarmos que estão sempre com a textura e com sabor corretos, os nossos colaboradores fazem provas duas vezes ao dia”, explica ao i Patrícia Neto, responsável pela GROM em Portugal. Além dos gelados, podemos ainda comprar na GROM os biscoitos que são utilizados nos gelados, bem como granizados e vários tipos de café, mas tudo depende da época, já que alguns produtos são sazonais.

CERTIFICADO

Antes de receberem o certificado, há cerca de dois meses, Patrícia Neto admite que as pessoas ficavam surpreendidas por todos os produtos serem isentos de glúten. Agora, com a certificação bem visível na loja, “a procura tem aumentado” e a responsável garante que as as mensagens de agradecimento dos celíacos têm-se multiplicado.

INTOLERANTE AO GLÚTEN? ESTES SÃO ALGUNS DOS ESPAÇOS MAIS SEGUROS PARA SI

SERGIO CRIVELLI

Se é fã de comida italiana, este restaurante pode ser a solução. Nasceu pelas mãos do chef Sergio Crivelli e além das ofertas para o cliente comum, aqui vai poder encontrar desde entradas a risottos, massas frescas e pizzas totalmente gluten free. O ideal para quem gosta de comida italiana, mas não quer correr riscos...

Rua de Brito Capelo, Matosinhos, Porto

RICE ME

A grande novidade deste restaurante é que o arroz é o ingrediente principal de quase todos os pratos. O próprio restaurante diz na sua página que a “ementa é diversificada para agradar a veganos e carnívoros”. Todas as opções do menu são pensadas com base numa alimentação saudável. E, claro, sem esquecer os celíacos.

Rua Carlos Testa, Praça de Espanha, Lisboa 

GREEN COIMBRA

Abriu portas há cerca de um ano e tem pratos pensados em pessoas que tenham restrições alimentares. Oferece uma dieta totalmente livre de glúten e tem como objetivo transformar o fast food em comida saudável. No menu pode encontrar desde pizzas a brownies.

Avenida Mendes Silva, Coimbra Shopping

GLUTEN FREE STORE

O espaço abriu para oferecer uma alimentação saudável com base em produtos sazonais. Na loja, encontra-se pão fresco e vários tipos de bolo. Na sua produção, são usadas farinhas de cereais totalmente isentas de glúten. O menu varia todos os dias e são servidos pequenos almoços, almoços e lanches

Rua Dr. Eduardo Santos Silva, Porto

BOCA DE LEÃO

A Boca de Leão é uma pastelaria de fabrico próprio, onde os produtos são feitos a pensar em todos os clientes, incluindo celíacos, diabéticos e pessoas que são totalmente intolerantes à lactose. É o espaço ideal para quem quer comer um bolo à vontade, sem medo do que possa estar ‘escondido’ na massa.

R. Dr. Manuel Monteiro, Póvoa de Varzim

MY WAY

Boas notícias para os madeirenses: o My Way é o primeiro restaurante sem glúten na Madeira. Aqui pode encontrar os pratos da cozinha regional madeirense, como a espetada e o peixe-espada com banana e maracujá, mas também pratos da cozinha tradicional portuguesa e internacional. Todos os produtos são isentos de glúten e de lactose.

Rua da Ponta da Cruz, Funchal

DESPENSA N6

É uma pastelaria com produtos sem glúten e sem açúcar, confecionados com ingredientes biológicos. Além dos produtos de pastelaria, o espaço também oferece produtos a granel, como amêndoas e granola de cacau.

6A Avenida Sacadura Cabral, Lisboa 

MYiCED

A gelataria MYiCED tem produtos inovadores: o frozen yogurt 2.0 (iogurte gelado em modo self-service), o bubble tea e as waffles confecionadas na hora. A marca é portuguesa e oferece um iogurte gelado isento de glúten, sem lactose e sem açúcar. O espaço dispõe de 60 sabores rotativos.

Praça Rodrigues Lobo, Leiria 

Catarina Roquette Durão

"CELÍACOS PODEM PÔR NO IRS COMO DESPESA DE SAÚDE COMIDA SEM GLÚTEN"

TEXTO | Tatiana Costa

A nutricionista diz que não é recomendável que pessoas retirem o glúten da sua alimentação por opção, porque pode ter malefícios como, por exemplo “a diminuição do consumo de fibra”

O que é a doença celíaca?

A doença celíaca é uma doença crónica autoimune, que ocorre em indivíduos com predisposição genética, causada pela permanente sensibilidade ao glúten. Glúten é a denominação genérica atribuída ao conjunto de proteínas insolúveis presentes no endosperma de alguns cereais. As prolaminas, frações peptídicas específicas das proteínas insolúveis, são o fator agressor e encontram-se em cereais como o trigo (glutenina e gliadina), o centeio (secalina) e a cevada (hordeína). Normalmente, as prolaminas são mais resistentes à digestão completa pelas enzimas intestinais, podendo chegar ao intestino intactas. Num intestino saudável, estas frações proteicas são inócuas, uma vez que a barreira intestinal está intacta impedindo a sua passagem através da parede intestinal. Contudo, nas pessoas com doença celíaca, estes peptídeos atravessam o epitélio intestinal, desencadeando uma resposta inflamatória e uma resposta imunológica sistémica que resulta em lesões da mucosa intestinal. Estas lesões têm a consequência de diminuir a capacidade de absorção de nutrientes.

Como pode ser feito o diagnóstico desta doença? É difícil?

O diagnóstico de doença celíaca baseia-se em sinais e sintomas sugestivos da doença, em parâmetros laboratoriais (testes serológicos ao sangue para pesquisar existência de anticorpos característicos da doença), e em avaliações histológicas [biópsia(s) intestinal(ais)] para confirmação do diagnóstico. Estes meios - em isolado - não são suficientes pois existem outras condições com alterações dos parâmetros laboratoriais semelhantes às observadas na doença celíaca. Assim, para um diagnóstico seguro, é fundamental a realização de biópsia. Ou seja, é necessário observar diretamente fragmentos de tecido intestinal que são recolhidos por sonda numa endoscopia digestiva alta. O diagnóstico deve ser feito enquanto o indivíduo não está a praticar uma dieta sem glúten.

Quais são os sintomas? Podem ser confundidos com outras doenças?

Sim, podem, já que a manifestação clínica da doença é complexa e variável. Nas crianças, a forma típica caracteriza-se mais comummente por distensão abdominal, diarreia crónica, vómitos, obstipação (prisão de ventre), fezes pálidas com mau odor ou com gordura (esteatorreia), atraso do crescimento, perda de peso, fatiga e alterações de humor como irritabilidade. No adulto, é frequente a doença manifestar-se de forma atípica, sendo os sintomas mais comuns anemia por carência de ferro sem explicação, aftas, dores articulares/ósseas, alterações dermatológicas, fatiga crónica, depressão, irritabilidade, e - nas mulheres - amenorreia, infertilidade e abortos espontâneos recorrentes.

Qual é a diferença entre a doença celíaca e a intolerância ao glúten?

Na doença celíaca, verifica-se envolvimento de mecanismos autoimunes e os testes serológicos evidenciam a existência de autoanticorpos específicos. Como explicam Fátima Ferreira e Felipe Inácio num artigo publicado este ano na Revista Portuguesa de Imunoalergologia, existe uma entidade denominada de sensibilidade ao glúten não autoimune que é usada para descrever pessoas com sintomas não específicos e sem a resposta imunológica característica da doença celíaca. Nestas pessoas observam-se reações adversas a alimentos que contêm glúten, mas não se observa a existência de autoanticorpos ou de lesões da mucosa do intestino delgado. Normalmente, a reação adversa manifesta-se por desconforto gastrointestinal persistente que, em alguns indivíduos, melhora com uma dieta isenta de glúten. Estes autores salientam que a sensibilidade ao glúten não pode ser distinguida clinicamente da doença celíaca, pois os sintomas podem ser comuns. Destacam também que se tem tentado explicar o mecanismo desta entidade, mas que ainda não é conhecido, tendo sido proposto que - para além do glúten - outros compostos presentes nos cereais possam induzir sintomas. Atualmente, o diagnóstico de sensibilidade ao glúten é de exclusão. 

Onde é que podemos encontrar o glúten na alimentação?

O glúten está presente no trigo, no centeio e na cevada. Assim, estes cereais, os seus derivados e alimentos que os incluam na sua composição têm de ser completamente afastados da alimentação do celíaco. Quanto à aveia, ainda há controvérsia. Alguns estudos indicam que este cereal, embora em menor quantidade, possui prolaminas, enquanto outros estudos afirmam que a aveia não as contém. De qualquer maneira, a aveia é frequentemente plantada nos mesmos terrenos e é processada nas mesmas fábricas que os outros três cereais, havendo risco de contaminação cruzada. Assim, estes quatro cereais e os seus derivados devem ser afastados na dieta isenta de glúten. 

Há alguma lista detalhada para ajudar a lidar com esta doença?

A Associação Portuguesa de Nutrição publicou um e-book em 2014 sobre alimentação na doença celíaca que é muito útil e onde se apresentam listas de ingredientes, matérias-primas e alimentos com e sem glúten. Neste livro os grãos, farinhas e amidos que contêm glúten são: cevada, centeio, aveia, cuscuz, trigo (farelo de trigo, gérmen de trigo, amido de trigo), kamut, durum, einkorn, graham, seitan, semolina, espelta e triticale. Os alimentos a evitar por doentes celíacos são: Farinhas e amidos de trigo (triticale, espelta, kamut, etc.), centeio, cevada, aveia e massas alimentícias; pão, produtos de pastelaria e confeitaria, bolachas e biscoitos; iogurtes com cereais; queijo creme e queijos comerciais de composição desconhecida; farinheira, alheira e outros enchidos; pizzas, lasanha, canellones e ravioles; salgados (rissóis, croquetes, etc.) e panados; delícias do mar e variantes; cerveja, malte e extrato de malte; compotas ou sumos industriais com espessantes desconhecidos; molho branco, molhos de comércio, sopa em cubo ou de pacote; sobremesas instantâneas, gelados comerciais de composição desconhecida; e cereais de pequeno-almoço.

O mercado e a restauração hoje em dia têm oferta suficiente para pessoas com a doença celíaca ou ainda existem limitações? 

Hoje em dia têm muita oferta, embora possa ainda não ser suficiente e ainda existam limitações. A página da Associação Portuguesa de Celíacos é uma excelente fonte de informação e faculta listas de alimentos isentos de glúten fornecidas pela indústria alimentar.

Uma alimentação sem glúten tem de ser obrigatoriamente mais cara?

A indústria alimentar para garantir que um produto não tem glúten tem de ter linhas de produção exclusivamente dedicadas a produtos sem glúten. Isto encarece a produção. É ainda importante salientar que existem benefícios para os doentes celíacos como poderem apresentar no IRS encargos com alimentos sem glúten como despesa de saúde desde que justificados por relatório médico. Na página da Associação Portuguesa de Celíacos, podem ser consultados os benefícios.

Existem pessoas que retiram o glúten da alimentação por opção. Há algum benefício associado a esta alteração? E malefícios tem?

Não está recomendado que as pessoas, por opção, retirem o glúten da alimentação. Pelo contrário, este tipo de alteração pode ter malefícios como a diminuição do consumo de fibra ou o prejuízo da possibilidade de diagnosticar verdadeira doença celíaca. Este último malefício é grave, pois se um celíaco não diagnosticado restringir o glúten, a biópsia pode dar inconclusiva não ficando diagnosticada a doença e podendo resultar na prática de uma alimentação inadequada (não totalmente isenta de glúten) que vai agravando a doença. Adotar uma dieta sem glúten só está recomendada para os casos de doença celíaca. Na sensibilidade ao glúten não autoimune, o médico e nutricionista podem recomendar uma dieta sem glúten seguida de prova de reintrodução monitorizada para avaliar a melhoria dos sintomas, mas esta abordagem tem limitações (baixa especificidade e risco de o efeito placebo promover perceção de melhoria dos sintomas).

E as grávidas que sejam celíacas, têm de ter cuidados especiais? 

As grávidas com doença celíaca, devem praticar uma dieta isenta de glúten. Ao mesmo tempo, devem respeitar as recomendações de uma alimentação saudável (completa, adequada e variada). Devem, na minha opinião, pedir aconselhamento a um nutricionista para as ajudar a praticar a alimentação mais adequada a esta importante fase do ciclo de vida.

Em Portugal quantas pessoas são celíacas?

A doença celíaca é comum em países cujos habitantes são de ascendência europeia, estimando-se uma prevalência de 1% na Europa. Em Portugal há poucos estudos, mas a prevalência estimada situa-se em cerca de 0.7% da população.

Que recomendações deixa aos doentes?

Que consultem o médico e o nutricionista e que leiam atentamente os rótulos dos produtos alimentares. Adicionalmente, que na procura de informação tenham o cuidado de recorrer a entidades idóneas. Boas páginas online são da Associação Portuguesa de Celíacos, da Associação Portuguesa de Nutrição e do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável.

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