Para muitos, não é novidade. Outros serão, porventura, apanhados de surpresa: Santo António, o santo pelo qual Lisboa sai à rua na noite de hoje (e, cada vez mais, nas restantes noites juninas), não é o padroeiro da cidade. São Vicente é, desde 1173, o santo patrono de Lisboa, obra do primeiro rei português, D. Afonso Henriques, que ordenou que as relíquias do mártir Vicente – que viveu no séc. iii – fossem trazidas para a capital. As relíquias lá chegaram de barco, vigiadas por um bando de corvos, que acabaram por se tornar um dos símbolos da iconografia alfacinha e até fazem parte do brasão da cidade.
Contudo, o santo casamenteiro acabou por lhe tomar as vezes. Nascido a 15 de agosto de 1195, em Lisboa, Santo António depressa reclamou para si o carinho das gentes. Morreu a 13 de junho de 1231, em Pádua, e a data do seu falecimento é hoje vivamente celebrada em várias partes do mundo. Por isso, e dado o vigor da festa, Alberto Júlio Silva, autor do livro “Os Nossos Santos e Beatos e Outros Santos que Portugal Adotou” [ed. A Esfera dos Livros] arrumou assim a coisa: «Santo António é o padroeiro da cidade de Lisboa – tanto que dia 13 de junho é feriado em Lisboa –, S. Vicente é padroeiro do Patriarcado». E em Coimbra também fez das suas. Embora a padroeira seja a Rainha Santa Isabel (o dia da cidade, 4 de julho, corresponde à morte da monarca, em 1336), esta é outra das cidades sob forte influência antoniana. Como lembra o autor, esta é, a par de Lisboa, a única cidade portuguesa onde o santo viveu – e foi até em Coimbra que contactou pela primeira vez com os franciscanos, ficando tão impressionado com os votos de pobreza que “em 1220 abandonou a sua primitiva ordem – os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho – e ingressou na Ordem Franciscana”. O dia 13 de junho é ainda feriado em mais duas mãos-cheias de cidades portuguesas espalhadas de norte a sul do país, desde Vila Real a Reguengos de Monsaraz.
Mas estas não são as únicas cidades onde o padroeiro não é o santo mais acarinhado – ao ponto de merecer uma dedicada festa, oferta dos populares. Em Évora, por exemplo, o padroeiro oficial da cidade é São Pedro, mas a festa popular com mais destaque desta capital alentejana é mesmo a feira de São João. Aproveitemos a deixa para rumar ao Porto, e aqui não há que enganar. Não há nenhum que faça sombra a São João e à sua festa, celebrada na noite de 23 para 24 de junho. No Brasil, esta também é uma das datas celebradas que, a par dos dias dedicados a São Pedro e a São Paulo, se englobam naquilo a que o país-irmão abrevia para “Festas Juninas”. Em Aveiro, são os santos da casa a fazer milagres. Neste caso, uma beata: falamos de Santa Joana, princesa de Portugal, que recusou o casamento para ingressar num convento dominicano. Morreu a 12 de maio de 1490, dia em que a cidade celebra o feriado municipal.
Noutras cidades, e quando não há um santo padroeiro especificamente ligado à terra, foram escolhidos santos mais democráticos – isto é, que pertençam ao “núcleo duro” de santos da Igreja. Exemplo disso é São José (19 de março), o padroeiro de Santarém e Beja, embora nesta última o feriado municipal corresponda à Quinta-Feira de Ascensão. Também na Guarda sucede algo semelhante: a padroeira é Nossa Senhora da Assunção, mas o dia da cidade é 27 de novembro, data em que D. Sancho i entregou a carta de foral ao município. Em Leiria, idem: o feriado, 22 de maio, corresponde ao dia de elevação a cidade, e a padroeira é Nossa Senhora da Encarnação. O Funchal, que tem como patrono São Tiago Menor, também comemora o feriado municipal a 7 de setembro, dia em que foi elevado a cidade.
Já Setúbal também tem um patrono de peso, São Francisco Xavier, mas que foi destronado pela poesia: o feriado da cidade comemora-se a 15 de setembro, data de nascimento de Bocage. Continuando a descer, São Vicente é o patrono do Algarve, mas Faro está sob a proteção de S. Tomás de Aquino.
E o padroeiro do país será o “açambarcador” Santo António? Nem por isso: a proteção lusa cabe a Nossa Senhora da Conceição.
Santos e padroeiros à parte, junho é mesmo o mês de muitos deles. No mapa reunimos os santos padroeiros de cada capital de distrito. Agora, siga a romaria.