15/04/2024
 
 

A Perfeita Imperfeição: Kintsugi, Democracia e Sociedade Portuguesa

Este momento democrático de Portugal pode ser visto como um Kintsugi político, onde, respeitando os 50 anos desde o 25 de abril de 1974, reconhecemos as imperfeições e trabalhamos juntos para fortalecer a nossa democracia, honrando nossa história e valorizando cada "peça" deste complexo mosaico social e político.

Recentemente, uma viagem ao Japão revelou-me o "Kintsugi", uma prática e filosofia que vê na reparação de cerâmica partida com laca e pó de ouro não uma mera técnica de restauro, mas uma celebração da história e singularidade de cada peça.

Este processo não só devolve a utilidade ao que estava partido, mas também destaca as fissuras, enaltecendo-as com ouro, prata ou platina.

Mais do que uma arte, o Kintsugi é uma filosofia de vida que nos ensina a ver beleza e oportunidade na imperfeição e na transformação. Esta filosofia encoraja-nos a aceitar as falhas e cicatrizes como partes essenciais da nossa história e identidade, conferindo-lhes valor e significado.

Atravessamos um momento de profunda reflexão na democracia portuguesa, evidenciado pela recente polarização política e pela eleição de um número significativo de deputados de extrema-direita a que se juntam ainda alguns de extrema-esquerda. Estas "fissuras" na nossa estrutura democrática, tal como as peças reparadas pelo Kintsugi, trazem à superfície a oportunidade para os moderados de todas as esferas políticas demonstrarem sua importância crucial para o funcionamento com elevação e respeito das nossas instituições.

Este momento democrático de Portugal pode ser visto como um Kintsugi político, onde, respeitando os 50 anos desde o 25 de abril de 1974, reconhecemos as imperfeições e trabalhamos juntos para fortalecer a nossa democracia, honrando nossa história e valorizando cada "peça" deste complexo mosaico social e político.

No que toca aos vários setores da sociedade portuguesa, como as forças de segurança, profissionais de saúde, professores, e muitos outros, enfrentamos desafios semelhantes. Estes setores, fundamentais para o bem-estar e segurança da nossa sociedade, têm expressado legítimas preocupações e ambições de carreira, muitas vezes expressos através de greves e manifestações. Aqui, novamente, o princípio do Kintsugi oferece uma perspectiva que devemos valorizar. Ao invés de ver estas tensões sociais como meras falhas sistémicas, podemos encará-las como oportunidades "de ouro" para promover a concertação social, trabalhando juntos para encontrar soluções que melhorem a qualidade de vida destes profissionais essenciais, que são famílias portuguesas como qualquer outra, contribuindo assim para um maior equilíbrio na sociedade. Através do diálogo e da cooperação, podemos "emendar" estas fissuras, não para esconder as imperfeições, mas para celebrar o processo de crescimento e fortalecimento coletivos, conduzindo a uma sociedade mais justa e equilibrada.

O Kintsugi é a sábia aceitação e valorização da imperfeição, e esta filosofia oferece uma poderosa metáfora para o nosso momento atual enquanto sociedade. Devemos refletir sobre como, tanto na esfera política quanto social, as "cicatrizes" e "fissuras" podem ser transformadas em linhas de união e crescimento.

Talvez tenha aprendido bem longe daqui, a mais de 11 mil quilómetros, no Japão, mas quero aplicar cá em Portugal que a filosofia do Kintsugi nos deve inspirar tanto a nós próprios quanto à nossa sociedade a abraçar as imperfeições, trabalhando em conjunto com alternativas políticas e não bloqueios democráticos para construir ou emendar um futuro onde cada peça, cada setor, e cada voz contribua para a beleza e a resiliência do país como um todo.

Finalizo com um pensamento japonês: Wabi-sabi ni tsuji futa, ou 破れ鍋に綴じ蓋, que se traduz aproximadamente como "Até uma panela partida tem uma tampa que lhe serve bem."

Saibamos reconstruir cada momento da nossa sociedade, cada situação pessoal, cada oportunidade política e aceitar a imperfeição de tudo.

"Após algo estar partido, pode ser (re)feito mais belo" disse Leonard Koren. Que seja por aí que vamos, a ver o lado positivo porque para falar mal e ver o lado negativo das coisas já há muita gente.

 

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