19/04/2024
 
 

Da amarga realidade mostrada com ternura numa exposição de fotografia ao discurso de que necessitamos para muda a vida

Ninguém quer, já hoje, recolher de tais fotos e da força e resistência que os seus protagonistas nelas parecem revelar, o seu projeto de vida atual, ou um futuro que o reflita, mesmo que modernizado e alindado pelo tempo.

Visitei, na passada semana, a exposição de fotografia de Eduardo Gageiro, em exibição na Cordoaria Nacional.

A diversidade e riqueza dos temas abordados, a que acresce a qualidade das fotos expostas, revelam bem a pessoa que as fez, e o mundo e um povo tal como o autor os entendeu.

O que mais impressiona em tais fotos é o desvelar de uma realidade que, com os meus sessenta e oito anos, ainda conheci, mas que, diga-se a verdade, esquecera já e que o próprio povo nelas retratado se esforça, todos os dias, por esquecer também.

É que, pese a heroicidade daqueles homens e mulheres, o tempo que ali se pode ver não era, em geral, bom.

Com efeito, para além da beleza trágica que Eduardo Gageiro, com tanta arte e sensibilidade, nos dá a lembrar, fica-nos, destes seus documentos, uma imagem de pobreza antiga e enraizada que as gerações mais novas, nascidas anos depois do 25 de Abril, não conheceram já e cujas memórias os pais delas não querem, justamente, ressuscitar.

Há, claro, uma força e uma beleza nessas fotos e retratos que Eduardo Gageiro nos deu generosamente a ver, que nos autorizam olhar para elas com alguma ternura, permitindo-nos suportar, assim, melhor os sinais da evidente e aguda dor sofrida pelas pessoas nelas mostradas.

Na verdade, ninguém quer, já hoje, recolher de tais fotos e mesmo da força e resistência que os seus protagonistas nelas parecem revelar, o seu projeto de vida atual, ou um futuro que o reflita, mesmo que modernizado e alindado pelo tempo.

Serve isto para dizer que a estética inteira do povo ali representado não existe mais, nem, de alguma forma, há quem nela, verdadeiramente, se reveja hoje.

Que ensinamento podemos, então, retirar de tal exposição?

Creio que é absolutamente necessário aos cidadãos e forças sociais que, ontem, lutaram para que o nosso povo tivesse conseguido superar aquela sua pobre condição de vida, encontrar, hoje, uma outra estética que evidencie em termos atuais – e pelo menos tão impressivos como os que Eduardo Gajeiro revelou - a vida e o sentir de um povo; um povo que, todavia, já não é, nem quer ser, aquele.

Retratar, no discurso político de hoje, as condições de vida presentes subordinado à estética daqueles tempos, além de confundir os que, ainda assim, se dispõem a ouvi-lo, pode, assim, criar uma atitude de rejeição contra quem o profere.

Ninguém quer ser, hoje, assim, retratado.

Alguns nem gostam que lhes lembrem os sacrifícios que pais e avós fizeram para que eles possam, hoje, mostrar um novo look.

As referências que inspiram as condições de vida atuais de um povo e as antinomias que lhes estão na base, fazem, hoje, mover a sociedade em busca de um estilo de vida mais compatível com as possibilidades que a realidade atual oferece e já não com as que um futuro distante e nunca experimentável pode oferecer.

Tais referências não mais se identificam, por isso, com os retratos de um passado de renúncia – e, também, de abnegada partilha – que, por várias e contraditórias razões, os que ainda hoje as sofrem não gostam de invocar.

O futuro almejado que, devido à dilatação da velocidade do tempo, todos querem, desde já, observável, não pode mais ser esboçado e relatado da mesma maneira.

Alguns importantes passos na construção da igualdade, que muitos cidadãos jovens pensam ter, em parte, alcançado, impedem que eles se revejam numa imagem que entendem não mais os dignificar.  

O anacronismo estético de tal discurso poderá, inclusivamente, por isso, remeter quem insiste em fazê-lo para o interior do álbum de fotografias de onde foram retiradas as, agora, em exibição na Cordoaria Nacional.

Alguns pensarão que, para evitar um regresso àquele passado, cuja dignidade pode até comovê-los, mas, na verdade, já não entendem, nem aceitam, se impõe, antes do mais, substituir o orador que sempre o invoca, por alguém que os transporte para um cenário que possam compreender melhor.

E cenários há muitos e baratos, mesmo quando só virtuais.

Um novo discurso que parta da realidade vivida exige tomar como referência as condições de vida atuais que, por muito más que ainda sejam para largos setores da sociedade, em nada se comparam, todavia, com as reveladas nas fotos de um passado em que as carências se aliavam a uma humilhação e demarcação social, que os mais novos não podem, nem sequer querem, imaginar.

O 25 de Abril, que quase todos dizem celebrar - e ainda bem - sempre serviu, afinal, para alguma coisa.

Concretizemos um exemplo do que digo!

Muitos de tais discursos, mesmo que, em diversos aspetos focados, com razão, na política da União Europeia (UE) que molda a vida de todos nós, esquecem que a maioria dos portugueses identifica a adesão a tal instituição com uma mudança de vida para a modernidade e para o relativo conforto – mesmo que exíguo e, ainda assim, injusto – de que hoje disfrutam.

Ora, tal conforto, ainda que reduzido ao mínimo, é, todavia, bem melhor do que o cenário revelado por aquelas fotos.

Por isso, fruto dessa comparação, tais fotos podem até funcionar ao contrário do pretendido, pelos discursos que, imutáveis desde há cinquenta anos, denunciam a injustiça da situação atual; e não tenhamos dúvidas, pois tal injustiça subsiste, mesmo que menos escandalosa.

A integração na UE, significa, pois, para muitos – talvez a maioria, como indicam as estatísticas - o rasgar daquele passado de miséria e sofrida opressão.

Talvez resida aí a explicação para a mudança de atitude política que os partidos populistas de direita ensaiaram, recentemente, em relação à dita instituição.

De um repúdio radicalmente crítico - agora que alguns deles se encontram no poder nos seus países - passaram, com habilidade, a defender, já não o abandono de tal estrutura, mas, apenas, a necessidade de uma alteração profunda na sua filosofia e métodos de trabalho.

Será verdadeiro tal golpe de rins?

Não sabemos.

Apenas podemos constatar que, com ele, tais forças políticas, por terem passado a falar, a esse propósito, mais condicentemente com os sentimentos manifestados pela generalidade dos cidadãos dos seus países, aprofundaram a sua inserção nessas sociedades nacionais, a sua força e importância política nas instituições que governam os seus países e, mesmo, a sua maior representação nos órgãos de poder da UE.

Contra a demagogia fácil destes – os seus planos de envolver tudo o que é já velho na política em colorido e brilhante papel de presentes - importa, pois, construir um discurso democrático que, por verdadeiro e racional, possa ser mais facilmente compreensível pelas gerações nascidas depois do 25 de Abril.

Um discurso que, não deixando de revelar as contradições essenciais da sociedade, tenha por referência os anseios de vida das novas gerações e não o mais brutal - mesmo que em alguns casos poético - quadro de vida, desencantado e tão bem retratado nas fotos magníficas de Eduardo Gageiro.

Para contradizer as fantasias dos populistas e condicionar, empurrando-os para a frente, os outros democratas que sempre marcam passo na defesa do imobilismo político e social, exige-se, pois, que se proponha um esboço de um futuro visível e, sobretudo, realizável, nas condições e com os constrangimentos atuais.

O mero discurso crítico da atualidade – sempre diferente e sempre igual - cansa já os ouvintes a quem supostamente se dirige.

Ele pode, até, ser adequado à atividade do movimento sindical, mas como veículo de um projeto político é insuficiente e pouco compreensível.

Por isso, vai perdendo, passo a passo, o que resta da sua passada e então efetiva eficácia política.

E, note-se, a honestidade intelectual e todas as renúncias a que ela obrigou os que assim agem, não é, em si mesma, um trunfo que torne mais inteligível o que dizem e repetem.

Só aproximando, portanto, o discurso do campo democrático da realidade atual – como já aconteceu quando tudo se começou a mover depois do 25 de Abril – pode a crítica ao atual estado de coisas passar a ser coletivamente assumida e, assim, voltar a ser eficaz e politicamente produtiva.

Sem se esboçarem e proporem soluções racionais e tangíveis, o julgamento permanente da realidade – mesmo sendo esta a mais injusta - apenas a torna mais ácida, mas não de todo intragável: para se atingir tal grau de rejeição, é sempre necessária uma alternativa que a maioria assuma como verdadeira.

Nessa perspetiva, desacompanhada de um já palpável projeto de futuro, a sentença resultante de tal julgamento não conduz à realização do princípio da esperança, tão necessário à vida de cada um e de todos os homens pois é este que justifica, afinal, toda a atividade social altruísta e militante e o discurso político que lhe corresponde.

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