19/04/2024
 
 

Dissolver o povo e eleger outro (ou os poetas da Alameda Estaline)

Há quem ache em Portugal que se calhar a melhor solução para resultados eleitorais que deem 18% ao Chega é dissolver o povo e eleger outro.

Após a insurreição de 17 de Junho

O secretário da União dos Escritores

Fez distribuir panfletos na Alameda 

Estaline

Em que se lia que, por culpa sua,

O povo perdeu a confiança do governo

E só à custa de esforços redobrados

Poderá recuperá-la. Mas não seria

Mais simples para o governo

Dissolver o povo

E eleger outro?

Bertolt Brecht - “A solução”

 

Temos de convir que quando um alemão escreve “a solução” (die lösung) pode haver alguma boa alma que se escalafrie toda, mas à vista da reacção de certos meios ligados à “Alameda Estaline” em relação aos resultados das eleições de 10 de Março, o poema de Bertolt Brecht faz algum sentido. 

Há quem ache em Portugal que se calhar a melhor solução para resultados eleitorais que deem 18% ao Chega é dissolver o povo e eleger outro; demais a mais quando os resultados daquele partido foram engordados com uma descida significativa da abstenção de que o Chega beneficiou massivamente.

Que escândalo! Andamos para aqui a bramir, há décadas, contra a abstenção e, quando ela desce, é para votar no Chega? Mais valia esses “deploráveis” eleitores terem ficado em casa, pensam as tais cabeças pensantes da Alameda Estaline. 

Para piorar tudo, parece que os nossos emigrantes, supostas vítimas de cruéis povos estrangeiros, também votaram em massa no dito Chega, um partido consabidamente xenófobo e racista, que nem sequer os admitiria de volta a Portugal se (alerta de ironia) para cá quisessem voltar…

Uma alternativa à dissolução do povo e à eleição de outro (provavelmente um método pouco prático) defendida por certos habitantes da Alameda Estaline, é criar já uma frente de resistência anti-fascista, porque, para nossa vergonha e degenerescência democrática, não só o Chega teve 18% dos votos, o que só por si é muito mau, como ainda para mais a Direita no seu todo teve esmagadora maioria na Assembleia da República.

Os habitantes da Alameda Estaline gostariam de poder regressar no tempo à data de 24 de Novembro de 1975, quando o Processo Revolucionário em Curso, dito PREC, estava no seu auge e um certo Otelo (que não o da ópera homónima) ameaçava meter a “reacção” no Campo Pequeno, provavelmente para a reeducar a tiro…

Mas não. O bando de ingratos que nos calhou em sorte como povo decidiu dar 18% ao Chega e uma enorme maioria à Direita. Vergonha, como diria o Chega…

“É Assim que pretendem celebrar os 50 anos do 25 de Abril?”, interrogam-se os poetas da Alameda Estaline. Isto é um descoco e um descaso!

Parece que a ninguém ocorre inquirir da razão pela qual “O povo perdeu a confiança do governo”. Note o leitor que para certas cabeças pensantes ali do Largo do Rato, se trata da confiança “do” governo e não da confiança “no” governo. O raciocínio é este: como se pode confiar num povo que assim vota? Por outras palavras, porque diabo há-de votar assim o povo? 

Já todos concluímos cem vezes que o voto de tal sorte é um voto de protesto, não é um voto construtivo, é um voto destrutivo. 

Os votantes da “coisa” não querem nada, só “desquerem”. Não é que queiram uma democracia mais séria, mais proba, mais transparente, de menos compadrio, melhores serviços públicos, com menos alarido propagandístico e vacas a voar e de preferência com menos impostos. Não, isso querem os da Alameda Estaline (tirando a parte dos menores impostos) não os “outros”. Pena que, decorridos 50 anos sobre o 25 de Abril, meio séculozinho, as esquerdas portuguesas só nos tenham conseguido dar mau governo ou bancarrota, ou os dois ao mesmo tempo. Não é por não terem tentado… Como diz a música, os nossos socialistas parecem ter como lema “get rich or die trying”. Não o povo, eles. 

Dito isto, toda a moeda tem um reverso. Vista da Alameda Portugal, a questão não é o povo ter perdido a confiança DO governo, é o povo ter perdido a confiança NO governo e querer outro. A razão pela qual querem outro não é destrutiva, é mesmo muito construtiva: os eleitores querem um governo sério, reformista, de mudança profunda. Isso para mim é óbvio. 

Um governo capaz de pôr os interesses do País, de médio e longo prazo, à frente dos interesses dos partidos e dos seus capatazes. Um governo humilde capaz de propor e levar a cabo reformas inteligentes e negociadas. Reformas da gestão do sistema de saúde, da educação, da justiça, da habitação. E há tantas e há tanto tempo à espera…

Um governo que tenha presente que para além das condições de trabalho dos professores, há os alunos; que para além das condições de trabalho dos médicos e enfermeiros, há os doentes. 

Um governo capaz de lançar de forma séria as obras da ferrovia em bitola europeia e que se deixe de imbecilidades anacrónicas e pense no interesse nacional; que obrigue os concessionários a actualizar os estabelecimentos da concessão (aeroporto de Lisboa!); que crie e desenvolva redes de transporte público suburbano dignas desse nome (o centro de Lisboa não dá para cá vivermos todos); que cobre os impostos a quem tem de os pagar (pense mais valias da EDP na venda de barragens), só para lembrar alguns detalhes que estão há oito anos à espera…

É um facto bem conhecido que é impossível conseguir tudo, realizar tudo, negociar a contento tudo, mas ao menos tentem!

Advogado, ex-secretário de estado 

da Justiça, subscritor do Manifesto 

por uma Democracia de Qualidade

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