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Montenegro apostou tudo na gestão de expectativas

Montenegro apostou tudo na gestão de expectativas

Raquel Abecasis 05/03/2024 08:22

Como quase sempre acontece, Montenegro foi surpreendido pelos acontecimentos e teve que definir uma estratégia para ganhar eleições em quatro meses.

Quando, no dia 7 de novembro de 2023, António Costa anunciou o pedido de demissão na sequência de buscas lançadas nesse mesmo dia pelo Ministério Público no âmbito da Operação Influencer, Luís Montenegro viu-se obrigado a acelerar o calendário, suprimindo-lhe mais de dois anos de trabalho.

A perspetiva de eleições antecipadas daí a poucos meses foi uma surpresa de que o líder do PSD não estava à espera e que o apanhou numa fase ainda de consolidação da sua liderança à frente dos sociais-democratas.  Nos bastidores do partido, alguma desilusão pelo facto de o partido não estar a descolar nas sondagens começava a fazer renascer de novo os cenários de uma mudança na liderança logo após as eleições europeias, marcadas para junho.
Em novembro, Montenegro tinha a liderança a prazo e trabalhava para um bom resultado nas europeias que lhe permitisse chegar às eleições legislativas de 2026.

O dia em que tudo mudou.

A crise política que se iniciou com a Operação Influencer obrigou a um toque a rebate na São Caetano à Lapa. O partido tinha que se preparar para legislativas, uma oportunidade única para voltar ao poder, até porque do outro lado quem ia a votos não era António Costa.
De um dia para o outro, deixou de se falar em substituir Montenegro e passou a falar-se na melhor estratégia para conseguir voltar ao Governo. Por esta altura, o líder social-democrata já tinha repetido por diversas vezes que não haveria entendimentos com o Chega e foram muitas as vozes no PSD a pedir um retrocesso de Montenegro.
O ‘não é não’ fez o seu caminho e Montenegro apostou tudo numa estratégia de tudo ou nada. À recusa em negociar com o Chega, o líder do PSD acrescentou que não governaria se não ganhasse eleições. Os críticos viram nesta estratégia o caminho para o abismo. Nada que parecesse demover a direção do PSD, que avançou para um congresso (que deveria ter sido apenas um congresso estatutário) com as expetativas em baixa e com as sondagens a indicarem que, apesar da crise política, os sociais-democratas não conseguiam ultrapassar o PS nas inteções de voto.

A aposta no fator surpresa.

Fazer das fraquezas forças e apostar na surpresa foi a estratégia definida desde os primeiros dias no núcleo restrito de Luís Montenegro.

A hipótese de constituir uma coligação esteve sempre em cima da mesa, mas o facto de a Iniciativa Liberal já ter deixado claro que ficaria fora desse entendimento fez com que as dúvidas sobre a utilidade de uma coligação com o CDS, atualmente sem representação parlamentar, se prolongassem quase até à véspera dos primeiros contactos com os centristas.

Montenegro não queria que a coligação fosse vista como um regresso à PAF (a designação atribuída à coligação com que Passos Coelho e Paulo Portas enfrentaram as eleições de 2015). Entre os estrategas do PSD ficou decidido desde a primeira hora que qualquer entendimento teria que garantir a presença de muitos nomes independentes, para que uma coligação com o CDS fosse percecionada como um movimento que ultrapassava em muito as fronteiras dos dois partidos. Regressar ao nome da primeira Aliança Democrática não foi um acaso. No espírito de Luís Montenegro estava o regresso a um movimento da sociedade civil, mais do que uma coligação tática entre partidos.

A opção estratégica pela coligação ficou tomada ainda antes do congresso que se realizou a 25 de novembro. Mas antes do anúncio formal, os sociais-democratas precisavam de um momento de mobilização interna do partido e de uma manifestação de afirmação de Luís Montenegro. 

Foi no congresso que o líder do PSD começou a pôr em prática a estratégia de ir surpreendendo o partido e o país. Não foi a primeira vez que Cavaco Silva apareceu para apoiar Montenegro, mas a sua aparição para o encerramento do congresso, juntando-se a muitos outros notáveis do partido que o tinham antecedido, acabou por criar uma imagem de força e mobilização para o embate eleitoral. Aos convidados de honra, Montenegro juntou duas intervenções que surpreenderam os mais críticos e determinou mesmo o debate político com uma proposta lançada no fim dos trabalhos. Apontando ao eleitorado que abandonou o PSD desde os tempos da troika, o líder anunciou um aumento para os pensionistas do rendimento social de inserção a atingir os 720€ (valor do salário minimo nacional) até ao fim da legislatura.

Com a iniciativa política recuperada, seguiu-se a divulgação de um manifesto de apoio a Montenegro subscrito por dezenas de nomes da sociedade civil, alguns deles, como Daniel Bessa, com ligações anteriores ao Partido Socialista.
O anúncio da coligação, primeiro só com o CDS e depois também com o PPM, surge no final de dezembro. A partir daqui começa uma sucessão de acontecimentos que acabaram por atropelar a estratégia delineada: da incerteza sobre o resultado das eleições nos Açores às investigações que derrubaram o governo da Madeira. 

Acidentes de percurso que puseram à prova Luís Montenegro, mas que acabaram por lhe ser favoráveis. 
O desfecho das eleições nos Açores trouxe mesmo o cenário ideal para que o líder do PSD virasse o jogo no início da campanha eleitoral, deixando socialistas sem discurso e o Chega de André Ventura com muito maior dificuldade em prosseguir a narrativa de que é indispensável à governação.

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