17/04/2024
 
 
Rui Rodrigues. Dançando na lama com pés de poeta

Rui Rodrigues. Dançando na lama com pés de poeta

Afonso de Melo 03/03/2024 16:45

1943-2024 Era tão, mas tão calmo, que chegou atrasado ao Benfica

 

Tenho algo a confessar-vos, a vós que continuam a ler-me, muitos há mais de quarenta anos nas páginas dos jornais: a morte cansa. A morte satura, repetitiva, teimosa, insistente, sem um pingo de dignidade nem um mínimo de misericórdia. Nos últimos anos, semana após semana, ou algo do género, continuo a escrever sobre amigos mortos como se contemplasse os campos de cadáveres de Verdun. Estou farto da morte. Estou entediado com este movimento contínuo da ceifeira que nos priva dos que gostamos, um a um, sem ligar ao caráter, à hombridade, à bondade dos que leva consigo por uma moeda na nojenta barcaça de Caronte. E, no entanto, não posso fazer nada. Só escrever e escrever e escrever ainda mais: talvez assim vá mantendo viva a imagem dos meus mortos.

Agora foi a vez de Rui Rodrigues que nasceu em 17 de maio de 1943 na então Lourenço Marques. Talvez tenha a sua juventude tranquila, feliz, que lhe marcou a personalidade pouco agressiva, e essa personalidade pouco agressiva pode ter sido causa para não atingir um lugar de ainda maior destaque na história do futebol português, ele que foi duas vezes campeão pelo Benfica e ganhou uma Taça de _Portugal durante os três anos que envergou a camisola encarnada, depois de ter cumprido nove anos na Académica, tempo que utilizou para estudar, como era hábito à época, e tirar uma formatura em Farmácia. Quem o via jogar, com aqueles pés de veludo e a sua técnica de filigrana, não deixava de recordar o poema de João Cabral de Mello Neto dedicado a Ademir da Guia: «Ritmo morno, de andar na areia/de água doente de alagados/entorpecendo e então atando/o mais irrequieto adversário... /O ritmo líquido se infiltrando/no adversário, grosso, de dentro/impondo-lhe o que ele deseja/mandando nele, apodrecendo-o». O Rui era de fazer ir a bola onde ela era precisa. Como um telegrama, vá lá. E sem correrias. Ainda ontem, o meu querido Zé Belo, que estes últimos dias tem sido absolutamente avassalado pela morte de muitos antigos companheiros da Académica, me contava um episódio passado com Rui Gouveia Pinto Rodrigues e Carlos Alexandre Fortes Alhinho (que morreu estupidamente em Luanda, caindo num buraco de elevador) quando ambos faziam dupla na defesa da Briosa. Jogo à noite, camisolas negras, mal o árbitro apita, a Académica tem um pontapé de baliza por conta, avançam ambos a trocar a bola um com o outro. O diálogo vai com eles e com a bola: – «Alhinho, onde estás?»/«Onde estou? Estás doido..., estou aqui!»/«Não te vejo»/«Estás maluco?»/«Verdade! Não te vejo. Ri-te, ri-te para te ver o branco dos dentes». Humor castiço, tão coimbrão. Que não se aplaude como o fado. Pigarreia-se...

 

Eternamente dividido

Rui Rodrigues dividia-se, no seu tempo de Coimbra (fez parte do grupo excecional que terminou o campeonato nacional em segundo lugar, em 1967), entre jogar na Académica, entre o curso de Farmácia e, pouco depois, pelo serviço militar para o qual foi chamado. Era impossivelmente tranquilo, os seus passes à distância primorosos, um excelente marcador de livres diretos. Tinha uma paixão mal escondida pelo Benfica e chegou a fazer, por várias vezes, dupla com Humberto Coelho. Chegou à seleção nacional foi chamado pela primeira vez enquanto estava na Académica –, tanto no tempo em que passou no Estádio da Luz como quando se transferiu, em seguida, para o Vitória de Guimarães. Aos 33 anos regressou à Académica e ainda ficou mais três anos antes de se dedicar a uma carreira de treinador sem brilho especial, passando por clubes como Leça, Beira-Mar, União de Coimbra, Oliveira do Bairro e 1.º de Maio, com um período curto como responsável pelos juvenis do Benfica.

Arranjou empregou numa farmácia da Chamusca, dedicou-se à profissão que escolhera. Na Parreira, distrito de Santarém, mergulhou num sossego tão próprio dele que passou ao lado da excitação dos fanáticos, mergulhado na sua tranquilidade filosófica que fez dele uma pessoa especial. um jogador especial e, sobretudo, infelizmente, demasiado esquecido. É assim que funciona a mecânica da injustiça, tal e qual como os alcatruzes de nora puxados por uma velha mula à roda e à roda do circulo bruto do poço. Numa grande entrevista concedida ao jornal O_Mirante, em março de 2007, confessou sem tristeza o facto de ter sido atirado para as esquinas do olvido: «Aqui ainda há pessoas que se lembram. Poucas. Tenho aí uns livros e fotografias que de vez em quando mostro, quando aparece um ou outro que pergunta se joguei à bola._Sei que não posso voltar atrás, embora por vezes sonhe que estou a jogar à bola ou que o treinador pede para eu entrar. Aí eu digo que já não tenho idade para isso».

A Académica veste a cor da tristeza. Mas é aquela tristeza pura de que, mesmo de luto vestida – não o luto académico, que é branco, mas o luto civil, que é negro – nunca deixará de ter para si e para sempre vivos os seus mortos. Quem gosta de futebol tem obrigação de recordar Rui Rodrigues. Todo ele era classe, todo ele era cavalheirismo, todo ele era suavidade. Um dia disse-me: «Jogar na Académica foi um sonho cumprido. Depois joguei no Benfica, quase sempre com o estádio cheio. Nesse tempo, era mais difícil treinar do que jogar. Porque nos jogos o Eusébio e o Simões davam cabo dos adversários lá na frente e nós cá atrás não tínhamos nada para fazer».

Morreu agora, com 80 anos. Aceitemos que hoje, 80 anos já não tão tantos anos como isso. Mas a morte não escolhe idades, nem nomes, nem raças nem crenças. Caminha pelo campo das gipsofilas com a foice na mão e corta a cabeça das margaridas e das papoilas que têm o descaramento de o encher de cores. Aprendi com o tempo que, na verdade, não são os os que partem que morrem. Quem morre A sério somos nós que ficamos aqui agarrados ao madeiro das memórias como náufragos que fazem um esforço insano para se manterem à superfície. É a morte que aqui fica por dentro, violência injustiçada para os que pretendem apenas viver na sua simplicidade de homens. Os que vão livram se dela. A última vez que estive com Rui Rodrigues já foi há muitos anos, num jantar que uniu a malta da Académica e de A_Bola, uma espécie de fraternidade inquebrável que já vinha do tempo do Cândido de Oliveira. Falava devagar, nesse aspeto fazia lembrar o Mário Coluna. Tinha histórias para contar e lamento de não me recordar de muitas delas para ajudar a eternizar a sua memória. Mas talvez não precise. Rui Rodrigues foi tão evidentemente diferente que nasceu com pés de poeta...

 

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