18/04/2024
 
 
Luís Castro. "Às vezes lembro-me de mim quando tinha cinco anos. Gosto muito desse gajo!"

Luís Castro. "Às vezes lembro-me de mim quando tinha cinco anos. Gosto muito desse gajo!"

Afonso de Melo 28/02/2024 22:47

Luís Castro é um homem que não gosta de se expor. No entanto é, certamente, um dos melhores entrevistados que um jornalista pode ter pela frente. Treinador do Al Nassr, de Cristiano Ronaldo, falou de tudo numa grande conversa que se desenrolou em Riade, durante praticamente dois dias. Sente-se feliz num projeto que tem, como objetivo, levar o nome do clube e do futebol saudita a todo o mundo. Uma aposta dos novos tempos.

RIADE – O táxi que me apanhou na Olaya Street, uma daquelas avenidas quase infinitas de quatro faixas, conduz-me na direção de Al Halilah, o bairro onde se encontra o centro de treinos do Al Nassr. Uns pingos esparsos de chuva batem contra o para-brisas empoeirado, assim de absoluto imprevisto, entretenho-me na observação dos lugares por onde vou passando, prédios gigantescos, na sua maioria espelhados, lado a lado com terrenos vazios onde os pescoços longos das girafas de metal que são os guindastes já prometem novos edifícios do mesmo género. São assim todas as capitais que conheço aqui do Golfo Pérsico, de Doha a Abu Dhabi e aoDubai, da Cidade do Koweit a Manamá ou Teerão, cada uma à sua medida, como é evidente, em Riade vivem mais de quatro milhões de pessoas, não contando com os arrabaldes. O seu nome bem pode significar Jardim, porque antes do advento do petróleo (que só teve a sua explosão, recordem-se, a partir dos anos 50) as suas casas possuíam jardins nas traseiras. Pela Bilal Ibn Rabah – considerado o primeiro almuadém da História, ou muezzin se quiserem, discípulo direto do próprio Maomé – as únicas árvores que se avistam são palmeiras raquíticas e de folhas descoloridas. Chego cedo (o para mim cedo é considerado tarde para a maioria da espécie Humana), dez da manhã, encontro-me com o Luís Castro no seu escritório, prepara-se para dar o primeiro treino do dia – depois, pelo meio-dia, o muezzin canta lá do alto do minarete «Al Akbar… Al ilah il Allah…». e há muitos que não dispensam a reza –, foi para o ver que vim até aqui, para uma longa entrevista há muito combinada, ainda por cima com ele, que não é de dar grandes entrevistas, sempre o conheci discreto, tímido, e conheço-o há muito tempo, pode ter nascido em Mondrões, em Trás-os-Montes, mas fixou-se em Águeda, e Águeda é algo que partilhamos, além de uma amizade e de um carinho mútuos. Ele trabalha e eu observo. Algo que gosto de fazer e se tornou, entretanto, quase proibido. Gosto de entender os métodos, de perceber as engrenagens que servirão, mais tarde, para aplicar nos jogos. Gosto do cheiro da relva, do eco dos gritos dos jogadores pelas bancadas vazias, dos momento em que toda a movimentação pára de súbito para corrigir um pormenor. A meu lado, uma gata malhada espreguiça-se no cimento aquecido pelo sol que agora está quase a pino. Hora da sombra mais curta. Momento de, de volta ao sossego do escritório, começar a conversa.

Não vejo como fugir à pergunta, despacho-a já: por que vieste para aqui, para a Arábia? Por dinheiro?

A vida tem vários fatores que nos levam a tomar decisões. A zona do mundo, perspetivas do dia a dia, a cidade, a história, o dinheiro, o prestígio, a família, os amigos…

Mas consegues ter uma boa vida familiar aqui, aqui tão longe de casa?

Não é apenas a questão familiar em si. Estive sozinho no Brasil, na Ucrânia, em Doha, aqui também estou sozinho. Importante é a estrutura.

Queres dizer que o dinheiro que aqui ganhas também é importante para o futuro da tua família. É isso?

Eu não olho para o mundo assim. Temos é que educar os nossos filhos para que eles façam a sua vida e não estarem à espera que sejam os pais a resolver a vida por eles. É interessante: tenho duas filhas, ambas arquitetas, uma exerce, a outra é escritora. A escritora não quer que eu diga que sou pai dela.

Como é que ela assina? Afinal é minha colega…

Não interessa. É minha filha. Cada uma delas tem a sua forma de encarar o mundo. Isto para dizer que não sou eu que tenho de encontrar a vida delas. São elas que têm de o fazer.

Mas encontraste aqui, em Riade, o que estavas à espera de encontrar?

Estou sobretudo a falar em termos de trabalho, em organização… Nós trazemos connosco uma organização. Claro que não podemos implementá-la tal e qual nos habituámos a trabalhar. Por exemplo, vivi dez anos no FCPorto com uma organização muito própria. Não posso pegar nela e implementá-la no Vitória de Guimarães, no Chaves, ou no Rio de Janeiro. Porque algo se sobrepões, que é a cultura. E estamos sujeitos à cultura que nos rodeia. Mas voltando atrás, quando me perguntaste o porquê do Nassr…
Sim, sim, vamos a isso. É um convite que te aparece numa altura em que estás bem… Com uma equipa com menos recursos do que outras mas ias na frente do campeonato… Sim, numa altura em que estou bem. Estávamos bem. Passámos por uns momentos menos bons, mas no futebol a vida é assim, é ondulante. Agora, quando me surge o convite para vir para aqui oferecem-me um trabalho com os melhores jogadores do mundo. E sobretudo com o melhor jogador do mundo…

Foi algo que te a atraiu?

Claro! Trabalhar com o Ronaldo é algo que te dá prestígio.

Tem sido fácil lidar com ele?

Sim, facílimo. Aliás, eu sou de opinião que quanto mais qualidade tem um jogador mais fácil é trabalhar com ele. O problema é quando ao longo de uma carreira, e bem sabes como a minha já vai longa – comecei a jogar aos 11 anos e iniciei-me como treinador aos 35, já lá vão cerca de 27 anos de treinador – é colocar uma equipa a jogar quando os seus jogadores não têm qualidade. Tenho tentado gerir a minha vida por objetivos: uns cumprem-se, outros não. Não fico frustrado quando não cumpro alguns a que me propus.
Qual é o teu objetivo aqui? Lutar por títulos! E fazer crescer um projeto que visa a construção de uma equipa que leve à expansão do nome Nassr (é a palavra árabe para Vitória, n.d.r) por todo o mundo, através da imagem dos seus jogadores e, obviamente, dos seus resultados. Visa também uma nova organização, criação de infraestruturas, e sinto-me bem com estes desafios. Aliás como sempre me senti bem quando me chamaram para desafios como este.

Pediram-te alguma coisa?

Pedem sempre! A começar por títulos.

A Liga dos Campeões da Ásia, por exemplo? Digo isto porque o Al-Nassr não tem nenhuma e o maior rival, o Al-Hilal, já tem quatro…

Claro que é importante! A Champions é importante na Europa, na América – a Libertadores –, e aqui também, até porque pode levar-nos ao Mundial de Clubes, uma montra grande para uma equipa desta zona do mundo. Sabes?, os resultados podem proporcionar-te a fama, o prestígio, e há momentos em que precisamos disso. Mas aqui jogamos sempre para ganhar. A derrota destrói-nos. Precisamos de nos recuperar a nós próprios. Não há outra forma de estar no futebol em clubes de grande dimensão.

Aqui dão-te todas essas condições?

Dão. O que não quer dizer, por exemplo, que a nossa academia esteja como nós queremos. Também queremos um campo de treino só nosso. São coisas que estamos a implementar. Há que contratar recursos humanos para que esta implantação seja possível. É um caminho novo que estamos a percorrer. Vai demorar um bocadinho mas viremos a tirar dividendos do trabalho que fazemos.

Assim, meio de repente…

És capaz de dizer qual foi o momento em que passaste a ser um treinador interessante para o mercado internacional?

Não sei. Só os outros podem dizer. Eu não consigo avaliar isso.

Muita da tua carreira é passada em divisões secundárias…

O tempo que foi preciso.

Mas um dia batem-te à porta e perguntam-te se queres ir para o Shaktar Donetsk…

Pois. É um passo decisivo…

Mas já tinhas essa expectativa?

Era um dos meus objetivos… agora se achava que ia acontecer naquela altura… Quando olho para trás na minha carreira vejo-a como uma carreira boa mas construída sem… sem… sem ser normal. Não é normal começar-se na Distrital e depois andar, andar, andar até chegar aqui. Mas também é uma carreira salpicada de tudo: de Liga Europa, de Champions, de Taça Sul-Americana, agora de Champions Asiática… Diferentes países, diferentes culturas, diferentes divisões, jogar para ser campeão, jogar para não descer, jogar para a Europa, de tudo… De tudo! Se me perguntares o que não vivi, digo que vivi de tudo: a Distrital, a IILiga, a I Liga, já consegui alguns títulos pelo caminho, portanto, é uma carreira… é uma carreira fixe.

Não achas que passaste tempo a mais na formação e na equipa B do FC Porto?

Amigo. A vida é o que é…

Foste campeão da II Liga, que é algo de único numa equipa B.

O Real Madrid também foi uma vez. É isso que nos faz ficar muito tempo nos sítios. Por um lado dizemos que foi tempo demais, pelo outro conseguimos coisas fantásticas como essa. Conseguir ficar com a consciência clara do que é uma organização, consciência clara do que é um jogador jovem, o que é liderar treinadores e team-managers, o que é fazer parte de projetos. Vivi muita coisa. Estive muito tempo no FC Porto? Estive. Mas o que é que vivi lá dentro? Não fui só treinador. Tive um conjunto de vivências que me ajudam a olhar agora para o futebol de forma diferente. A ser mais compreensivo em relação a tudo o que me envolve no dia a dia. Saber onde estão os problemas, saber o que é preciso resolver. Digo-te que o que menos trabalho dá é preparar um treino, administrá-lo e ir para jogo. Depois tenho tudo o resto à minha volta e sobre as quais goste de ter as mãos e que me ocupam muito tempo. Mas eu gosto. Não se trata de controlar o clube mas sim de saber tudo aquilo que se passa no clube. E de perceber todas as dinâmicas em meu redor.

Ou seja: és mais um manager do que um treinador…

Por isso é que talvez tenha estado tempo a mais no FCPorto, como dizes. Posso questionar isso, mas depois quando olho quando para o que acabou por ser a minha carreira até aqui, esteve lá muita da importância para o meu crescimento.

Qual foi o teu momento mais feliz?

Ouvir o hino da Champions pela primeira vez e num jogo contra um treinador que eu aprecio, como é o caso do Guardiola. Foi um momento muito importante depois de tudo o que tinha percorrido até aí. Escuta, a determinado momento da vida a minha mãe disse-me: «Ai filho, o futebol… isso é uma vida má… o melhor é tirares um curso». E eu estudar, estudei. Mas não fiz nada.

Desculpa lá, mas consigo olhar para ti e ver-te de capa e batina.

Estive em Coimbra dois anos mas não fiz nada!

Estás como o Toni, que diz que andou por lá só a carregar os livros de um lado para o outro.

Eu nem os livros tinha. Ia lá porque a minha mãe queria muito que eu estudasse. mas rapidamente percebi… aliás percebemos, eu e ela, que a minha vida era o futebol. E então, nesse momento de ouvir o hino da Champions, pensei que gostava muito de a poder ter ao pé de mim. Gostava mesmo muito de poder ter a minha mãe e o meu pai ao pé de mim. Porque sempre desejei que eles fossem felizes com aquilo que eu conseguisse. Sabia que ela se iria orgulhar de me ver chegar àquele momento depois de todo o caminho que percorri. Outro momento importante foi, depois de ter sido campeão nacional da III Divisão, depois de ter sido campeão nacional da II Liga, ser campeão da I Divisão no Shaktar. Mas também a chegada à meia final da Liga Europa… A vitória em Madrid frente ao Real é outro momento feliz.

E hoje vives um momento feliz?

Sim! Mas também o trabalho que fizemos no Brasil me fez feliz. Deixámos uma marca muito forte na nossa passagem por lá. É um clube grande que necessitava de voltar a ganhar…

Clube do Garrincha, como disseste quando chegaste. Mas não só. Do Nilton Santos. Do Didi. Do Gerson…

Isso mesmo. Mas claramente que a chegada à Champions é o momento em que disse para mim mesmo: «Cheguei!» E outro momento muito importante é ter vindo para aqui trabalhar com o Cristiano.

Tens uma relação forte com ele?

Tenho uma boa relação com ele como tenho com todos. Como é capitão de equipa tenho uma relação de proximidade sempre que há questões para resolver. Para além disso sou amigo dele e ele é meu amigo.

O sossego de Mondrões

Ouve lá, agora meio a brincar: nasceste numa terra chamada Mandriões…

Ah! Ah! Mondrões. Eu não nasci lá. Eu nasci em VilaReal. mas o meu pai nasceu lá…

É lá que estão as tuas raízes?

É engraçado porque nunca vivi lá. Mas, sabes?, o mundo é feito de energias. E ali tenho uma paz grande.

Refugias-te lá?

Não.

Não?

Não. Vou lá. Vou lá, passo o dia, e volto para casa. É ali que ninguém me pergunta nada sobre futebol e sobre resultados. Onde me encontro com pessoas amigas que não se preocupam com a minha vida no futebol. Perguntam-me se estou bem, se a família está bem, como estão as minhas filhas…

Ainda há muito em ti desse rapaz transmontano em ti?

O que interessa é que eu gosto muito desse rapaz. Gosto muito desse gajo. Lembro-me de mim com cinco anos. Depois com dez, catorze, quinze. Gosto muito dele e respeito-o. às vezes manifesta-se.

Tomas conta dele?

Tomo! Exatamente porque ele se manifesta de vez em quando e diz-me: «Eh pá, não sei se vou. Tenho medo!» E eu respondo-lhe: «Não tenhas medo! Vai em frente!» Ele é um gajo meio envergonhado. Com um certo medo da sociedade…
Mas eu conheço-te há muito tempo. Tu és um tímido.

Sou. Embora muita gente ache que não.

Aqueles que te chamam de falso tímido.

Eu luto contra a minha timidez.

Por exemplo: não me recordo de grandes entrevistas tuas. Entrevistas de vida…

As pessoas também nunca me ligaram muito.

Achas que não?

Se calhar até fiz a carreira que fiz por isso. Nunca estiveram muito atentos a mim e eu fui andando e passando pelos pingos da chuva.

Mas isso magoa-te, de alguma maneira?

É chato, sabes?

Pensas o quê: «Estou aqui a fazer um trabalho do caraças e estes tipos não me ligam peva?»

Outro dia escrevi uma coisa. Uma conversa com ninguém. Esse ninguém era eu. Então escrevi para ele e tenho lá isso escrito, em casa. Nunca será para publicar, claro! Está num caderno. São cinco páginas. Isto porque às vezes senti-me ninguém, não sei porquê. O que é que se passa? O que é que tu não fazes? Mas depois entendi que muito mais importante do que abraçar pessoas era abraçar o meu trabalho. E foi importante ter percebido que, em vez de pegar na mão de alguém que nos leve, é seguir de braço dado com o trabalho. Foi um momento decisivo porque, a partir daí, fiquei a depender de mim próprio. Nunca mais fiquei à espera de ninguém.

Tens irmãos? Isso é conversa de filho único.

E sei do que estou a falar. Tenho. Uma irmã mais nova um ano e um irmão mais novo dois anos.

Mas transmites uma imagem de solitário…

Porque acho que há coisas que são nossas. Não são do mundo. Mas não sou contra aqueles que se expõem mais. Nada disso! É uma questão de identidade. Nada mais do que isso. Estou aqui em Riade e a minha vida é casa-treino treino-casa.

As pessoas não te conhecem na rua?

Ah! Conhecem… conhecem… Ah! Ah! Ah! Mas se me perguntares se quero agora sair daqui e visitar uma loja qualquer, eu escolho ir a um supermercado. Ah! Ah! Talvez porque, em determinados momentos, aquele miúdo de que falámos há bocado não tivesse acesso a muitas das coisas que existem hoje nos supermercados. Agora posso comprar tudo o que quiser. Se calhar é por isso… Ou talvez seja atraído pelas cores e pelos produtos bonitos que estão nas prateleiras. Agora se me quiseres levar a uma loja de roupa não quero. É uma violência para mim entrar numa loja de roupa. Experimentar coisas… Não! Não gosto!

Por que andas sempre vestido de preto?

Não apenas. Preto e branco. É da vergonha. Talvez seja da vergonha, sei lá. Acho que é da vergonha. E depois também é outra coisa: a consciência da idade.

Irra. Ainda não estamos com os pés para a cova. És um jovem da minha idade…

Acho que é importante termos a consciência daquilo que somos. Muito importante.

Mas tens a ideia da imagem que têm de ti?

Acho que as pessoas respeitam-me, mas acho que não me conhecem. Falo de reconhecimento em termos de trabalho. Esse existe. Foi interessante a fase que passei e na qual se dizia: «Ele para aqui não serve porque não ganhou títulos». E pergunto: «Como posso ser campeão da I Liga em Portugal a treinar o Penafiel, ou o Rio Ave, ou o Chaves?» Eu questionava: «O que é que querem de mim?» Depois tive a oportunidade de treinar o Shaktar, de sermos logo campeões, de irmos à meia-final da Liga Europa.

O Shaktar foi uma ruptura?

Quebrou as coisas! Só que, no dia que ganhei, festejei com os meus jogadores, com a minha equipa técnica, com os adeptos, mas cheguei a casa, olhei para o espelho e disse: «Tu és o mesmo! Não mudaste nada!» Depois fomos para o Qatar e ganhámos a Emir Cup. Boa! Ganhámos outra vez.

O Qatar foi uma experiência muito curta.

Muito fugaz.

Mas, ao longo da tua carreira, tirando o FC Porto, nunca estás muito tempo num clube.

Pois é. Mas depois do FCPorto eu tinha de viver rápido.

Opção tua, portanto?

Eh, pá! Tem sido assim: o Vitória pagou a minha rescisão ao Chaves, o Shaktar pagou a minha rescisão ao Vitória, o Botafogo pagou a minha rescisão ao Duhail, o Nassr pagou a minha rescisão ao Botafogo. Outro dia perguntava aos membros da minha equipa técnica: «Que virá aí, no futuro».E eles: «Não sabemos. O mister nunca foi um treinador livre no mercado». Ando sempre amarrado. Mas quero viver ainda muitas coisas, aproveitar novas culturas, se ficar muito tempo num clube não consigo.

Mas este projeto Al Nassr exige tempo.

Sim. Mas às vezes não é por opção. Se daqui a um mês for despedido, já não é escolha minha. Felizmente nunca fui despedido. Mas é melhor dizer isto baixinho…

A saída do FC Porto

Há outro momento interessante na tua carreira: a passagem pela equipa principal do FC Porto. Interessante. É o que dizes.

Embora não sendo uma boa altura…

Aliás foi por isso que o Paulo Fonseca saiu.

Mas não deixemos cair o assunto: chamaram-te para ocupar o lugar mas sabias que iria ser temporário?

Sim. Mas depois de ter treinado a equipa principal eu também queria sair. Ainda fui fazer mais uma perninha na equipa B mas queria sair. E queria sair porque entendi que já tinha desempenhado várias funções no clube, tive sempre respeito pelo clube, pelos adversários, pela profissão. Respeito, honestidade e compromisso! Fui sempre muito comprometido. E eu sou a favor do quente ou do frio. O morno não me diz nada. Detesto gente morna. É meio-comprometido? É meio-honesto? Isso não existe! Ou somos ou não somos!

Por onde tem andado escondido esse Luís Castro que eu acho que o futebol português precisa de ouvir?

Nos meus jogadores. Não é para fora, é para dentro. Eu sou onde devo ser. Já te disse há pouco: ando de braço dado com o meu trabalho! Não ando de braço dado com mais nada. Claro que ando também com os meus amigos, com família. Claro que sim. Mas este meu lado mais impositivo, mais agressivo, não é para toda a gente ver. Porquê cá fora? Olha uma coisa: como é que é o treinador Luís Castro? Não me perguntem. Não perguntem aos sócios nem aos presidentes…

Perguntem aos jogadores?

Claro! Perguntem aos meus jogadores!

Mas sabes que tens imagem de cavalheiro?

Quando assumiste o cargo de treinador principal no FCPorto houve a ideia de que iria aparecer um Luís Castro para entrar numa guerra contra oBenfica, por exemplo…

Mas porquê? Eu ia à academia doSporting e era bem recebido, ia à academia do Benfica e era bem recebido… Mas o que é que eu ia ganhar em ser agressivo. Sempre recebi os meus colegas o melhor possível no Olival. Nem admito que alguém me diga para não ser assim com este ou com aquele! Não admito por completo! Na minha vida mando eu e sou livre de tomar as minhas decisões. Lembras-te de te dizer que cheguei a não me sentir ninguém? Então e aí já queriam saber de mim quando até aí nunca quiseram saber? Não e não. Se me querem para trabalhar querem aquilo que sou! Não o que querem que eu seja. A minha carreira foi feita pelos meus jogadores. A eles é que devo tudo.

Vamos ainda mais atrás: tu jogador.

Eu não fui jogador. Era uma imitação de jogador.

Ainda me lembro bem de ti a jogar no nosso Recreio de Águeda…

Ainda joguei uns nove anos no Águeda. Foi aí que acabei a minha carreira. Em 1996.

E passaste de imediato a treinador?

Fui sempre capitão de equipa: Mesmo quando não jogava a titular porque os outros eram muito melhores. No Vitória de Guimarães fui anos capitão e raramente jogava. Eu olhava e gostava de liderar. E gostava de tentar resolver problemas dos meus colegas, como por exemplo ordenados em atraso…

Foi uma ascensão natural a treinador.

Sim. Quando deixei de jogar quis ser treinador. Ah!, mas tens de treinar uma equipa de III Divisão. Ok! Vou para a III Divisão. Preferi sempre isso do que ser adjunto.

Nunca foste adjunto.

Não! Nunca! Foi uma decisão minha. Quis ser líder desde o início.

E nesses tempos qual foi o momento que mais dificuldades sentiste?

Mal comecei a treinar. Imaginava um treino com muitas coisas minhas e dava por mim a fazer treinos com coisas dos que tinham sido meus treinadores. Porque não sabia fazer nada. Uma coisa é pensarmos que podemos fazer, outra é fazermos. Estava como aqueles espetadores que vêm um jogo e julgam que podem ser treinadores. E depois nem um treino conseguem dar.

E a tua primeira grande alegria?

Foi subir com o Águeda de divisão. Da III para a II. E ainda há outra antes: ser campeão Distrital com os sub-13. Foi aí que comecei a carreira. Jogava ainda no Recreio e fomos campeões com a minha equipinha e sub-13. Foi aí que decidi seguir a carreira e largar tudo o que fazia ao mesmo tempo, como ganhar dinheiro na venda de publicidade.

E agora sentes que podes ir ainda mais longe do que tudo o que fizeste até aqui?

Posso! Temos o direito a pensar assim. Quem nos para? A morte? Para além disso nada. Tenho o direito de pensar que posso ir mais longe. Aliás, mais do que isso: tenho o dever!

A tarde ficou quente em Riade quando saímos do centro de treinos do Al Nassr. Ficámos ainda um pouco à conversa enquanto almoçávamos na cantina, depois dos jogadores se levantarem da mesa. Reencontrei Sadio Mané, o homem zangado do elevador de Lusail, no Mundial do Qatar. Recordámos a história. Subimos juntos para as bancadas. Ele estava lesionado e falhou o Campeonato do Mundo com o seu Senegal. Agora é tempo de se rir ao recordar o episódio. O ambiente é tranquilo, tão tranquilo como a imagem de Luís Castro. E é falando de Águeda, ao fim ao cabo a nossa terra comum, que nos perdemos no trânsito das avenidas infinitas de Riade. Com ele ao volante, claro! «Inch’Allah!»

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