19/04/2024
 
 
Abril aos 50 anos, a mais cruel das primaveras

Abril aos 50 anos, a mais cruel das primaveras

Diogo Vaz Pinto 27/02/2024 15:32

Meio século passou sobre a revolução que nos deu a liberdade e sobre o curto período em que algo da ordem do desejo ou até da utopia se manifestou à escala do conjunto da sociedade, mas, como nos mostra alguma literatura, tudo isso logo foi reprimido.

A mais cruel das primaveras acaba por ser aquela que não serve outro fim que não seja iludir-nos, uma estação que ficou emperrada, que nos entalou a todos, nunca chegando a vingar nem a dar lugar a outra coisa, a algum tipo de regeneração que nos livrasse das velhas feridas. Hoje, ao contemplarmos o testemunho das formas de traição em que sufocamos, descobrimos que a própria literatura se foi conformando ao ponto de se ter confundido com essa parada de coisas ridículas, entregando-se àquela verbosidade festiva misturada de risos e de graças, e a que, por isso mesmo, vai sendo preciso tantas vezes proporcionar alguma formalidade. Daí a quantidade inenarrável de cerimónias, distinções, comendas. Mas com tanto barulho por quase nada, damo-nos conta, como assinalou Agustina, que não se encontra por cá um letrado que veja nas letras, mais que uma ferramenta, um estado de graça, uma potência realmente perturbadora, capaz de dar rumo ao seu rancor, mostrar-se desarmante.

Qual é o perfil mais geral do escritor português? Esse que faz de conta, que não se inquieta demasiado por pertencer à sombra dos acontecimentos, não à sua realidade. Resignou-se à função de retocar a imagem, não podendo afectar o objecto. Sabe que lhe é confiada apenas essa tradição de ir distraindo, providenciando um divertimento e uma distância fria para as coisas, para as próprias emoções ou ideias, algo que possa ser deglutido por essa consciência amordaçada. É um especialista da resignação, um oportunista, servindo-nos toda uma linha de placebos. Uma vez mais é Agustina quem nos faz ver como, depois da revolução, “essas pessoas práticas e de grande comunicabilidade encontraram um terreno favorável nas desordens psíquicas e nos desesperos de classe que se instalaram um pouco por toda a parte”. No fundo, hoje o letrado não se distingue da estirpe dos curandeiros, dos vendedores de banha da cobra e dos antros onde se vendem cursos e produtos dirigidos ao estupor em que se encontra a alma. Há muito que se estendendo esse elenco das obsessões que sinalizam a despromoção do espírito para o regime abandalhado das espiritualidades, e assim se impõe a “Mena da Rua das Virtudes, ou o mágico da Ponte, ou ainda o pasteleiro das Condominhas, sem falar já nas brasileiras, nos cabo-verdianos, nos homeopatas, nos amigos do Zodíaco, nas videntes, nas leitoras de cartas, nos astrólogos, nos médiuns, nos talhadores de ares”, e todos, como nos assegura a nossa mais penetrante romancista, alcançam uma clientela numerosa, segura, que punha nesse “profetismo rudimentar o que lhes restava de energia vascular”.

Não se estranhe, pois, que, entre a última fornada de letrados, se vão afirmando também aqueles que melhor se adaptam a este regime de compensações miserabilistas. E não espanta assim a sensação de que aquilo a que hoje aparece como literatura só deixe espaço para roer até ao osso as vulgaridades de sempre, sendo os melhores entre todos aqueles que ainda sabem manejar o calão da experiência íntima, o qual é possível usar sempre que falha uma perspectiva mais vasta. É uma literatura para entreter no intervalo da consciência, desfiando a costumada lengalenga, uma “pura invenção de traz-no-bolso, lérias, de almanaque recreativo” para uso nesses transportes que nos levam e trazem pelos subúrbios da existência. Instala-se assim uma vaga neblina persistente, que, como vinca Ruben A., vai bem “com a pátria saída dessas bandas líricas – nevoeiro que chegava a amesquinhas e enlouquecer os espíritos mais fortes”.

Damos, assim, por nós constantemente tragados por esse zumbido descoroçoante: as palavras que não pegam, nem pagam nada, a mão que se vai tornando um ser desfasado da realidade, uma personagem ela mesma um tanto amalucada, redigindo versões da canção do banido moral, com essa pressa disfarçada. Às tantas, e como nos diz Fernando Grade, que por estes dias chegou a ser dado como morto, ainda que o não estivesse, “são estas moscas/ que nos fazem velhos”. É esta indiferente estação, em que se torna claro que não importa que a chuva não venha, pois já nem a chuva poderia resolver fosse o que fosse.

Sabemos bem que um livro só mexe com as coisas na medida em que responde a um desejo, e isto acontece apenas na medida em que há já muita gente que está farta dum certo tipo de discurso corrente. Mas é essa gente precisamente o que nos falta, é o próprio desejo. Só resta, por isso, à literatura deixar-se desfazer docemente na sua camisa-de-forças, aceitando a redução dos seus gestos a um vigor mínimo, a um estrebuchar suavíssimo, como quem se embala e segue ao fim desse portentoso e mediático cortejo fúnebre que segue como uma serpente dando conta de tudo nesta pátria lúgubre. Não é de estranhar que o que nós fazemos acabe por ser melódico, uma vez que não lhe parece possível um outro alcance.

Só resta ir andando aos tombos na própria mente, fazendo disso um ritmo, mas não se chega nunca àquele verbo capaz de actuar sobre a vida, capaz de estabelecer uma ponte com ela, como foi intenção das últimas tradições literárias que se levavam a sério. Entre nós, vive-se eternamente nesses exercícios de aquecimento da prosa, promete-se uma denúncia vertiginosa, um renovado plano de actuação lírica, mas depois ficam todos nessa posição de eterno penitente lírico de que fala Armando Silva Carvalho, “à espera de maior fôlego realista ou de outros pastos”. Os poetas sempre se consolaram com essa glória frustrada daquilo que se vai despedindo deste mundo onde a verdadeira luta pelo sentido se trava, vão-se despedindo em troca de que se diga de cada um e de todos eles que tinham corações desproporcionados em relação ao tamanho do corpo, ao sentimento da sua época. A literatura prossegue sem rumo, hesitante, indo rio abaixo, encalhando tantas vezes, com umas poucas centenas de gaivotas perseguindo-a.

Enquanto isso, temos cada vez mais a sensação que não consegue adiantar mais nenhuma palavra, que na melhor das hipóteses consegue iludir-nos por um bocado de que terá alguma coisa para dizer. Mas os leitores assumem uma postura cínica perante ela, convencidos de que o que quer que possa ainda ser compreendido sobre os elementos de devastação do nosso tempo depende mais de uma suspensão do que dessas fiadas de marcas alfabéticas, gravadas a ferro em brasa no papel. “É uma questão de silêncio, não de palavras”, como notava um célebre autor. Mas os outros, insatisfeitos, esses jovens criadores que continuam a aparecer já sem hipótese de se verem elevados à condição solitária e prestigiada dos grandes, agarram-se a migalhas e ecos, abandonam-se a relatórios severos, muito realistas uns, e outros mais delirantes, soprando “as metáforas que lhes caem na mesa como um pó doentio, barroco e simbolista” (A. Silva Carvalho). Acabam derrotados no confronto com o próprio idioma, a sua incapacidade de, através dele, produzir algum eco, uma vez que se acham trancados por ele, descendo um rio que não chega a desaguar em mar algum, uma linguagem que se esforça em vão por se dirigir a algo que não seja apenas a sombra dos acontecimentos, um exterior que não surja como uma intrusão que nos sufoca. Essa frase ou verso emperrado entre o fulgor e lixo, repartido em pedaços pelas injúrias do tempo.

É o próprio tempo a matéria degradada deste nosso drama. O que é que o capitão diz no Woyzeck de Büchner? “Meu Deus, quando penso que num dia o mundo dá uma volta completa, num dia, percebem, é uma coisa que dá arrepios – todo esse tempo que se perde, que se deita fora, tamanho desperdício… enquanto vejo o meu casaco pendurado na parede dá-me vontade de chorar e o casaco lá está, pendurado…” A própria escrita com as suas intrincadas e inúteis voltas, assume um ar de banal impostura. Ao escrever alguma frase nesta língua e para os que a poderão entender, a mão move-se num tempo pouco humano, que não é o da acção viável, nem o da esperança, mas, antes, a sombra do tempo, e ainda que se procure fazer um outro sentido, provocar ainda algum tumulto nessa vida rarefeita no seio de tudo o que exigiria resolução e coragem, sentimo-nos arrastados para o fracasso e a desilusão, uma vez que entre nós o próprio tempo parece um engodo. Lançamos em nossa volta um olhar, e este vê-se convertido no fantasma de uma visão insolvente.

Servindo-nos das palavras e da lucidez de Claudio Magris, deveríamos notar como, deste observatório, “a vida dir-se-ia uma completa perda de tempo, uma máquina perecível. Como o relógio que a pontua, a realidade é uma engrenagem, uma organização do estilicídio, cadeia de montagem que indica sempre e só a fase seguinte”. Entre nós, reconhecendo-se sem saída, e diante deste miserável cenário, um país que só serve para figurar nos prospectos turísticos com que se recomenda lá fora, vão entrando na lenda literária pela porta da calúnia, e troçam de tudo, enquanto inspeccionam a fraca alternativa.

Pouco tempo depois da revolução, tudo foi reconduzido a um esquema similar ao de antes, e logo voltaram a ficar muito à vontadinha “todos aqueles para quem o fascismo nunca existiu, antigos usufrutuários dele ou nostálgicos da sua ‘paz vigiada’, mas igualmente a raça imperecível dos profissionais do politiquismo entregues à repugnante cozinha dos interesses de grupo” (Eduardo Lourenço). Por outro lado, e com as novas liberalidades permitidas pelos fundos com que travaram esse ânimo de ajustar contas com quase meio século de modorra, a inconsciência foi-nos subvencionada pela Europa e, como notou Agustina, “em pouco tempo cresceu uma geração de pedantes, ociosos, jogadores e loucos típicos a quem o dinheiro fazia o efeito de uma droga dura, criando a habituação em prejuízo da fantasia”.

Mesmo no que toca à fé, Ruben A. Sinalizava como entre nós se reproduz ainda uma opção muito particular, “uma fé pela rama, económica, pacata, sem incómodo do misticismo, uma fé bem portuguesa utilizada em conversatas com as divindades sobre assuntos corriqueiros”. Ou seja, ainda e sempre, nada de grandes sobressaltos. Entretanto, e uma vez que as defesas estão em baixo, conseguimos ouvir um entusiasmo de signo contrário, soam já ao fundo hinos de um fascismo de nova trituração que pode bem levar-nos a achar menos mau o dos bons velhos tempos.

Se queremos falar do que sucedeu ao 25 de Abril, temos antes de tudo de refazer a crónica destes 50 anos e juntá-la às páginas das revoluções traídas, a essa imensa história da traição do desejo das massas. Devemos reconhecer, na linha do que expôs Eduardo Lourenço, como o grande crime deste regime não foi apenas a perpetuação da desigualdade social intolerável, nem sequer a repressão que ela supõe, mas a confiscação de todo o jogo político nas mãos dos que até aqui sempre estiveram empenhados em vender-nos a nossa própria desgraça como resultado das noções revolucionárias que chegaram (?) alguma vez a animar-nos.

Diante do actual e espectacular recuo da pulsão socialista digna desse nome, vemos como o espaço de representação e confronto está ocupado, nos é retirado para assegurar “a normal indigência oposicional que caracteriza este regime”. Mas com a total descrença na política, começa de novo a ganhar ímpeto aquele fulgor das últimas consequências, o autoritarismo que subjaz a tudo isto e que quer uma vez mais coser o seu esgar a um rosto reconhecível. Apavorados, começam a dar-se conta agora de que “ninguém tolerará por muito mais tempo que rivalidades de grupos exíguos, representativos deles mesmos, estéreis conluios de capelas políticas sem objectivos claros nem pensamento estruturado possam passar, como outrora, aos olhos da maioria dos portugueses como a política aberta, generosa, participante, da Nação inteira”.

O aviso foi dado há muito pelos que em vez de assumirem posições mais convenientes para as suas próprias aspirações sabiam ler o tempo na sua tessitura mais vasta, e enquanto os da esquerda se dissolvem nas intermináveis conferências, se esgotam e desgastam na mesquinhez de serem incapazes de sustentar um fio comum, em lugar de destecerem sempre a trama até já não lhes restar sequer o fôlego do imaginário, enquanto esses se atraiçoam deixando que tudo acabe com “uma espécie de síncope intelectual, como se pelo facto de muito debaterem os assuntos eles ficassem vazios de interesse” (Agustina), do outro lado o ressentimento organiza-se, e os seus romances ou folhetins odiosos alcançam um público funcionando como obra de cordel para psicopatas. Incapazes de elegermos os escritores que possam engendrar uma contra-ofensiva, mesmo que seja evidente como estão já aí um punhado deles capazes de fazer ranger o sangue nas curvas apertadas do coração, por agora triunfam ainda os idiotas úteis do regime cadaveroso, e temos de aturar as homílias e as seduções dos nossos eunucos das letras, ambiciosos por depressão, pretendendo obter com o prestígio das posições e através do mandarinato dos gabinetes uma cura para as suas desfeitas seja no campo das letras seja no da vida. Por puro egoísmo nos condenamos à inexpressão, a termos alguns espíritos realmente notáveis, mas truculentos, desafiadores, condenados a envelhecer debaixo da canção das moscas, sem emprego “nesta nação improvisada onde não cabe nem o excêntrico nem o filósofo tíbio”, diz Agustina.

Assim, enquanto preferirmos essa esperteza farisaica, e por não termos sido capazes de estar à altura do que Abril se prometeu, vamos encomendando o pior cenário. E o mais triste é que a democracia nem chegou a concretizar-se, essa democracia que não se compadece com a importância de um homem, lembra Agustina, mas que procura instalar um regime de gente menos embaraçante. E agora resta acolher esse golpe de fantasia que já só se cumpre por via do desastre. Regressamos ao absurdo de um inverno insuportável, que é o reverso da nossa falta de compromisso, inspiração e coragem. “Os pastores alucinados acabam sempre por fazer surgir da montanha ancestral o lobo que lhes justifica o clamor insensato e o pânico imemorial”, escreve Lourenço. “De tanto desejar que o país quase inteiro fosse a reacção em face de uma minoria pura sem contacto com o monstro, o país acabou por ser esse monstro, o país acabou por ser esse lobo recalcado e acossado que de novo mostra a orelha tenebrosa.”  

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