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Mariana Mortágua. O rigor e assertividade nem sempre estão do seu lado

Mariana Mortágua. O rigor e assertividade nem sempre estão do seu lado

Bruno Gonçalves Sónia Peres Pinto 27/02/2024 14:06

A deputada do Bloco ganhou protagonismo pelas suas participações nas comissões do Parlamento em grandes dossiês económicos, mas a história da casa da avó tramou Mariana Mortágua. Foi uma das figuras de bastidores na criação da gerigonça em 2015 e quer repetir o mesmo feito com o “seu parceiro” Pedro Nuno Santos, mas agora como protagonistas. Mas para isso exige mudanças no lado socialista. Diz que herdou do pai uma memória de resistência contra a ditadura.

O seu estilo assertivo e frontal que é reconhecido por muitos – em grande parte devido à sua presença nas comissões de inquérito em grandes dossiês de economia, desde a banca até à TAP ­– contribuiu para que Mariana Mortágua fosse vista como a escolha natural para assumir as rédeas do Bloco de Esquerda com a saída de Catarina Martins. Foi eleita para o cargo, a 28 de maio de 2023, com 83% dos votos na sua moção de estratégia global.

Mas nem sempre esta frontalidade corre-lhe bem e a mais recente polémica sobre a história da avó que teria sido alvo de ameaça de despejo acabou por trocar as voltas q quem é vista como assertiva. A líder bloquista, durante os debates televisivos, quis confrontar Luís Montenegro por causa da ‘Lei de Cristas’, referindo que viu o “sobressalto” da avó ao receber cartas do senhorio, “porque não sabia o que lhe ia acontecer, e essa foi uma responsabilidade do PSD, que esvaziou as cidades”.

Desde aí tem sido obrigada a esclarecer a história, o que voltou a acontecer na semana passada, depois de ter sido noticiado que a avó pagava 400 euros por um andar na Avenida de Roma, em Lisboa, num prédio de uma IPSS (fundação Octávio Maria de Oliveira) e que tinha 78 anos, ou seja, estava acima do limite de idade para ser despejada. Confrontada com estas revelações optou por virar o bico ao prego e apontar espingardas à extrema-direita. “Só alinha na campanha de extrema-direita quem tem mesmo muita vontade de alinhar em campanhas da extrema-direita. O que eu disse e mantive é que a minha avó viveu 69 anos na mesma casa. Tinha 80 anos quando descobriu que aos 85 a sua renda podia saltar. Artigos 35 e 36 da lei”.

Além de estar a braços com esta polémica, tem ainda o desafio de recuperar a força política nacional do Bloco, após o resultado desastroso das últimas eleições, com o partido a passar de 19 para apenas cinco deputados. A sua ambição de voltar a ser a terceira força política no Parlamento sairá facilmente fracassada com a ascensão do Chega, mas ainda assim não desiste de apelar a um Governo de maioria à esquerda, acenando que só assim é que possível falar do que é essencial: habitação, salários, saúde e cultura.

 

Braço direito da gerigonça

Entrou no Parlamento em 2013 pelas mãos de João Semedo para substituir Ana Drago. Tinha 27 anos e interrompeu o doutoramento em Londres para regressar a Portugal para ser deputada. Na altura, Mariana Mortágua reconheceu que “o facto de estar na política” a ajudou “muito a compreender a economia e a ver a disciplina económica de uma forma diferente”, disse ao Público.

Esteve sempre nos bastidores na criação da gerigonça em 2015 e mostra-se novamente disponível para falar com o seu “parceiro”, da altura, Pedro Nuno Santos, agora como protagonistas, mas desde que haja uma mudança no programa socialista, uma vez que, no entender da candidata, as medidas do novo secretário-geral do PS prolongam os erros da maioria absoluta, sem um “virar de página”.

Um apelo que parece ter alguma abertura para os lados do Rato. “Trabalhar em conjunto com o Bloco não seria uma novidade e os portugueses têm boa memória dessa experiência em 2015”, revelou o líder socialista, afirmando-se ainda “disponível para construir uma solução de Governo que não exclua o Bloco,” com quem trabalhou vários anos.

Em 2021, Francisco Louçã apontou ao futuro de Mariana Mortágua o cargo de “ministra das Finanças” e a oposição não tem poupado críticas a esse desejo do antigo líder bloquista.

Ao nosso jornal, a especialista em ciência política Paula Espírito Santo já tinha lembrado que Mariana Mortágua “é uma pessoa do aparelho e está dentro de toda a estratégia que o Bloco desenvolveu”. No entanto, reconhece que tem “as suas próprias idiossincrasias”, por ser formada em economia e por estar associada aos assuntos e aos grandes dossiês de economia, daí ter uma maior incidência nos assuntos de matéria fiscal e financeira, não esquecendo “toda a estratégia ligada às grandes bandeiras do partido: os direitos das minorias, os aspetos ambientais, sociais e cívicos”.

Também para José Filipe Pinto, a chegada de Mortágua a coordenadora do partido foi feita “através de um processo de sucessão anunciada, que contou com o apoio não só da esmagadora maioria dos delegados, mas também da ex-líder Catarina Martins, e dos pais fundadores do partido referidos por um deles, Fernando Rosas, como a sua infantaria”. O politólogo acrescentou que “este apoio decorreu, sobretudo, da sua presença assídua no espaço mediático e da imagem de rigor que construiu enquanto deputada, sobretudo no que concerne à sua participação nas comissões parlamentares de inquérito”, referindo que “o Bloco concedeu uma espécie de estágio a Mariana Mortágua e como o resultado foi positivo, apostou na sua combatividade como energia renovadora”.

 

Veia revolucionária

Filha de Camilo Mortágua, histórico ativista, revolucionário, membro fundador e operacional da LUAR admitiu que “as discussões políticas eram habituais” em sua casa numa entrevista a Júlia Pinheiro, na SIC, afastando a ideia que o pai era um homem polémico. “O meu pai não é um homem polémico, é um gigante antifascista que só se tornou polémico quando apareceu uma extrema-direita”, disse na mesma entrevista. “Tem esse percurso que é conhecido, de uma luta contra o fascismo no exílio durante muitos anos”, recordando que a consciência política do pai “não teve a ver necessariamente com a noção do que era o fascismo ou o regime, mas com a noção de que era pobre”.

E acrescentou: “O meu normal era aquela família e aquelas circunstâncias, que tinha questões muito peculiares, mas que depois era compensada com o privilégio de poder ouvir aquelas histórias”, admitindo também que a sua veia reivindicativa surgiu bem cedo, juntamente com a sua irmã gémea, Joana Mortágua, também deputada do Bloco de Esquerda, quando tinham seis anos e pediram ao presidente da Câmara Municipal do Alvito para pintar uma passadeira à frente do portão da escola primária.

Em abril do ano passado, a candidata assumiu pela primeira vez publicamente a homossexualidade. “Sei que este tipo pressão e perseguição política vai continuar e até subir de tom. Seja porque sou mulher, seja porque sou de esquerda, seja porque sou uma mulher lésbica, seja porque sou filha de um resistente antifascista, seja porque, aparentemente, tenho o dom de incomodar algumas pessoas com muito poder. Sei que infelizmente e para algumas pessoas vale tudo na política”, disse. Mas não hesitou: “Vou continuar a ser quem sou e a fazer o meu trabalho”.

Também as suas participações nos meios de comunicação social estiveram longe de ser pacíficas. Em abril de 2022, o Ministério Público instaurou um inquérito crime a Mariana Mortágua, por ter alegadamente recebido o subsídio de exclusividade pelo seu trabalho no Parlamento ao mesmo tempo que desempenhou atividades remuneradas na comunicação social: SIC e Jornal de Notícias. A Global Media Group (detentor do JN) indicou que os recibos emitidos pela sua colaboração como colunista não configuravam remuneração de propriedade intelectual, mas prestação de serviços em atividades de consultoria, científicas, técnicas e similares. Em abril de 2023, o Tribunal Central de Instrução Criminal decidiu arquivar o processo contra Mariana Mortágua, no qual a deputada do BE era acusada de violar o regime de exclusividade por fazer comentário político na SIC.

Também arquivado foi o processo judicial que tinha movido contra André Ventura, pelo facto do líder do Chega ter partilhado no Twitter um tweet de Cristina Seguí, do partido espanhol Vox, em que esta última afirmava que Mariana Mortágua havia recebido dinheiro do BES.

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