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Eu, Capitão. ‘O importante é salvar todos os seres humanos’

Eu, Capitão. ‘O importante é salvar todos os seres humanos’

Sara Porto 26/02/2024 22:12

A televisão mostra-nos apenas o final da sua viagem. E, por mais que possamos imaginar os terrores por que passam antes de chegar à Europa – caminhar pelo deserto do Saara, ser capturados e torturados em prisões clandestinas na Líbia e percorrer o Mediterrâneo em condições desumanas –, nunca saberemos aquilo que sentem. Eu, Capitão, conta-nos a história de dois jovens senegaleses que partem em busca de um sonho, mas que no caminho, vivem o seu pior pesadelo. 

Olhemos uns para os outros. Mas olhemos com atenção. Olhemos nos olhos com empatia, escavando a alma de quem olhamos, mergulhando na bagagem que carrega, interrogando de onde veio, porque veio, como chegou até aqui. Olhemos uns para os outros, sem preconceitos. Calçando os seus sapatos e permitindo-nos viver a sua vida por um momento.

Dizer que um filme é «agoniante» talvez não seja a melhor porta de entrada quando se deseja que o mundo o veja e sinta. Aliás, até pode parecer ofensivo para o realizador. Ou, por outro lado, elogioso, já que o objetivo da arte é fazer-nos sentir qualquer coisa, seja ela o que for. Mas neste caso, parece não haver outra maneira. Agoniante, desconcertante, duro e cru. Um pontapé no estômago e um grito para a consciência.

Não fazemos ideia de quantos barcos carregados de imigrantes se encontram neste momento no mediterrâneo. Sabemos apenas da sua existência porque vemos as imagens na televisão quando chegam à Europa depois de dias no mar. Mas, para nós, esses são rostos sem nome. E o que é que poderá significar «mais um» rosto sem nome? Não sabemos quem são, de onde vêm e porque vêm. Como era a sua vida? De que forma tomaram a decisão de partir? Porquê? Que viagem foi esta? Que obstáculos tiveram de ultrapassar? Que papel podemos ter no seu caminho?

Um filme devastador

Eu, Capitão – chega às salas de cinema portuguesas no próximo dia 29 –, conta-nos a história de Seydou e Moussa que partem de Dakar para chegar à Europa. A história de dois jovens que espelha a de milhares de outros de todas as idades, géneros e lugares, que atravessam as armadilhas do deserto, os horrores dos centros de detenção na Líbia e os perigos do mar. O filme está nomeado para Melhor Filme Internacional dos Óscares e já venceu dois prémios no Festival de Veneza: um pela realização de Matteo Garrone e outro pela atuação de Seydou Sarr, que protagoniza a obra.

«O filme é surpreendentemente clássico em construção e estilo, guiando sabiamente a nossa atenção em direção à história em questão – feita por um pequeno exército de argumentistas e colaboradores que trazem relatos de imigrantes em primeira mão», avaliou a Variety. «O filme de Garrone tem na sua essência uma alma humana tridimensional e devastadoramente realizada. O mundo precisaria de prestar atenção à história de Seydou e às milhões de outras histórias reais semelhantes», escreveu a IndieWire.

Uma história, milhares de rostos

«As pessoas têm o direito de pedir ajuda e de serem salvas. A prioridade é salvar todos os seres humanos», afirma à Fanpage – canal de notícias italiano –, Mamadou Kouassi, um dos homens que inspirou a história do realizador Matteo Garrone. «’Eu, Capitão’ é fruto de várias histórias entrelaçadas de jovens que vivenciaram a travessia da África para a Europa. Ao ouvir os seus testemunhos, ficou claro para mim que as suas histórias eram provavelmente as únicas possíveis narrativas épicas dos nossos tempos», explicou, por sua vez, o cineasta italiano ao Pepper. Este conhecia as histórias de imigração apenas pelos meios de comunicação que costumam dar a conhecer os últimos lances dessas viagens, tal como acima referido.

Por isso, era-lhe importante perceber de que forma é que essas pessoas chegam à Europa. «Tentei mudar o ponto de vista», disse numa outra entrevista ao The Guardian. «É um contraponto ao que estamos habituados a ver. Estamos habituados a ter a câmara na Europa, a observar as pessoas que chegam pelo mar, ora vivas, ora mortas. Queria mostrar a parte que deveríamos saber, mas não sabemos», sublinhou. «Ao visitar um centro de acolhimento de menores em Sicília, ouvi a história de um jovem africano que, com 15 anos, conduziu um barco durante todo o caminho para a costa italiana, salvando assim a vida de todos os seus passageiros», continuou o realizador, frisando que o que lhe interessava era contar a história a partir do ponto de vista das próprias «vítimas».

Para poder contar a sua história «repleta de perigos», Garrone teve de «mergulhar no mundo deles», muito distante do seu. «Para consegui-lo, tive que construir uma relação de colaboração constante com meninas e meninos que viveram uma situação horrível e que me orientaram durante a conceção do filme», avançou. «Durante muito tempo, tive dúvidas sobre a minha legitimidade para contar esta história, mas é a deles, é a história deles que conto», admitiu. «Eu tinha plena consciência do perigo de quão delicado seria este assunto e levei muitos anos a definir a abordagem que adotaria», revelou ainda ao The Guardian. «A minha orientação era ser o mais fiel possível a mim mesmo e à realidade, e mantê-la simples – e é muito difícil manter as coisas simples quando se está a fazer arte», alertou. Mas conseguiu. Até porque, em todos os momentos vividos no set, tinha pessoas ao seu lado que realmente viveram a experiência de serem torturadas na Líbia ou caminharam pelo Saara, para que o pudessem ajudar a contar a sua experiência em detalhe.

Seydou (interpretado por Seydou Sarr) e Moussa (a quem Moustapha Fall dá vida), são primos. O primeiro sonha com uma carreira musical, o segundo quer ser futebolista. Seydou é o homem da família. O seu pai morreu quando este ainda era criança. Tem apenas 16 anos e que ajudar a sua mãe a suas suas irmãs. Foi o seu primo que o convenceu a percorrer o mediterrâneo, acreditando que, ao chegar a Itália, um futuro brilhante os esperaria. Partem sem avisar a família. «Tu tens de ficar aqui! Tens de respirar o mesmo ar que eu», diz-lhe a mãe quando este a aborda sobre a possibilidade de partir.

«Estava a brincar mãe. Estava apenas a brincar!», responde ele. Mesmo assim e, mesmo depois de serem avisados por um homem conhecedor dessas viagens de que provavelmente não sairiam vivos dessa caminhada, sensivelmente seis meses depois de começarem a trabalhar para juntar dinheiro, numa noite, os jovens agarram na mala e partem com esperança de conseguir chegar. Segue-se um filme de terror que nos aperta as entranhas e nos faz interrogar que mundo é este em que vivemos. Migração clandestina é sinónimo de roubos, de passaportes ilegais, de prisões de tortura, de tráfico de seres humanos, de atravessar o deserto do Saara a pé durante dias, sem condições, segurança ou descanso. Atravessar o mar mediterrâneo num barco sem espaço para respirar. Com bebés a bordo, com sede e escuridão.

A representar pela primeira vez

De acordo com a Pepper, Mamadou Kouassi Pli Adama – imigrante e colaborador do argumento –, conheceu Garrone em 2019, depois de ser apresentado por uma jornalista que investigava o assunto. «O processo de produção do filme permitiu-me contar a nossa história, recontar o nosso sofrimento, descrever a nossa vida, as nossas tradições, as nossas culturas. O filme é uma possibilidade de partilhar tudo isso com as gerações de hoje e as de amanhã. O cinema dá voz às pessoas que não a têm», defendeu.

Ao contrário do que muitas vezes acontece, o cineasta italiano apostou bastante nos castings. E a escolha do elenco foi feita em África e na Europa. «O mais sensato e eficaz era trabalhar com atores senegaleses muito jovens que nunca tinham saído do seu país, mas que, como a maioria da sua geração, sonha em viver noutro lugar. Encontrei assim o meu perfeito Seydou no ator Seydou Sarr», lembrou. Recorde-se que o ator ganhou o prémio em Veneza com esta sua primeira experiência no cinema. Ao subir ao palco, não conteve as lágrimas e pouco conseguiu dizer.

De acordo com o realizador italiano, a linguagem foi um desafio. A escrita italiana de Garrone teve de ser traduzida para o francês e depois transmitida oralmente ao elenco em wolof, a língua mais falada no Senegal. «Eu só podia confiar no som das suas vozes para saber se estavam a atuar bem», admitiu ao jornal britânico.

Segundo a Elle, Seydou Sarr nunca tinha representado na vida (na vida real é ele quem tem uma paixão pelo futebol, mas depois deste filme, quer também continuar a representar). Já Moustapha Fall, tinha apenas feito um pouco de teatro na escola (é ele quem sonha com uma carreira musical). Interrogados sobre aquilo que fizeram ao dinheiro que receberam com o filme, o primeiro revela que deu tudo à sua mãe. O segundo, comprou um terreno onde a sua mãe irá construir uma casa.

Em abril, o filme será exibido no Senegal. O realizador e os atores embarcarão numa caravana do Cinemovel para exibir o filme em escolas, aldeias e subúrbios e assim «construir uma ponte cultural entre a Itália e o país da África Ocidental».

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