17/04/2024
 
 
O silêncio dos dissidentes

O silêncio dos dissidentes

AFP José Cabrita Saraiva 24/02/2024 14:32

Ex-espiões e jornalistas envenenados. Bilionários que caem de janelas. Críticos que sofrem terríveis acidentes. A Rússia tem uma longa tradição de silenciamento de figuras incómodas. Alexey Navalny foi a vítima mais recente. As condições em que estava detido, diz Owen Matthews, ‘foram escolhidas para o fazer sofrer’.

Se fosse o enredo de um policial série-B, poderia chamar-se O Mistério do Cadáver Desaparecido. Afinal, onde está o corpo do dissidente russo Alexey Navalny? Por que comunicaram os serviços da penitenciária IK-3, na Sibéria, que precisavam de 14 dias para o «analisar» antes de o entregarem à família?

Mas isto não é ficção, é a Rússia de Putin. E também não há grande mistério: sabe-se que, de uma forma ou de outra, foi o regime que assassinou o antigo advogado, blogger e político, que estava à guarda das autoridades desde janeiro de 2021, quando foi detido mal o seu avião aterrou em Moscovo.

Porquê eliminá-lo agora? O jornalista britânico e antigo repórter de guerra Owen Matthews, autor de Passar as Marcas – os bastidores da guerra de Putin contra a Ucrânia (Edições 70) e profundo conhecedor da realidade russa, não encontra qualquer explicação que faça sentido. «Para Putin, indo pela lógica, Navalny valia decididamente mais vivo do que morto», diz-nos a partir de Londres. «Não consigo descortinar qualquer motivação política imediata para o Kremlin assassinar Navalny agora».

Segundo os responsáveis da prisão IK-3, Alexey Navalny, que se encontrava a cumprir uma pena de 19 anos, «sentiu-se mal» depois de uma caminhada, tendo perdido «a consciência quase de imediato». Incapazes de o reanimar, os médicos declararam a sua morte aos 47 anos. O opositor do regime, que já havia passado por anteriores detenções, impedimento de se candidatar às eleições, tentativa de envenenamento, etc., havia sido transferido em finais de 2023 para uma colónia penal no Ártico. Segundo a BBC, trata-se de «uma das prisões mais duras» da Rússia de Putin.

«As condições de prisão de Navalny eram deliberadamente torturantes, escolhidas de forma sádica para o fazer sofrer», continua Owen Matthews. «Em sentido lato, ele foi assassinado pelo regime de Putin, embora não haja provas de que tenha sido intencional».

‘Porque detesto tanto Putin?’

A morte de Navalny é apenas o último de uma sucessão de homicídios de opositores do Kremlin.

Outra vítima de Putin foi Anna Politkovskaya, a destemida jornalista da Novaya Gazeta e autora de Um Diário Russo (ed. Temas & Debates), que revelou aos russos e ao mundo as atrocidades cometidas pelo regime, nomeadamente na Chechénia. Apesar das ameaças, intimidações e perseguições, Politkovskaya nunca se deixou condicionar. «Porque é que eu detesto tanto Putin?», escreveu em 2004, no texto ‘Akaki Akakievich – Putin II’ (uma referência ao protagonista do conto de Gogol ‘O Capote’). «Porque os anos passam. Este verão serão cinco desde que a Segunda Guerra da Chechénia foi iniciada. E não mostra sinais de terminar. […] todos os assassínios de crianças desde 1999 em bombardeamentos e purgas permanecem por resolver, sem serem investigados pelas instituições da lei e da ordem. Os infanticidas nunca tiveram de ir aonde deveriam ir, ou seja, a tribunal; Putin, esse «grande amigo de todas as crianças» [como se intitulava Estaline], nunca exigiu que eles fossem julgados». E concluía a jornalista: «Porque é que eu não gosto de Putin? É precisamente por isto. Não gosto dele por ser de um pragmatismo pior que felonia, pelo seu cinismo, pelo seu racismo, pelas suas mentiras, pelo gás que usou no seu Nord-Ost, pelo massacre de inocentes que ocorreu no seu primeiro mandato».

Declarações deste teor – o texto está publicado entre nós n’A Rússia de Putin (ed. Elsinore) – não podiam passar impunes. Poucos meses após ter escrito estas palavras, Politovskaya foi envenenada com uma chávena de chá servida a bordo de um avião. Tendo sobrevivido ao envenenamento, acabou morta com um tiro, na escada do seu prédio em Moscovo.

Isso foi a 7 de outubro de 2006. A 3 de novembro do mesmo ano, era internado num hospital de Londres um antigo espião russo, desertor, naturalizado britânico, que adoecera subitamente dois dias antes. Prostrado e sem cabelo, com a pele acinzentada, as imagens de Alexander Litvinenko deitado no seu leito de morte faziam lembrar estranhamente as das vítimas do acidente na central nuclear de Chernobyl, ocorrido 20 anos antes. Essa semelhança não constituía um mero acaso. Litvinenko fora envenenado com polónio-210, uma substância altamente radioativa.

O caso do antigo espião que denunciara os métodos dos serviços secretos russos teve uma repercussão mundial, ao contrário de outro assassínio muito semelhante, de Iuri Schtchekotchikhine, o jornalista que revelou o escândalo de corrupção das Três Baleias, que envolvia valores na ordem dos cinco mil milhões de dólares. «Na véspera de partir para Riazan, a capital de uma região pouco afastada de Moscovo, Iuri sentiu calafrios e uma grande prostração, mas não anulou a viagem», descreve Arkadi Vaksberg em Laboratório de Venenos (ed. Alêtheia). «Em Riazan adoeceu verdadeiramente: tinha febre, a pele da cara escaldava e a tensão arterial caiu abruptamente». Já em Moscovo, um médico diagnosticou-lhe uma amigdalite. Continua Vaksberg: «O seu estado degradava-se claramente. Apareceram-lhe bolhas na pele, como se se tivesse queimado, sentia dores fortes no ventre e vomitava bílis». Mais uma vez, as semelhanças com os sintomas das vítimas de Chernobyl eram evidentes. «A pele começou a descamar-se e os cabelos começaram a cair». Quando morreu de edema cerebral, a 3 de julho de 2003, Schtchekotchikhine «quase não tinha pele em todo o corpo».

O epigrama contra Estaline

Os homicídios de críticos e dissidentes não são de agora. Pelo contrário, têm uma longa tradição na Rússia. Nisso, o período mais tenebroso continua sem dúvida a ser o Grande Terror de Estaline, na década de 1930. Nenhuma ofensa ficava por punir.

O poeta Óssip Mandelstam retratou bem o clima de medo em que se vivia num poema de 1931 (Crepúsculo da Liberdade, ed. Assírio & Alvim):

«Ajuda-me, Senhor!, a chegar à madrugada,

Temo pela tua escrava, pela vida…

 

A noite em Petersburgo é no caixão dormida».

Como se não bastasse a provocação, Mandelstam foi, em março de 1933, «o primeiro e único poeta», escreve a tradutora Nina Guerra na introdução àquela antologia, a denunciar a grande fome na Ucrânia, que entre 1932 e 1933 vitimou talvez dez milhões de camponeses. E em novembro desse ano, compôs um poema acrimonioso, também conhecido como Epigrama contra Estaline, que leu a um círculo restrito de amigos, como Boris Pasternak e Anna Akhmatova. Eis a primeira estrofe:

«Vivemos sem sentir sob os pés o país,

Nem a dez passos se ouve o que se diz,

E quando ousamos enfim a meia fala

O montanheiro do Kremlin lá vem à baila.

Dedos gordurosos como vérmina gorda,

[…]

 

Riem-se-lhe os bigodes de barata,

Reluzem-lhe os canos da bota alta.»

(Crepúsculo da Liberdade,

tradução de Nina e Filipe Guerra)

Houve quem descrevesse, de forma certeira, este poema como «uma sentença de morte em 16 linhas». «A 13 de maio de 1934», continua Nina Guerra, «o poeta foi detido em sua casa e levado para a prisão». A sua ousadia custar-lhe-ia duas sentenças de deportação. Queixava-se ele em 1937: «Trata-se de uma pessoa que sofreu uma psicose gravíssima (ou melhor, uma loucura sinistra e extenuante), e que, logo depois desta doença, logo depois das tentativas de suicídio, mutilada fisicamente, começou a trabalhar. […] Trabalhei com todas as forças. Bateram-me por isso. Rejeitaram-me. Criaram para mim uma tortura moral. Mesmo assim, continuei a trabalhar. […] Passado um ano e meio tornei-me incapacitado. Neste momento, sem qualquer culpa, tiraram-me tudo: o direito ao trabalho, ao tratamento médico. Estou na situação de um cão… Sou sombra. Não existo. Só tenho o direito de morrer».

Com efeito, Mandelstam morria num campo de trânsito em dezembro de 1938, a caminho do tristemente célebre campo de Kolimá.

A lista de Sweeney

Regressemos à era de Putin. John Sweeney, o heterodoxo jornalista de investigação que trabalhou para a BBC e que tem como imagem de marca o barrete cor de laranja e o irreverente ‘Mr. Putin: do fuck off’ com que termina as suas intervenções, fez uma lista aproximada das vítimas do Presidente russo e respetivas causas de morte. Ou melhor, várias listas, porque os mortos de Putin não cabem numa só. O resultado dessa pesquisa encontra-se no livro Assassino no Kremlin (ed. Vogais).

«Percorro de cabeça a lista de gente crítica de, ou perigosa para, Vladimir Putin, para o seu regime ou acólitos, que se lhe atravessaram no caminho e acabaram mortas ou não muito vivas. […] Primeiro a lista daqueles que podem ter sido, ou foram de facto, envenenados na Rússia, na Grã-Bretanha ou noutros sítios. Alguns sobreviveram, outros morreram: Anatoly Sobchack, Yuri Schchekochikhin, Lecha Islamov, Roman Tsepov, Anna Politkovskaya, Alexander Litvinenko, Badri Patarkatsishvili, Vladimir Kara-Murza, Emilian Gebrev, Sergei Skripal, Yulia Skripal, agente Nick Bailey, Dawn Sturgess, Charlie Rowley, Alexei Navalny, Roman Abramovich.

Segundo, a lista de críticos de Putin que foram mortos a tiro: Sergei Yushenkov, Anna Politkovskaya, Natasha Esternirova, Stanislav Markelov, Anastasia Baburova, Boris Nemtsov. Os leitores atentos terão reparado que Anna Politkovskaya começou por ser envenenada e foi mais tarde alvejada».

O sinistro inventário continua: «Carros, helicópteros e aviões são meios de transporte perigosos. Uma terceira lista é a de críticos de Putin que sofreram acidentes misteriosos de carro ou de avião: Artyom Borovik era um repórter russo no rasto da história de Putin poder ter nascido um bastardo que viveu os seus primeiros anos na Geórgia, ou de Putin ser um pedófilo. Pouco antes das eleições presidenciais de março de 2000, o jato privado no qual descolava do aeroporto de Moscovo despenhou-se, matando todos os nove passageiros. O general Alexander Lebed era um herói da guerra do Afeganistão e um potencial rival de Putin até o seu helicóptero se despenhar na Sibéria em 2002. Khanpasha Terkibayev, o terrorista checheno com sorte que conseguiu escapar do cerco ao teatro de Moscovo em 2002, teve o azar de morrer num «acidente de viação» na Chechénia depois de Politkovskaya o ter identificado como um agente provocador. Stephen Curtis era o advogado da YUKOS cujo helicóptero novinho em folha e extremamente seguro se despenhou ao aproximar-se do aeroporto de Bournemouth em 2004.

A quarta lista é a dos críticos de Vladimir Putin e da sua que morreram em circunstâncias suspeitas: em 2000, Antonio Russo, um jornalista italiano também no rasto da história de Putin, o bastardo, tendo, separadamente, documentado crimes do exército russo na Chechénia, foi encontrado morto numa estrada não longe de uma base militar russa. Tinha sido torturado e várias das suas cassetes de vídeo haviam desaparecido. Boris Berezovsky é suposto ter-se enforcado na sua casa perto de Ascot, no Berkshire, em 2013, mas ninguém que o conhecesse bem acredita nisso. Em 2017 o repórter Nikolay Andruschenko morreu dos ferimentos depois de ter sido agredido por atacantes misteriosos em São Petersburgo. Era um crítico de longa data do senhor do Kremlin». A enumeração estende-se por mais de duas páginas.

«Uma quinta lista é composta por pessoas que caíram de janelas: o jornalista russo Ivan Safronov, de 51 anos, caiu do seu apartamento no 5.º andar em Moscovo em 2007. […] A jornalista russa Olga Kotovskaya caiu da janela do seu apartamento do 14.º andar em Kaliningrado em 2009. O fixer britânico de Berezkovsky, Scott Young, caiu do 4.º andar do seu apartamento em Marylebone, em Londres, em 2014. O jornalista russo Max Borodin caiu do seu apartamento no 5.º andar em Yekaterinburgo em 2018».

Quando Sweeney escreveu estas linhas ainda estavam por acontecer vários homicídios ‘misteriosos. Vladislav Avayev, antigo vice-presidente do Gazprombank, e a sua família foram encontrados mortos no seu apartamento em Moscovo a 18 de abril de 2022. A 19 de abril de 2022, o oligarga Sergey Protosenya, multimilionário também ligado ao gás, a sua mulher Natalia, e a filha Maria, de 18 anos, tiveram o mesmo destino a mais de 3500 quilómetros da capital russa, quando passavam férias na sua mansão de Lloret del Mar, em Espanha. Aparentemente, foram mortos à machadada.

Em maio do mesmo ano, Andrei Krukovsky, diretor-geral do resort de ski de Krasnaya Polyana, morreu aos 37 anos após cair de um penhasco em Sochi. O ponto em comum: o resort era gerido pela Gazprom.

Em setembro foi a vez de Andrei Maganov, presidente do conselho de administração da Lukoil, a maior petrolífera privada da Rússia, que tinha apelado ao fim da guerra na Ucrânia. Maganov caiu do sexto andar de um hospital.

Seguiu-se-lhe Pavel Antov, um dos políticos mais ricos da Rússia. Caiu de um terceiro andar de um hotel na Índia. Também tinha criticado a guerra na Ucrânia.

E, claro, Sweeney não podia adivinhar a revolta da Wagner e a morte do seu fundador, o infame Yevgneni Prigozhin, ‘o cozinheiro de Putin’, cujo jacto foi abatido a 23 de agosto quando acabara de descolar da pista de Moscovo rumo a São Petersburgo. Mais um nome para a terceira lista, a dos «críticos de Putin que sofreram acidentes misteriosos de carro ou de avião». Ou não tão misteriosos assim…

Se no caso de Progozhin tinha havido um motivo claro, no de Navalny não se veem razões aparentes. «Um dos comentários mais interessantes que ouvi sobre isto, de um cientista político russo, é que o aspeto assustador deste putinismo tardio é precisamente ter-se tornado tão inescrutável. Não sabemos o que passa pela cabeça destas pessoas. Não faz sentido para quem está for a do sistema, o que o torna mais perigoso do que nunca», diz Owen Matthews, que não se esquece do que viu em Grozny, durante a Guerra da Chechénia.

A morte de Navalny, por outro lado, mostra talvez que Putin já perdeu o pudor, nem se dá ao trabalho de disfarçar. «Putin andou vinte anos a esforçar-se para fazer parte da alta-roda da diplomacia mundial», continua o jornalista britânico. «Penso que por volta de 2018, 2019, 2020 percebeu que não tinha hipótese, por mais que tentasse. E então pensou: ‘Vão-se lixar! Eu faço o que quero’». Quanto à demora da entrega do cadáver, Matthews acredita que pode significar que «as autoridades prisionais fizeram asneira e estão a tentar encobrir os seus erros».

O que nos chega da Rússia, para já, é o silêncio ensurdecedor deixado pelas vítimas. E fica uma última pergunta a pairar na atmosfera: com este grau de violência do regime, como é possível que ainda haja quem lhe faça frente? Bill Browder, um investidor norte-americano que foi declarado persona non grata pelo Kremlin, disse numa recente entrevista ao Nascer do SOL: «Os russos são feitos de outra cepa. O nível de coragem entre alguns russos é da ordem de grandeza da de Nelson Mandela. Já não se encontram pessoas destas no Ocidente».

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