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Ontem (não) fui à bola

Ontem (não) fui à bola

João M. A. Soares 23/02/2024 18:21

Os simpatizantes e sócios de ambas as partes estavam embevecidos com a prestação dos seus capitães mas o restante público, em maioria, começava a mostrar impaciência. Jogo sem golos enfastia...

Ontem, dia 19 de Fevereiro do ano da graça de 2024, fui à bola (vi-a) e não fui à bola (não gostei especialmente).

Curiosamente, fruto dos avanços da tecnologia, vi dois jogos: o do SCP (Sporting Clube de Portugal) contra o MFC (Moreirense Futebol Clube) jogado no Estádio Comendador Joaquim de Almeida Freitas, nome do pai de família que se destacou na indústria têxtil desta laboriosa terra minhota e o do PS (Piruetas Sport) contra a nova AD (Aliança Desportiva), disputado no Parque Mayer, em Lisboa.

Comecei pelo do MFC vs SCP. Aos dois minutos estava já um zero a favor do visitante e tudo indicava que o favorito iria ganhar, sem brilho especial – verificou-se depois – mas tranquilamente.

Concentrei, pois, mais atenção no jogo PS vs AD.

Tinha outros motivos de interesse: os capitães respectivos, recentemente eleitos para a função pelas suas massas associativas, defrontavam-se pela primeira vez, um (o do PS) na posição decisiva de guarda redes e o outro (o da AD, como estratega da equipa), jogando a médio centro. Ao contrário do jogo de Moreira de Cónegos, os árbitros deste desafio estavam sentados e julgo que havia mais de um milhão de vídeo-árbitros (VAR) cujos dispositivos de som só se ouviam nas respectivas casas e não chegavam aos árbitros.

O jogo começou cauteloso e não se perceberam tácticas novas, para além das permanentes interrupções das jogadas iniciadas pela outra parte e dos chutos para fora.

Havia grande expectativa quanto ao jogo, provavelmente faltoso, do PS, dada a tradicional prática da canelada (aliás, já dizia há anos um proeminente dirigente do clube que “quem se mete com o PS, leva”) e quanto à prestação do novo capitão e guarda redes da equipa, atendendo a uma nada negligenciável série de “frangos” que dera em jogos anteriores.

E subitamente, ou talvez não...o primeiro penalty contra o PS: o jogador da AD fora bloqueado na área com um chiste aleivoso e mau a propósito de um seu antigo dirigente a que respondeu, aliás, desastradamente em legítima defesa. Marcada a falta...o guarda redes pareceu defender atrás da linha de golo mas os juízes e muitos VAR não viram assim e o jogo continuou zero a zero.

De novo a jogar-se na área do PS e...novo penalty: O guarda redes atirara um tijolo, da única construção social do Estado no concelho, à cabeça do atacante. Novamente o capitão da AD para marcar e teria sido golo se o mesmo não tivesse sido impedido por defesa heterodoxa e acrobática do guarda redes do PS.

Os simpatizantes e sócios de ambas as partes estavam embevecidos com a prestação dos seus capitães mas o restante público, em maioria, começava a mostrar impaciência. Jogo sem golos enfastia...

Foi o meu caso. Mudei de canal e fui tornar ver o SCP e o FCM e...já estavam dois zero, com a figura estrela dos visitantes a levar pancada, puxões e encontrões que o árbitro ia tolerando. O costume...

Tive de reconhecer que, ao contrário do que se passava no Minho, a expectativa do desfecho do resultado estava no Parque Mayer (como antigamente aí acontecia aquando do esplendor do boxe e da luta livre, neste caso com resultados combinados).

A toada da partida era a mesma: o PS a mostrar o mesmo jogo de sempre, enquanto nos altifalantes – porque jogava em casa - se elogiavam a nova táctica e a nova liderança, anunciando e garantindo vitórias nos próximos anos que não tinham sido possíveis nos anos anteriores.

Recomeçado o jogo, novo penalty contra o PS: aliciamento (aos gritos que até os VAR ouviram) a um jogador adversário chamado Teodósio Álvaro Pedro (conhecido por TAP) para continuar em campo mesmo com um pé partido (resultado de uma canelada recebida). Marca a falta o capitão da AD mas atrapalha-se com o som do telemóvel do guarda redes a enviar por Whatsapp o OK ao pagamento de uma inesperada indemnização à agente do dito TAP e...chuta contra a trave.

Já três penaltis e ainda zero a zero!

O PS vai jogando e fazendo umas flores, mostrando como bem se driblam os adversários e encanta boa parte do público mas...nada de golos!

O jogo aproxima-se do final, algumas escaramuças quase físicas em que o guarda redes do PS se mostra mais pronto para o confronto físico que o seu opositor.

Ambos cuidam de intimidar o outro sem ataques pessoais sobre propriedades, heranças, riquezas e jogos anteriores em que não tenham sido brilhantes. Subitamente, quase em cima da hora...novo penalty: O guarda redes do PS tirara um sapato (feito em família, com zelo e lucro) e atirara-o à cabeça do director executivo do seu clube que ia a passar ao longo da linha lateral. O pobre homem, apanhado de surpresa, viu estrelas, aviões e aeroportos e não gostou. Escândalo: entra no campo com o sapato (todos pensam para lhe devolver a agressão...) mas, surpreendentemente, limita-se a mandá-lo tornar a calçar o sapato e a pedir desculpa aos árbitros e aos VAR.

Oportunidade única para a AD: Um penalty no último minuto do tempo regulamentar!

Silêncio no Parque Mayer e no País!

O capitão da equipa da AD avança, faz a paradinha e...chuta! Perante um bruá de espanto o guarda redes do PS evita o golo. Não houve descontos e o árbitro acaba o jogo.

Zero a zero.

Não percebi se fora o homem da AD que chutara sistematicamente mal ou se fora o guarda redes do PS que defendera bem.

Mas resumindo: zero golos.  

Gostei quando no final, na flash interview final, o capitão do PS relatou como seus (do seu clube) todas as conquistas dos campeonatos dos últimos cinquenta anos (mesmo aqueles em que não jogaram ou estiveram contra a equipa vencedora). Gostei mesmo! Confiança e “lata” fazem parte do jogo...e vale tudo para, pelo menos, não perder o jogo.

Não gostei de ter de reconhecer que estas equipas, as maiores do nosso campeonato, vivem à custa dos seus sócios, simpatizantes e espectadores acidentais – subindo sistematicamente as quotas e os preços dos bilhetes - continuam a não ganhar nem a dar-lhes alegrias e esperanças credíveis...há cinquenta anos...

Sou por isso adepto de uma mudança radical na forma como (todos) os jogadores dessas equipas são escolhidos e de criar um mecanismo de responsabilidade pessoal (desportiva) perante quem os elege e lhes paga os vencimentos.

E o SCP sempre ganhou dois a zero ao MFC.

                                                                                                             Lisboa, 20 de Fevereiro de 2024

 

 

 

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