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‘Vivo o Coliseu Micaelense a 120, 130%’

‘Vivo o Coliseu Micaelense a 120, 130%’

Maria Moreira Rato 28/01/2024 20:10

Cila Simas, presidente do conselho de administração do coliseu micaelense, em ponta delgada, explica à luz o que tem acontecido na maior casa de espectáculos dos açores. Uma visita guiada pelos 107 anos de história daquele que começou por ser o 'coliseu avenida'.

Nasceu em Coimbra e foi para Ponta Delgada, em 1998, estudar numa altura complicada porque tinha sido diagnosticado cancro à mãe. "E aquilo que ela queria era que eu entrasse na universidade para que ela pudesse ver. Foi quase algo como ‘Entra onde conseguires para eu ver!’. Não sabendo ela que, graças a Deus, tudo passaria, entrei aqui na universidade e apaixonei-me pelos Açores", recorda Cila Simas, presidente do Conselho de Administração do Coliseu Micaelense. "Comecei por estudar Física e Química, mas dois ou três anos depois mudei para Estudos Europeus e Política Internacional. O meu sonho era outro completamente diferente, mas deixou de o ser. Não sou uma mulher de estar parada. Entrei no Ensino Superior, mas comecei a arranjar part-times e, às tantas, fui convidada para fazer rádio. Comecei a fazer formação em locução e produção e começou o bichinho da comunicação social", conta. Posteriormente começou a realizar programas para a RTP Açores.

"Por isso é que, a certa altura, decidi mudar de curso. Pensei em Comunicação Social, curso que existia aqui na universidade, mas o meu marido, que é dessa área, disse-me logo: ‘Nem penses! Qualquer curso, hoje em dia, dá para estar em comunicação. Tu é que decides, mas…’ e, então, estudei e trabalhei. Depois comecei a fazer eventos externos e fiquei ligada ao mundo do espectáculo. Tirei formações e a licenciatura era mais um hobbie. Quando pisei esta casa para trabalhar, porque já a tinha pisado noutras circunstâncias, fiquei apaixonada. Estou eternamente grata ao doutor Pedro Nascimento Cabral pela confiança depositada", continua Cila Simas que, volvidas duas semanas, foi convidada para exercer o cargo que tem hoje. "Não podia, de forma nenhuma, recusar o desafio! Tem sido um passo a passo de descobertas, de treinar uma equipa e não sou boa a ensinar!", sublinha. "Durante um semestre, fui convidada por uma professora da universidade para dar a parte de eventos num mestrado e foi a pior experiência que tive no sentido de que não tenho jeito nenhum! Costumo dizer à minha equipa: ‘Estejam ao meu lado e vejam como eu faço. Também estou sempre a aprender’. Vivo o Coliseu Micaelenese a 120, 130%".

A histórica casa de espectáculos açoriana foi inaugurada em 1917 como Coliseu Avenida, sob a presidência de José Maria Raposo de Amaral e Luiz Bettencourt de Medeiros, com o auxílio da Câmara e a direção operacional de Pedro de Lima Araújo, "dotando assim a cidade de Ponta Delgada com o primeiro Coliseu dos Açores e o segundo de Portugal", como assinala a obra Coliseu Micaelense - 100 anos de cultura, da autoria de José Andrade. «Na sessão inaugural de 10 de maio de 1917, como em inúmeros espectáculos posteriores, esgota a lotação das 600 cadeiras de plateia, dos 1200 lugares de balcão, dos 80 camarotes de duas ordens, com um público entusiasta que contempla ‘novidades nunca vistas nesta terra’ por detrás do pano de boca pintado por Domingos Rebelo e por entre o proscénio esculpido por Canto da Maia», lê-se igualmente no livro.

A visita guiada ao Coliseu Micaelense oferece uma jornada fascinante pela história deste notável espaço de entretenimento nos Açores. Iniciamos a nossa exploração no hall de entrada, junto à porta principal, onde somos calorosamente recebidos com uma apresentação sobre a importância deste local, conhecido como a maior casa de espectáculos da Região Autónoma dos Açores (RAA). Ao caminharmos neste icónico edifício, aprendemos que, originalmente, o Coliseu se chamava ‘Coliseu Avenida’. A conceção deste projeto monumental remonta ao início do século XX, com Pedro Lima Araújo, natural dos Ginetes, sendo o primeiro diretor. A escolha do local, situado na Avenida Roberto Ivens, teve os seus desafios, mas o terreno da antiga fábrica Melo Abreu foi selecionado após considerações diversas.

Os estudos para a construção começaram em janeiro de 1912, com sessões de cinema ao ar livre realizadas para arrecadar fundos. O arquiteto António Ayala Sanches desenhou o edifício seguindo o modelo do Coliseu dos Recreios em Lisboa, com tecnologia de ferro pioneira nos Açores. A estrutura utilizou fibrocimento na cúpula, enquanto as cadeiras, portas e janelas foram revestidas com a madeira característica dos Açores, a criptoméria. A construção, iniciada em abril de 1913, enfrentou adiamentos, acabando por ficar concluída em 10 de maio de 1917, o que faz dela a segunda casa de espetáculos mais antiga de Portugal. Decorria então a Primeira Guerra Mundial.

Quatro dias após a abertura oficial, o Coliseu Micaelense acolheu um evento de filarmónicas micaelenses, com sete bandas de música vindas de diversas localidades. O primeiro evento cinematográfico ocorreu a 17 de maio, apresentando filmes mudos acompanhados pela orquestra de José Cordeiro. O espetáculo de revista estreou em 21 de junho, com uma produção original de Jorge Pereira e Castanheira Lobo intitulada Etc. e Tal. Em outubro desse mesmo ano, o Coliseu realizou o primeiro concerto de música sinfónica com uma orquestra micaelense de 34 músicos. Além disso, ocorreu o primeiro evento de caridade em benefício da família de um alfaiate falecido, e a primeira sessão política, organizada por José Maria Raposo de Amaral para preparar as eleições administrativas. No final de 1917, a Sociedade Coliseu Micaelense elegeu os seus primeiros órgãos sociais, com a presidência de José Maria Raposo de Amaral, Luís Bettencourt de Medeiros e Câmara, e Frederico Carlos dos Santos Ferreira.

Durante a visita, deparamos com uma maquete do Coliseu, elaborada em 2017 pela arquiteta Sónia Pereira, inteiramente feita de criptoméria. Ao longo dos anos, o Coliseu passou por diversas fases, incluindo períodos de declínio nas décadas de 80 e 90 do século passado, quando a sua atividade cultural se limitava ao Carnaval. A gestão evoluiu ao longo do tempo, com a criação da Cinaçor em 1964, e a posterior compra pela Sociedade Teatro Micaelense. Em 2001, a Cinaçor dividiu a gestão entre o Teatro Micaelense e o Coliseu Micaelense. Em 2005, após uma significativa obra de recuperação, o Coliseu foi reinaugurado. A estrutura do espaço é versátil, permitindo uma variedade de eventos, desde concertos e óperas até bailes e exposições. A Sala Santos Figueira, o Café-concerto no foyer e os camarotes oferecem opções para diferentes tipos de eventos, enquanto o polo museológico, inaugurado em 2007, preserva a rica história da instituição.

‘Ela estava com lágrimas nos olhos e eu também’

A relação do Coliseu com a cidade de Ponta Delgada é profunda, refletindo a evolução cultural da comunidade. O cinema, o teatro, os bailes de Carnaval e outros eventos sociais desempenharam papéis importantes na vida cultural dos micaelenses ao longo dos anos. A visita também destaca o envolvimento do Coliseu em atividades como cinema, teatro, bailes de Carnaval e espectáculos de circo. A evolução ao longo das décadas é evidente, com a introdução do cinema sonoro em 1932, o declínio temporário nos anos 80 e a revitalização posterior.

No final da visita, somos convidados a contemplar as fotografias, documentos e artefactos expostos no polo museológico que testemunham o papel vital que o Coliseu desempenhou na vida cultural e social da comunidade micaelense. Este passeio pela história do Coliseu Micaelense oferece uma compreensão mais profunda da sua importância e evolução ao longo do tempo, sendo a ligação ideal com o presente do Coliseu.

"Desde 2023, alugamos o Coliseu para eventos como congressos e colóquios que não são feitos aqui, mas cujos almoços e jantares ocorrem aqui. Toda esta plateia se desmonta. Também pode ser transformada em arena. Antigamente, tínhamos circo. É difícil frisar algo da agenda cultural para 2024, do Coliseu Micaelense, porque todos os espectáculos têm características muito díspares e próprias. Tento fazer uma programação que vá ao encontro aos vários nichos da sociedade. E o Coliseu é uma casa que dá para isso mesmo: para ter teatro, concertos, etc. Conhece-se tanto sobre os artistas que é impossível escolher um, dois ou três", admite Cila Simas, recordando, a título de exemplo, que no ano passado o Coliseu assinalou o Dia Mundial do Fado com uma homenagem a José Pracana "e foi uma descoberta ao longo de três meses…! Conseguimos reunir vários fadistas como o João Braga e a Katia Guerreiro", assinala, sendo que a segunda esteve presente na apresentação da agenda cultural para 2024 do Coliseu.
Neste evento, Cila Simas começou por expressar a sua sincera gratidão à presença de todos no Coliseu Micaelense, destacando que a participação enriquece a cultura e motiva a procura por melhorias contínuas. O Coliseu, como principal promotor cultural dos Açores, tem a missão de oferecer serviços culturais a toda a região, especialmente ao concelho de Ponta Delgada. A administração do Coliseu, em estrita conformidade com as políticas culturais determinadas pelo acionista, a Câmara Municipal de Ponta Delgada, liderada por Pedro Nascimento Cabral, baseia a sua programação no respeito às diretrizes legais e no serviço à comunidade. O acesso à cultura na sua forma universal e multidisciplinar é a principal prioridade, procurando consolidar o seu público existente e conquistar novos.

Valorizar os ativos culturais locais e regionais é fundamental para apresentar a cultura local aos visitantes, promovendo a identidade da região. A oferta de atividades culturais externas à comunidade é uma forma de proporcionar acesso a todos, considerando os desafios da insularidade. O Coliseu continuará a receber expressões culturais nacionais e internacionais, mantendo um compromisso social e de serviço público cultural. A criação artística, o serviço educativo, a inovação e a produção de conteúdos continuarão com parcerias locais, regionais, nacionais e internacionais. A projeção nacional do Coliseu permitirá a realização de congressos, conferências e palestras nas suas instalações.

A administração enfatiza a importância da formação contínua dos seus profissionais e da incorporação de jovens talentos para atingir os seus objetivos. A dinâmica da cultura, impulsionada pela comunidade, agentes culturais e o público, é vista como um motor para a criação de conhecimento, partilha de experiências e inovação nos modelos de aprendizagem. Cila Simas destaca os resultados mensuráveis e visíveis em 2023 após a mudança de trajetória da missão do Coliseu. Foram realizados 104 espetáculos e eventos, atraindo 53.027 espectadores e contando com a participação de 2.427 artistas, sendo a maioria regional. Para 2024, a programação continua com apostas mais ousadas.

"A cultura ainda é o parente pobre: como presidente do Conselho de Administração do Coliseu, não tenho razões de queixa. Tenho a Câmara Municipal de Ponta Delgada como acionista e fazemos um contrato de programa para que o acesso à cultura seja mais fácil. Também temos outros protocolos através dos quais tentamos que as pessoas que estão em lares e em centros de dia tenham acesso ao Coliseu. Também temos o programa ‘Coliseu Micaelense Primeira Vez’, quase um projeto-piloto, pois as juntas de freguesia, a Câmara Municipal e colegas e amigos assinalam essas pessoas e oferecemos convites para que pisem o Coliseu", continua a responsável, lembrando uma espectadora que a ela se dirigiu no final de um espectáculo e perguntou-lhe se se importava de que lhe desse um abraço. "Para mim foi um sonho pisar o Coliseu Micaelense!", disse-lhe a senhora. "Ela estava com lágrimas nos olhos e eu também", descreve.

"A cultura tem de ser para todos. É um enriquecimento e um passar de geração em geração. As pessoas terem acesso ao Coliseu ou a qualquer outra casa do país não tem de ser um luxo: é uma benesse daquilo que é a nossa democracia. Também estamos a fechar um desconto de 50% para os jovens e idosos, também temos apoios de 20%. Tentamos sempre de que, de alguma forma, quem nos procura tenha algum desconto. No ano passado, tivemos três residências artísticas aqui. Por exemplo, a Escola Antero de Quental ensaiou e apresentou aquilo que tinha preparado no Coliseu", revela. "Há toda uma sensibilidade e, felizmente, eu, o vereador da Cultura e o senhor presidente da Câmara estamos de acordo neste acesso à cultura. Se falasse com todos os decisores políticos ligados à cultura, dir-lhes-ia que o Coliseu Micaelense é um exemplo que devia ser aplicado a todas as casas de espectáculos. O Ministro da Cultura visitou-nos em dezembro e ficou encantado com a história do Coliseu".

‘Sigam os vossos sonhos’
"A quem está a começar nas indústrias criativas, diria: sigam os vossos sonhos! Nada acontece por acaso e, se os obstáculos surgem à nossa frente, é porque temos capacidade para ultrapassá-los. Nunca se desiste à primeira, à segunda ou à terceira! Temos de ir em frente! Adversidades existem sempre. O ano de 2023 quase que parecia uma nuvem escura no início, porque tivemos de fazer manutenções à pressa por causa do alvará, mas, lá está, não baixo os braços e em dois meses conseguimos tratar de tudo. O dinheiro apareceu porque estava cá dentro: em janeiro de 2023, tal como estamos a fazer agora, lançámos a agenda. E colocámos os espectáculos logo à venda. Ou seja, as pessoas começaram logo a comprá-los. E esta decisão veio colmatar o problema da manutenção porque havia dinheiro em caixa», declara. "Quando cheguei aqui, o Coliseu tinha apenas um patrocinador e comecei a reunir com várias empresas regionais como o grupo Bensaúde, a SATA, o Vila Galé, etc. Ou seja, 2023 já foi rico em patrocínios: 2024 ainda mais! E não quero deixar de dizer isto: o Coliseu Micaelense tem uma equipa fantástica. Somos poucos, mas somos unidos e esforçados! Tento valorizá-los e qualquer decisão que tomo… Oiço-os sempre, assim como ao Senhor Presidente da Câmara e aos vereadores. Faz com que se sintam também Coliseu! Quando sair deste cargo, estarei cá na mesma para todos: somos e seremos sempre uma família!".

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