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‘Há um Grande Irmão que nos vigia e uma polícia do pensamento pronta a atuar’

‘Há um Grande Irmão que nos vigia e uma polícia do pensamento pronta a atuar’

José Cabrita Saraiva 18/12/2023 15:07

Os seus personagens fumam, bebem, dizem palavrões e olham para as mulheres. Leonardo Padura não os concebe de outra forma e tenta não se deixar condicionar. Mas reconhece que a força do politicamente correto lhe mete medo.

Nascido há 68 anos em Havana, Leonardo Padura Fuentes estudou Literatura Latino-americana na universidade, foi jornalista e publicou o seu primeiro romance, Fiebre de caballos, em 1988. Em 2009 escreveu o seu romance mais conhecido, O Homem que Gostava de Cães, e em 2015 foi distinguido com o Prémio Princesa das Astúrias de Letras. Conversámos com Padura em Lisboa, a propósito do policial Pessoas Decentes (ed. Porto Editora), que trata do homicídio do perverso Reynaldo Quevedo, um antigo dirigente dos serviços de segurança, nas vésperas da histórica visita de Barack Obama a Cuba. Um caso, naturalmente, para Mario Conde resolver.

Sempre imaginei que escrever um bom policial fosse uma tarefa complicada. Mas aqui temos dois livros entrelaçados. Como foi organizar e montar tudo isto?

Escrever bem é sempre difícil. Escrever mal é muito fácil. Por isso é que há tantos romances e tantos policiais. Qualquer um que tivesse algum jeito para escrever e um pouco imaginação inventava um enredo policial. Esse enredo funciona como um esqueleto em que tu pões determinados órgãos para que funcione. Felizmente, essa estrutura permite-te fazer literatura. Ao longo de cem anos isso foi demonstrado por Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Leonardo Siascia, Rubem Fonseca, no Brasil, e depois por toda uma série de autores recentes em línguas muito distintas: Henning Mankell na Suécia, um Andrea Camilleri em Itália, um Vázquez Montalbán em Espanha. Quando começas a escrever, o desafio é sempre tentar escrever o melhor romance de que és capaz. Neste caso, há esse elemento que é um pouco estranho: realmente são dois romances que estão unidos por uma personagem, que é Mario Conde – o protagonista de uma história e o autor da outra –, e por um contexto, que é Havana. A minha intenção era essa: fazer um romance sobre Havana, no qual falava de dois momentos muito especiais da história cubana dos últimos 100 anos. Montar a história é um processo que no meu caso ocorre durante o próprio ato da escrita. Tanto assim é que muitas vezes quando me aproximo do final ainda não sei quem é o assassino.

Não sabe?

Não sei, porque me preocupei mais em construir uma boa história. Essa estratégia de trabalho implica muita rescrita, porque à medida que vou rescrevendo, vou-me aproximando mais da literatura. Já não é tanto contar uma história, mas tratar de contá-la bem.

Vai acrescentando camadas?

Vou acrescentando elementos do ambiente, vou encontrando as melhores expressões, vou arredondando o pensamento das personagens. Por exemplo, um dos desafios deste romance era dar coerência a esta personagem que é o protagonista da história de 1910 e que foi uma personagem histórica real.

Alberto Yarini.

Alberto Yarini, o proxeneta mais conhecido da história de Cuba. Porque é um personagem tão contraditório, tão estranho… Embora esteja acostumado a personagens contraditórios e estranhos – construir, por exemplo, Ramón Mercader [agente do NKVD às ordens de Estaline que assassinou Leon Trotsky com uma picareta] para O Homem que Gostava de Cães também foi um desafio. Mas construir a história às vezes é o que menos me preocupa, interessa-me mais o que consigo dizer com essa história.

Pessoas Decentes passa-se nas vésperas da visita de Obama a Cuba em 2016. O país mudou muito nestes sete anos?

A ida Obama a Cuba foi um momento em que houve esperança de que a relação com os Estados Unidos pudesse mudar. Para Cuba, como país, é muito importante, independentemente do sistema que tenha, a relação com os Estados Unidos. Como disse o ditador Porfirio Díaz antes da revolução mexicana: ‘Estamos demasiado longe de Deus e demasiado perto dos Estados Unidos’. E connosco passa-se o mesmo. Nessa altura houve esperança de que várias coisas pudessem mudar, incluindo que se levantasse o bloqueio. O bloqueio é muitas vezes uma desculpa. Mas também é uma realidade. E levantá-lo podia mudar muitas coisas em Cuba, assim como uma melhor relação com os Estados Unidos. Depois houve eleições nos Estados Unidos, Donald Trump ficou Presidente e mudou toda a política em relação a Cuba. A embaixada praticamente foi fechada e houve um momento em que nem era possível enviar dinheiro dos Estados Unidos para Cuba. E Cuba depende muito do dinheiro enviado pelos emigrantes.

As remessas.

Houve uma altura em que Portugal e Espanha também dependiam delas, por isso sabe do que estou falar. Essa política dos Estados Unidos, a pandemia – que paralisa o turismo, praticamente a única indústria que ainda funciona em Cuba –, e a ineficiência do próprio sistema cubano formaram a tempestade perfeita. Desde há dois anos que estamos a viver numa situação de crise e de carência de todos os elementos da vida diária. Todos: a comida, a eletricidade, os medicamentos, o combustível… tudo o que possas imaginar. E a primeira pergunta que uma pessoa faz é: ‘De que vivem as pessoas?’. E há uma resposta, que não te diz do que vivem as pessoas, mas sim o que estão a fazer: emigrar. No ano passado, só pela fronteira entre o México e os Estados Unidos passaram 230-240 mil cubanos. Na época de Obama, os cubanos iam de visita a Miami e regressavam. Agora pagam dez mil dólares para sair pela Nicarágua e subir pela Rota dos Coiotes acima, para chegarem aos Estados Unidos. Não tenho os números deste ano, mas continua a sair muita gente. Porque veem na emigração a única solução. E isso está a provocar um empobrecimento do país, porque a maioria dos emigrantes são jovens, e se sai uma percentagem importante da juventude de um país, isso compromete o presente e o futuro.

A certo momento do livro, fala da «deterioração gritante» de uma rua. Essa decrepitude dos edifícios pode ser fotogénica e parece ser indissociável do encanto de La Havana. Mas como é viver com ela todos os dias? Pode tornar-se opressivo?

Julgo que ter um espaço agradável e convidativo onde viver é uma aspiração universal do ser humano. No caso de Cuba, o problema da deterioração física das cidades começou a acelerar-se a partir dos anos 90. Desaparece a União Soviética [dezembro de 1991], Cuba deixa de receber ajuda económica, e a partir daí começa um processo de deterioração física das cidades, que também implica uma deterioração do aspeto humano. Porque nessa cidade em que as ruas estão estragadas, em que durante dias não recolhem o lixo das esquinas, em que os edifícios estão a cair, as pessoas também começam a ser como essas ruas, essas esquinas e esses edifícios. As atitudes humanas vão respondendo a isso. O meu próximo livro é sobre a minha apropriação física, pessoal, da cidade. Sobre como nasci e vivo num bairro da periferia e me vou apropriando dos espaços da cidade e isso se vai vendo na minha literatura. É a história de desconstrução de uma cidade, de como uma cidade se vai convertendo em ruínas. É um processo doloroso para quem o vê e deve ser terrível para quem o vive. Não pode ser menos do que terrível. Usaste a palavra ‘opressivo’. Eu diria ‘deprimente’ para quem vive nessas condições.

Mas você tem a vantagem de viajar, de respirar outro ar.

Sei bem que sou uma pessoa muito afortunada. Não apenas em Cuba, em qualquer parte do mundo, sou um escritor muito afortunado porque posso viver dos meus direitos de autor. Não há muitos que tenham essa possibilidade. Vivo muito modestamente, o meu carro tem 25 anos, a minha casa fui eu e a minha mulher que a construímos com todos os nossos sacrifícios e poupanças. É uma casa cómoda, funcional, não é um palácio. Mas de facto tenho essa possibilidade de viajar, de respirar outro ar e, além disso, quando viajo posso levar comida para a minha mãe e para a minha sogra. Tenho uma mãe de 95 anos, uma sogra de 86… Ainda ontem eu e a minha mulher fomos ao Corte Inglés comprar leite em pó e mais três ou quatro coisas para levar para Cuba. Mas sinto-me também afortunado porque vivo da literatura e vivo para a literatura. Não é apenas a minha forma de vida económica, é a minha forma de vida intelectual, social, civil.

A páginas tantas, no seu livro, Mario Conde encontra-se com um amigo, Manolo, num bar, e comenta: «Passámos por coisas bem estranhas neste país». Pode falar-me um pouco das peculiaridades de Cuba?

Se começássemos a falar das peculiaridades de Cuba não saíamos daqui. Vou-te contar uma história pessoal. A minha mulher e eu conhecemo-nos desde 1978. Estávamos na universidade, ela tinha 18 anos e eu 22, e começámos a namorar. Já estávamos casados quando fizemos a ampliação da minha casa e juntámos um terreno ao lado, e pus a nova propriedade em nome dos dois, como é lógico. Mas isso implicava que a minha mulher, se a mãe dela morresse, não podia herdar a casa da mãe porque não podia ser proprietária de duas casas. Então divorciámo-nos e no divórcio ela cedeu-me a propriedade da nossa casa, para poder herdar a casa da mãe. Assim já não tem propriedade, pode herdar a casa da mãe, e três meses depois voltámo-nos a casar. [risos] Há coisas tão estranhas em Cuba quanto isto! Ou os transportes na cidade. Existem uns automóveis particulares que percorrem determinadas rotas. Tens de saber onde te leva essa rota, e como combinar com as outras até chegar ao sítio pretendido. Para te movimentares em Havana precisas de um curso de mobilidade urbana. Para comprar alguma coisa precisas de outro curso. Enfim, é tudo anormal porque se estabeleceu a anormalidade como a regra em Cuba.

Vi um documentário em que se dizia que um professor em Cuba ganha 30 dólares por mês. É verdade?

Julgo que agora ainda ganha menos. Porque uma das medidas económicas recentes foi unificar as duas moedas que existiam em Cuba. Até ao ano 93 ou 94, se um polícia te detivesse na rua e encontrasse cinco dólares no teu bolso podias ir parar à prisão. Um dia, passou a admitir-se a circulação do dólar, e se não tinhas cinco dólares no bolso não podias comprar um frango no supermercado. Para tirar o dólar de circulação criou-se uma moeda cubana equivalente ao dólar, o que provocou uma deformação total da economia cubana, porque as taxas de câmbio eram diferentes consoante o setor a que se aplicavam… era uma loucura. Há dois anos, decidiu-se finalmente unificar as duas moedas, e isso provocou uma inflação que faz com que o que custava cinco agora custe 50 ou 100. Isso veio na pior altura, num momento de crise económica profunda, e fez com que um médico hoje ganhe 20 euros por mês.

O que é muito curioso, porque aqui em Portugal o Partido Comunista, que vê o regime cubano como um modelo, está sempre a falar na valorização dos salários.

Seria interessante que essas pessoas que dizem que as coisas em Cuba funcionam bem fosse viver para lá como um qualquer cubano normal. Tenho a certeza de que em seis meses mudavam de opinião. A realidade é tremenda. Costumo dizer que Cuba não é nem o inferno comunista que diz a extrema-direita, nem o paraíso que diz a extrema-esquerda. Está no meio. Mas neste momento a situação das pessoas normais, trabalhadoras, é desesperada. E está a surgir – falo disso neste romance – uma camada que tem maiores possibilidades económicas, seja graças a ligações, a habilidades, por muitas razões. Mas continua a ser uma percentagem muito limitada da população.

Ou seja, também há gente rica em Cuba. Não é uma sociedade totalmente homogénea.

A homogeneidade que existiu até ao ano 1990 rompeu-se. Hoje há mais pobreza e pequenos focos de riqueza. Alguém com a possibilidade de comprar um automóvel novo tem de ter muito mais dinheiro do que o médico que ganha 20 euros por mês.

Aqui no romance também se fala bastante de prostituição, inclusive de rapazes. É um flagelo em Cuba?

A história de 1910 desenvolve-se nesse mundo da prostituição porque Alberto Yarini era um famoso proxeneta. É algo que vem desde a época colonial e que se manteve durante a primeira metade do século XX. Com a revolução [de Fidel Castro, que culmina com a destituição de Fulgencio Batista a 1 de janeiro de 1959], a prostituição desaparece de Cuba, e essa foi uma realidade que durou 30 anos. Na década de 90, com a crise, voltam a aparecer manifestações de prostituição. Mas não é um fenómeno social que esteja – como direi? – a contaminar a sociedade. Não é um problema social.

Aqui no livro há homens que olham para os rabos das empregadas de café e uma prostituta a quem chamam ‘a Mamuda’. Não tem medo de ser considerado um machista empedernido, um retrógrado, um predador, todas essas coisas de que se fala agora?

Repara, uma coisa é o escritor, outra coisa são as personagens. Há que separar as coisas. Há leitores que não separam, e me acusam de atitudes que pertencem às personagens. Neste momento o mundo está a viver uma tendência para o politicamente correto que me mete algum medo. Bastante medo. Qualquer expressão tua pode ser considerada ofensiva para determinado setor e esse setor pode atacar-te e até cancelar-te. E isso para a literatura, para a arte em sentido geral, é muito perigoso.

É castrador?

É castrador, porque a solução que muitos autores estão a adotar é a autocensura. Lutámos tanto pela liberdade de expressão e neste momento estamos a enfrentar uma onda contra a liberdade de expressão. E isso é lamentável. O fundamental, creio, é que os limites da minha liberdade respeitem os limites da tua liberdade. Porque é essa lei que permite a convivência social. Há códigos que todos devíamos respeitar. Veja os Dez Mandamentos que Deus entregou a Moisés no Monte Sinai. ‘Não roubarás, não matarás, não cobiçarás a mulher do próximo’. Gostaria que esses preceitos que vieram do povo judeu há 30 séculos continuassem a ser respeitados. Mas nas redes sociais, nos ambientes académicos, em certos setores políticos, criou-se justamente a polícia do pensamento de que falava Orwell. Há um Grande Irmão que nos está a vigiar e uma polícia do pensamento sempre pronta a entrar em ação. E isso é muito perigoso.

E você, tenta não se deixar condicionar?

Escrevo a partir do meu olhar pessoal mas também de um certo ponto de vista cultural. Admirar a beleza de uma mulher é algo que está muito enraizado na cultura cubana. Ou uma mulher dizer a um homem ‘mi negro’ ou ‘mi chino’ em Cuba é totalmente carinhoso, não tem qualquer conotação racial. São questões que têm que ver com uma maneira de entender a vida e o mundo, mas começamos a ter de ter atenção a cada palavra que dizemos, e podemos cair na paranoia. 

Conhece Lucky Luke, o cowboy mais rápido que a sua própria sombra? Antigamente tinha um cigarro, agora anda com uma palha no canto da boca. As suas personagens fumam, bebem…

Algumas pessoas queixaram-se por se fumar tanto na série [Quatro Estações em Havana]. Mas eu não concebo Mario Conde sem fumar, porque seria outra personagem. E também não o concebo sem beber, porque para mim não é um alcoólico, ainda que tenha uma tendência para gostar bastante de rum… [risos]

Um destes dias recebi um email sobre um curso de escrita criativa. Acha que se pode aprender a escrever num curso?

Eu faço oficinas sobre a escrita de guiões para cinema e para romances. Para escrever um guião é preciso aprender a técnica. E para escrever romances é preciso ler muito. A minha experiência pessoal diz-me que posso orientar os alunos, mas não ensiná-los a escrever. O problema é que a abundância de cursos de escrita criativa levou a uma superabundância de escritores. E de escritores que não têm nada para dizer. Há dois anos pediram-me para fazer parte de um júri de um concurso de contos na Colômbia. Havia três jurados e, como eram muitos contos, uns 200, dividimo-los entre nós e cada um selecionava dez, depois trocávamos esses dez entre nós e escolhíamos os melhores. Demo-nos conta de que havia muitas histórias bem montadas, bastante bem escritas. Mas não diziam nada. Nada. Julgo que isso é o resultado destas escolas de escrita criativa

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