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Uma alcateia em fúria devorou os gansos negros

Uma alcateia em fúria devorou os gansos negros

Afonso de Melo 07/12/2023 22:25

A 1ª vez que o FC Porto recebeu o Casa Pia para o campeonato o resultado foi redondo: 10-0.

Foi uma daquelas sovas à moda antiga, bem próprio de um tempo em que as equipas não viviam amarradas à ditadura das táticas e os mais pequenos não teimavam a defrontar os maiores com onze jogadores dentro da baliza. Uns anos mais tarde, quando Portugal foi completamente esfrangalhado pela Inglaterra no Estádio Nacional (25 de maio de 1947), perdendo por 0-10, a expressão trocista institucionalizou-se nas páginas dos jornais: «Não foi um desafio, foi um dez-a-fio». A frase ainda não tinha sido inventada mas também foi um dez-a-fio aquilo que aconteceu no Campo da Constituição no dia 5 de fevereiro de 1939, quando o Casa Pia visitou pela primeira vez o FC Porto para o Campeonato Nacional da I Divisão. O acontecimento ganha um brilho especial por via do facto de só na época passada os Gansos Negros de Pina Manique terem conseguido voltar a disputar o campeonato dos maiores e, melhor ainda, terem conseguido manter-se por lá nesta época que agora decorre. Estávamos na jornada número 5 e os portistas tinham ganho todos os cinco jogos até aí, comandando a classificação com dois pontos de avanço sobre o Belenenses e três sobre o Benfica. Demonstravam, semana a semana, o motivo de serem, claramente tidos como o conjunto mais forte em Portugal e os candidatos naturais ao título de campeão que viriam, de facto, a conquistar. A correria dos azuis e brancos tinha começado logo na IJornada com uma vitória caseira sobre oSporting (2-1). Repetiram o resultado em Coimbra, na semana seguinte, derrotando a Académica. Depois venceram o Belenenses, em Lisboa, por 3-1. O Barreirense foi igualmente enxofrado: 6-1. Como recear algo de maligno vindo dos gansos?

Não, a vitória já estava assegurada antes do jogo começar, tal a diferença de qualidade entre ambos os opositores. O FC Porto iria ganhar, ninguém tinha dúvidas, restava saber por quantos, reconheça-se que ninguém estaria à espera de diferença tão exagerada ainda que o Casa Pia marchasse tristemente em último na classificação, com quatro derrotas em quatro jogos e com cinco golos marcados e 17 sofridos – sublinhe-se que terminou a prova apenas com uma vitória e, portanto, foi despromovido, mergulhando nas divisões secundárias até agora. O massacre da Constituição Essa tal 5.ª Jornada da época de 1938-39 ficou marcada por três goleadas valentes em quatro jogos (o campeonato era disputado entre oito equipas). O Belenenses destruiu a Académica por 8-1 e o Sporting achincalhou o Académico do Porto por 7-0. O melhor, contudo, estava guardado para a tarde da Constituição. Tinha o FC Porto uma magnífica e prolífica linha avançada na qual se destacava o madeirense Artur de Sousa (o Pinga), acompanhado por Manuel dos Santos, Carlos Nunes, Lopes Carneiro e Costuras. Era gente diabólica que rondava as balizas contrárias como uma alcateia de lobos esfomeados. Dos dez golos, nove foram obtidos por quatro desse quinteto: Costuras (aos 22 e 51m); Pinga (30 e 73m); Manuel dos Santos (29m) e Carlos Nunes (24, 47, 80 e 85m). O restante ficou a cargo de um tal de Francisco Reboredo Mosquera, nascido em Buenos Aires a 3 de setembro de 1914, que veio para Espanha jogar no Deportivo da Corunha antes de passar três anos no Porto e regressar, em seguida, ao Deportivo. Escreveu um repórter que presenciou a desgraçada exibição do Casa Pia na Constituição: «Aos vinte minutos, Armando Jorge foi ovacionado por uma série de grandes defesas, todas elas em lances muito perigosos. O guarda-redes doCasa Pia foi a figura mais destacada sobre o terreno. A ele devem os visitantes não terem sofrido maior punição». O seu colega da baliza do outro lado do campo, Soares dos Reis, não teve praticamente nada para fazer, Podia muito bem ter puxado de um cigarrinho e ter esfumaçado umas passas enquanto observava, à distância, a fúria avassaladora dos companheiros de equipa.

O grande Ricardo Ornelas, jornalista emérito, o autor da expressão ‘Equipa de Todos Nós’ para se referir à seleção nacional, estava a fazer uma perninha como treinador do Casa Pia. Algo de vulgar na época e a própria seleção foi dirigida por diversos jornalistas já que o facto de não haver cursos para treinadores faziam dos mais carismáticos deles os maiores especialistas em táticas de todo o futebol português. Bem tentou Ricardo Ornelas fazer alterações no seu onze de forma a conter a avalanche de ataques contrários. Ao intervalo deu ordens para que Pité passasse para o lugar de avançado-centro, largando a ponta-esquerda, recuou Pedro Santos para auxiliar uma defesa de cabelos em pé, e estabeleceu Ramos Dias como ponta-esquerda e Costa Santos como ponta-direita. De nada lhe serviu. O FC Porto continuou a marcar golos como um garotos que se passeia à procura de miosótis num campo de gipsofila, dessedentando-se volta e meia numa fonte de água límpida. Límpida como uma goleada tão bruta, afinal. Quanto aos infelizes gansos, ainda iriam viver outra tarde aziaga quando se deslocaram ao Campo dasAmoreiras para visitarem o Benfica: levaram mais uma dose de dez, mas dessa vez sempre conseguiram marcar um golo de consolação. Na mesma Jornada (13ª) o FCPorto foi ao vizinho Académico ganhar por 12-2 e garantir o título.

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