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A 'costela' portuguesa de Reinhold Würt

A 'costela' portuguesa de Reinhold Würt

Vítor Rainho e Sara Porto 06/12/2023 15:15

A ligação de Reinhold Würt a Portugal já tem mais de 30 anos, altura em que se apaixonou pela Quinta do Lago. Gigi, timoneiro do restaurante com o mesmo nome, e o artista plástico José de Guimarães falam do homem que doou 50 milhões à Fundação Champalimaud.

O anúncio, na semana passada, da doação de 50 milhões de euros à Fundação Champalimaud para aumentar a investigação do combate ao cancro do pâncreas, por parte do grupo Würth, multinacional do ramo da construção, bem como da sua fundação sem fins lucrativos, não revelou a ‘costela’ portuguesa do agora presidente do Conselho Consultivo das Fundações, Reinhold Würth. O empresário filantropo tem casa no Algarve, na Quinta do Lago, onde passa grandes temporadas, admira a cultura portuguesa, sendo um entusiasta de José Guimarães, de quem tem 300 pinturas, objetos e obras em papel, além de já ter feito várias exposições internacionais do artista plástico português nas suas fundações espalhadas pela Europa, a última das quais na Sala de Arte Würth, na Áustria.

É um habitué do restaurante Gigi, onde costuma deixar gratificações bem generosas para os funcionários. «É um grande admirador de Portugal e dos portugueses», diz Bernardo Reino, ‘Gigi’, ao Nascer do SOL. «É uma pessoa de hábitos muito simples – cheguei a encontrá-lo a ir de bicicleta buscar o pão quando tem um staff em casa – aqui na Quinta do Lago e em todas as outras – de empregados portugueses a quem muito respeita e admira. Também ajuda muitos pessoas com problemas de saúde e subsidia outras». «É um personagem incrível, muito humano e trata toda a gente muito bem», inclusivamente os dois discretos funcionários que o acompanham sempre e almoçam na sua mesa, como o Nascer do SOL já testemunhou.

«Conheço-o há 36 anos, quando se instalou no hotel Quinta do Lago, e ia muito ao meu restaurante, tendo confessado o encanto pela zona, acabando por adquirir uma casa, onde está com muita frequência», confessa o dono do restaurante mais emblemático da Quinta do Lago, que não esquece a importância de Würt na dinamização do Centro Cultural de São Lourenço, de Volker Huber e Marie Huber, onde apareciam artistas como Günter Grass ou o artista plástico português José de Guimarães.   

 

Um amante de arte

 «Ele é realmente um grande amante da arte. Um grande colecionador. Conhecemo-nos há mais de 30 anos. Conhecemo-nos pelo mundo», afirma ao telefone com o Nascer do SOL, José de Guimarães, em tom de brincadeira. O artista recorda que conheceu o empresário alemão em Portugal. «Não me recordo exatamente do ano, nem do local, mas o momento mais especial que partilhei com ele foi na inauguração de uma exposição que fiz em Roma, em 2010, em que ele também esteve. ‘Mondi, Corpo e Anima’, em Capena. Foi o momento em que consolidámos a nossa relação quer profissional, quer de amizade. Ao fim de tantos anos, somos amigos», conta, reforçando que este é uma pessoa extraordinária. «Hoje tem 88 anos e uma das suas prioridades continua a ser ajudar os artistas, adquirindo as suas obras para a sua coleção. Deve ser o segundo maior colecionador alemão», realça. A primeira exposição que fez na Alemanha, no museu Würth, foi em junho de 2001. «Como nós nos conhecemos há muitos anos, atravessou vários períodos da minha produção artística e, portanto, adquiriu uma série de obras, como por exemplo, a ‘Série México’. Mais recentemente comprou-me uma obra que para mim é fundamental… Foi o chamado ‘Alfabeto Africano’», revela, acrescentando que a obra é composta por 132 esculturas inspiradas na cultura do antigo e influente reino de Ngoyo (XV-XIX), atual sul de Cabinda, noroeste de Angola. Neste momento está exposta no museu na Áustria.

Segundo José de Guimarães, atualmente, Reinhold Würth tem um espólio enorme que vai expondo em vários museus que possui pelo mundo. «A coleção dele vai desde a época medieval, à contemporânea. Ele tem um quadro fabuloso da ‘Madona de Darmstadt’, uma pintura a óleo de Hans Holbein, concluída em 1526. Era uma pintura que estava no museu de Frankfurt, mas que pertencia ao particular que a quis vender. A obra não podia sair da Alemanha e ele comprou-a. Reconstruiu uma igreja que estava em ruínas para lá colocar a Madona e mais uma quantidade de obras mais ou menos medievais», lembra o artista. Frisando que o empresário alemão é uma pessoa «extremamente ativa», Guimarães reforça ainda que este é também um grande filantropo, tal como a sua mulher, que também conhece. «A sua ação social incide muito sobre pessoas com deficiências. Ele tem um hotel que é praticamente gerido por essas pessoas. É uma pessoa muito generosa. A sua ação, para além da ação social que é muito intensa, ele continua a colecionar».

Würt tem três filhos biológicos e diz-se que adotou mais de 20 com problemas físicos.

«Quando gosta de um artista procura segui-lo. Falo dos artistas mais modernos, vivos, porque se quiser uma exposição individual do Picasso ou do Miró, ele também tem», afirma o artista português, acrescentando que Reinhold Würth também é um grande amante de arquitetura. «Todos os edifícios da sua indústria, que estão espalhados pelo mundo, são lindíssimos, obras de grandes arquitetos. Ele tem essa prioridade. Mesmo os seus locais de trabalho, são de grande qualidade. Isso é uma grande premissa, porque os seus empregados gostam, sentem-se bem nesse ambiente», acredita.

Os dois amigos escrevem-se mais do que se encontram. «Quando se realizam exposições, quer minhas, quer de outros artistas, ele convida-me. Umas vezes vou, outras não. Nós temos uma relação muito próxima e ele continua a ser uma pessoa de quem gosto muito», garante José de Guimarães. «De maneira que, o que lhe posso dizer é que ele deve ter umas 300 obras minhas», remata.

 

De uma pequena loja para um mundo

A Segunda Guerra Mundial tinha terminado há apenas quatro semanas quando Adolf Würth decidiu abrir um negócio grossista de parafusos – o que hoje conhecemos como Grupo Würth –, que começou com uma loja com 200 m², que existe até hoje na Alemanha, conservada como museu.

No dia 29 de maio de 1945, decidiu levar o seu filho, Reinhold Würth, numa deslocação de carroça até à fábrica de parafusos Arnold, em Ernsbach, na Alemanha, sem que este calculasse que juntos acabariam por transformar uma loja de ferramentas local numa multinacional líder de mercado na área da fixação e montagem profissional. Atualmente, o grupo está em mais de 80 países, emprega mais de 83 mil empregados em mais de 400 empresas com mais de 24 mil lojas. Tem uma faturação anual de mais de 14 mil milhões de euros.

Em 1949, com 14 anos, o jovem acabou por entrar no negócio em Kunzelsau, primeiro como aprendiz e depois como colaborador. Segundo o site oficial do grupo, em 1952, Reinhold concluiu a sua formação como vendedor grossista, tendo passado com êxito o exame que teve de fazer perante a Câmara do Comércio e Indústria. Dois anos depois, com a morte prematura do pai, aos 45 anos, o jovem, na altura com 19, assumiu a gerência da empresa, transformando-a, nas décadas seguintes, num grupo representado em todo o mundo. O grupo chegou a Portugal em 1974.

Apesar de Reinhold Würth atribuir o sucesso da sua empresa aos seus funcionários, foram as suas práticas de gestão visionárias que lhe permitiram fazer crescer o negócio. «A satisfação do cliente não é suficiente – queremos inspirá-los!», é um dos seus lemas. Em várias entrevistas, o dono do grupo Würth revelou o seu desdém pela arrogância e a sua crença na importância dos empresários abraçarem a modéstia e as competências. Em 1994, o magnata alemão retirou-se da administração da empresa, assumindo a posição de presidente do Conselho Consultivo do Grupo Würth. No dia 1 de Março de 2006, a sua filha Bettina sucedeu-o. Reinhold Würth continua a ser o presidente do Conselho Consultivo das Fundações.

 

A aposta no combate ao cancro do pâncreas

A doação de 50 milhões de euros para reforçar a investigação de combate ao cancro do pâncreas, foi anunciada na passada sexta-feira pela presidente da instituição, Leonor Beleza. A ex-ministra da Saúde adiantou que a doação se destina a financiar exclusivamente a investigação sobre o cancro do pâncreas, possibilitando «reforçar as equipas» que na instituição que dirige se têm dedicado ao estudo da doença, «uma das mais perigosas e mais temidas». Recorde-se que, em 2018, o casal espanhol Mauricio e Carlotta Botton, família proprietária da marca de iogurtes Danone, já tinha feito uma doação no mesmo montante, o que permitiu à Fundação Champalimaud construir o Centro Botton-Champalimaud para o Cancro do Pâncreas, inaugurado em 2021.

Na semana passada, o Presidente da República condecorou, no Palácio de Belém, Reinhold Würth, de 88 anos, com o grau de Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

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