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Max Ritvo. Arrastar o universo para a cama

Max Ritvo. Arrastar o universo para a cama

Diogo Vaz Pinto 05/12/2023 11:37

O poeta norte-americano Max Ritvo morreu aos 25 anos de uma forma rara de cancro ósseo que lhe fora diagnosticado uma década antes. Agarrou-se à poesia, aos amigos, aos professores, e também às memórias e ao passado, deixando um testamento tenaz e sumptuoso, celebrando o tempo que lhe foi dado, entretecendo um eco vivo.

Tantas vezes só se alcançam os aspectos sublimes da existência por meio de travessias ou explorações que passam pelo lado sórdido desta, pelo que há de imundo e hostil, entregando-se a uma forma de desespero, mas autêntico, e não esse dos que fazem momices ao espelho tentando copiar a amargura dos filmes e a partir de outras representações para colher ali as suas breves flores. Às tantas, no seu livro de estreia, preparado enquanto Max Ritvo ainda era vivo, mas publicado já postumamente, ele regista: “e temos de aprender a partilhar uma cama,/ temos de aprender a partilhar um corpo”.

Isto poderia não ter o mesmo peso, se não estivesse em causa o relato de alguém que viveu a última década da sua vida sentindo a morte, pouco a pouco, a erguer-se no seu interior, fazendo do corpo forçosamente uma matéria de escombros. E se todos nós sentimos amiúde o desejo de nos abandonarmos, enfrentar a ameaça vindo do interior, como um caroço que se enraizou em nós, isso coloca um grande problema, que é o ter de sentir a própria luz a cada instante emergir de um sufoco, sentindo nos dedos o pavio a encurtar.

A morte torna urgente cada afeição, e o que se ama são essas coisas que procuramos arrastar até à cama, como uma teia delicada a partir da qual se ergue um monumento à existência e aos seres e coisas de que nos nutrimos. Grande parte dos seres já nascem sob um efeito de ameaça, numa gravidade mortífera que anima o breve esplendor das suas existências. Entre nós, o condenado, nesse balanço ritmado que vai da embriaguez com que se despede de tudo até aos momentos de repulsa e fuga de si próprio, é relação mais drástica, uma contracção de tal ordem que, logo em seguida, produz um tumulto que vem a expandir-se numa relação que representa as espantosas oposições cosmológicas. “As vozes do meu corpo, tão propensas a quezílias”, diz-nos Ritvo.

Antes ouvia-se a voz de alguém próximo que o interroga: “Porque cagas tanto – é do cancro ou da ansiedade?” E ele fica com a pergunta, e desloca-se, agarra-se ao inesperado: “Vou à casa de banho visitar as minhas ex-namoradas.”

Quem tem o fôlego ameaçado, acaba por se adaptar a movimentos que não têm a paciência para examinar e expor minuciosamente cada sobressalto em que a imaginação se alivia dos constrangimentos para saltar entre planos, aprendendo a compulsar os anais da devassidão, como as matérias radiosas, fazendo uma triagem em si mesmo buliçosa, cheia de alarido, marcada por uma intensidade deformante.

Aquela mesma voz procura assegurá-lo de que não o responsabiliza: “Não estou zangada contigo,/ estou zangada com o Universo que se desvenda no teu corpo.” E ele retorque: “Não és capaz de me ver como pessoa?” Ao que ela (a mãe, provavelmente, ou talvez a mulher, com quem Ritvo se casou meses antes de morrer) responde: “É precisamente isto de ver o Universo no teu corpo/ que te torna tão humano.”

A morte que alguns carregam pode chegar a parecer-se com estar a ser consumido pela floração de uma semente de infinito, essa pulsão do cosmos que chega a ser demais para o corpo, que acaba por ceder à sua desintegração interior. Ritvo fora diagnosticado, aos 16 anos, com Sarcoma de Ewing, uma forma rara de cancro ósseo. Após os primeiros tratamentos e alguns anos de remissão, o cancro voltou e começou a espalhar-se, tornando-se terminal.

O poeta viria a morrer no verão de 2016, com 25 anos. Dada esta forma de condenação íntima, é natural que Ritvo tenha vivido as manifestações do seu corpo, daquilo que se passava debaixo da sua pele, como um fenómeno absurdo e terrível, como uma embarcação em que nas próprias tábuas estivesse inscrita uma instabilidade tempestuosa, procurando resistir às vibrações ao seu redor, mas, sobretudo, aos sacões vindos de dentro.

Ainda que tenha aprendido a escrever com uma idade muito precoce, e aos quatro anos já esboçasse os primeiros versos, este poeta está longe de ser um desses prodígios que imprimem em cada frase um estrépito assombroso, não estamos diante de um Rimbaud, mas de um passageiro lançado numa vertigem perante a vida em que o fulgor do infinito o obriga a responsabilizar-se pelo seu destino particular.

Há algo como um miserável milagre nesta existência que termina em plena juventude, e Ritvo prova uma “temeridade” extraordinária na forma como sabe utilizar a energia contida nessa ameaça de que está grávido, confrontando o medo de forma a dar-lhe forma através da imaginação, convertendo esses sobressaltos íntimos e o modo como a tempestade que tomou conta da sua vida o sacode e o lança de um extremo ao outro, ensinando-o a servir-se das palavras para ir fazendo um espantoso diário de bordo, concentrando-se no seu martírio de modo a transcendê-lo, e produzir momentos de inesperado fascínio e de uma força que acaba por definir um carácter. É esse dom tão antigo e consciente daqueles que, acossados por elementos que fogem do seu controle, se habituam a encontrar um registo análogo, de forma a que a palavra possa ter sobre os ritmos e os fluxos da vida um poder, uma capacidade de extrair-lhes um sentido.

Como sinaliza Louise Glück, que deu aulas a Ritvo em Yale, e que teve um papel de mentora, vindo mais tarde a editar uma selecção de novos poemas, juntamente com uma versão da sua tese de licenciatura, “a assombrosa agilidade mental de Max Ritvo manifesta-se em transições vertiginosas e justaposições inesperadas, em referências abrangentes e alusões barrocas”. No fundo, se a poeta via nele uma autenticidade e uma capacidade de produzir “coisas nunca antes feitas com a linguagem”, a sua orientação foi no sentido de o afastar de uma tendência para a sentimentalidade, e fica claro como Ritvo soube estar aberto e disponível, de tal modo que, como assinalou o crítico Dan Chiasson, num artigo na The New Yorker, a obra deste poeta tem chegado aos leitores, não como um solene monumento, mas como uma oficina vibrante em que os amigos, mestres e editores quiseram garantir que não há propriamente uma resolução final, mas a oportunidade de dar seguimento àquela vida interrompida.

Assim, todos os documentos foram acolhidos num pequeno arquivo que pode ser consultado livremente e que inclui poemas acabados juntamente com variantes anteriores, cartas e e-mails, entrevistas e obituários. Qualquer leitor poderá deste modo montar o seu próprio Ritvo a partir deste amplo registo da sua actividade, sendo que ele mesmo reconheceu como a escrita foi toda a vida o seu sustento. “Ele dizia que, no dia em que parasse de escrever, seria o fim”, contou a mulher numa entrevista. E acrescentou: “Ele ainda escreveu uns versos três dias antes de morrer.” Depois terá dito que não conseguia mais.

Glück assinala que não se trata de uma poesia de desapiedada intimidade autobiográfica, diz-nos que “não é uma contracção, mas uma expansão de que resultam uma liberdade e uma intrepidez e uma ousadia amplificadas”. No fundo, este poeta que sempre escreveu numa lógica de correspondência com os seus pares, e que disse que os seus poemas começavam por ter umas três páginas, mas que passavam por um processo de depuração através das sugestões dos amigos e dos seus mestres, foi aprendendo a dominar o seu ímpeto de expansão, a controlar o ritmo e a “extravagância verbal” dos seus poemas de forma representar o imutável por meio de forças extremamente fugazes. Deste modo foi operando uma construção do infinito.

De acordo com Tom Waits, um dos músicos que ele mais admirava, um poema de Max Ritvo é “um mapa desenhado à mão para mostrar onde está enterrado um corpo”, ou “um doce coberto de formigas”. E a edição portuguesa do seu livro de estreia que acaba de ser dada estampa, com selo da Cutelo Edições, reproduz uma breve e espantosa nota não assinada que abre a edição original: “Os poemas de Quatro Reencarnações são despachos de sessões de quimioterapia, de hospitais de dos mais solitários espaços domésticos. Implacavelmente corporizados, traduzem dor, violência e perda. E, no entanto, estão também erótica e electricamente sintonizados com a possibilidade e o desejo, com ‘todas as coisas vivas/ que não levarei comigo/ nesta tarde soalheira’. Ritvo explora a perspectiva da morte com uma sensibilidade singular, mas é também um poeta da vida e do amor – um imparcial árbitro da mortalidade e um fervoroso paladino do próprio corpo e seus prazeres.”

Ainda que a tradução de Manuel Alberto Vieira nos pareça escrupulosa, esforçada nuns momentos e noutros até cúmplice, há uma pecha que tem de ser apontada à edição que nos dá a conhecer um dos mais urgentes e admiráveis poemários de um jovem poeta que nos foi dado ler em muitos anos e que é o facto de não reproduzir os poemas no original. Os originais em inglês são impreteríveis quando resulta de tal forma claro que a tradução apenas nos pode apresentar uma versão, em alguns momentos uma espécie de eco daquilo que foi feito na língua inglesa.

“Há uma língua morta enterrada no inglês”, diz-nos um verso. E a seguir lê-se: “Há uma palavra de que ninguém se lembra/ para um templo/ com uma taça de milhete/ guardada em cada tijolo./ Quando fores enterrada, brotará/ da palavra o som ssa./ Mudará o seu significado/ para te confirmar como a construtora.// Ninguém fala a língua que irás reescrever.// Sei que isto não é o paraíso que queríamos./ Alguma coisa em algum momento o é?// E em breve vou juntar-me a ti/ entre os termos/ para minúsculos frascos de poções defuntas/ e paixões não mais compreendidas (…)”.

Esta é uma poesia que nos faz sentir a vulnerabilidade a que cada frase está sujeita, ferida pelas relações que vai despertando, pelas superfícies que roça e onde enfrenta o esboço de uma miríade de outras expressões ou reflexos. “Quando te escondes na terra,/ a última coisa tua que se vê/ acima do que é areia ou barro/ não é uma mão, mas um luzente sudário.”

A morte impõe sobre cada instante que se vive uma espécie de interrogação: O que significa isto? E estes poemas estão dilacerados por esse excesso de sentido ou de indagação. “tudo isto tem algo de comovedoramente patético. Viver assim,/ como criatura plena que conta histórias de fantasmas”, lê-se às tantas num poema com o título “A Aurora do Homem”. E é assim que começa: “Depois do casulo, achei-me no corpo de um humano/ em vez de no de uma borboleta. Atravessava-me as costas/ uma dor imensa – ergui-me titubeante/ e senti atrás de mim asas que tentavam// puxar-me para trás. Conseguiram-no/ ao fim de um dia de esforço. Derreado// pelos fantasmas das minhas asas, chamei sono a esse tempo.”

A linguagem faz da terra uma espécie de membrana entre dois mundos, sendo que o inferior não é menos conturbado que aquele onde se vive. Feito de reflexos e de variações que se alimentam como um poema do alcance e da repetição de gestos imutáveis, tantas vezes impensados ou inocentes. “Tens pena da minha imaginação? Ela há-de matar-te”, lê-se noutro verso.

Não é apenas a vida que termina, mas há lugar aqui a uma ponderação sobre aquilo que resta. E para que efeito? “A cada pensamento, um novo peixe/ sobe disparado por baixo do barco ancorado –/ uma canção de embalar para silenciar uma outra.”

Raros são os poemas que se ofereçam a uma conversão meramente literal, e a simples transposição de um idioma para outro baralha os ritmos, e joga-se num nível de interpretação arriscado numa poesia que executa passagens estrepitosas entre o simbólico e o real, sem que seja exactamente clara a linha que os separa. Isto é evidente logo no poema que abre o livro: “A cama arde, e tu ris-te?// Deixas a cama/ e deixas-me sem pejo.// As molas querem abraçar-se,/ mas temem que se lhes parta// a espiral e nunca mais/ aguentem o peso de ninguém.// Oxalá me desses a saber/ o quanto é difícil amar-me.// Saberia então que me amas/ sob essa dificuldade imensa.// Dizes-me que não zelas só por mim,/ mas pelo teu outro filho – o ar,// e o ar calça os meus chinelos/ e o ar esfrega os dentes na minha escova,// e temos de aprender a partilhar uma cama,/ temos de aprender a partilhar um corpo.// Sobra pouco dinheiro./ Vamos ter de dividir uma agulha// este Inverno – uma ponta para mim,/ a outra para o ar.”

Há uma instabilidade no registo que em si mesma é o traço distintivo de uma poesia que, através de uma paleta extraordinária de tons e de recursos imaginosos, consegue equilibrar o “normal” e o desconhecido, o insuspeitado e o estarrecedor, devolvendo-nos à enormidade da experiência de se estar vivo. “Tudo me é tão aprazível:/ o gorro de lã na cabeça,/ o casulo seco na garganta”…

Ritvo vai do desespero ao humor, da candura e esplendor a uma desolação em que se percebe como um ser pode debruçar-se sobre a sua mortalidade e apreendê-la, ficar sujeita à sua influência e efeitos, como acontece àqueles que se servem de drogas. A sua consciência e testemunho têm essa vertigem e urgência com que os condenados se agarram a minudências ao sentirem-se como as presas de uma tempestade que os cerca vinda de todos os lados. “É tudo mais rápido do que imaginei,/ a minha mente ergueu o tempo ou ergueu-se a si mesma.// Vejo atrás dos documentos:/ a gaze que se alonga num halo/ de sangue dourado.// És eu antes de eu mesmo ser eu.”

Como assinala Chiasson, um poeta cuja estreia surge após a sua morte habita o tempo de uma forma desordenada”, e este livro está consciente disto, serve-se desse efeito, desse balanço entre o que foi e o que de algum modo persiste, e vai aproveitar-se disto para desordenar a relação que teríamos não apenas com o livro, mas com a impressão geral do que este pode fazer, modificando até a forma como nos apoiamos em certas noções, levando a cabo uma redistribuição da sensibilidade, em que tudo se torna estranho, cada eco sobrevive para provocar um novo sobressalto. “A sombra adensa-se/ e o homem transpira abundantemente.// O homem converte-se em teia/ e a sua sombra em aranha.// Não que a sua vida se transfira para a sombra –/ mas algo se inclina, como uma ampulheta,/ e de repente a vida que ele não sabia ser partilhada/ obedece a uma nova ordem.// Nessa noite um grilo mata-se no homem.// É insuportável, o seu corpo de seda acometido/ pelos gritos. O homem não é mais que um orador –// sem voz suficiente para comunicar/ o temor a Deus.// Mas suficiente para atrair a aranha.”

Este é um livro estarrecedor, em que de cada vez que nos forçamos a reler um poema sentimos como as costuras se abrem, como houve aqui um ir e vir constante, um trabalho fenomenal entre o poeta e esses leitores que lhe foram dando margem para se ouvir, e entrar numa relação muito profunda com esses ecos, os quais vieram a produzir os seus abalos e a ser integrados nestas páginas. "Ele não queria simplesmente pôr-se a chilrear umas canções épicas para um receptáculo que depois não fosse por si mesmo capaz de cantar”, escreveu Sarah Ruhl, uma dramaturga e amiga com quem Ritvo se correspondeu e que preparou um livro com as cartas trocadas entre eles. “Ele queria que um poema respondesse a um poema. Queria que a sua escrita gerasse mais escrita”.

Tal como no amor, há aqui um desejo de se agarrar à vida pelo que há nele de “relacional”, pelo momento aventuroso que passa pela possibilidade de se ser transformado na correspondência que se estabelece com o outro. Num dos últimos poemas, aquele que tem como título “O Fim”, não sendo, como é óbvio o último poema do livro, começa por notar como a certa altura “a Lua escurecia/ como se tivesse tomado demasiados comprimidos/ para produzir luz”. Desde logo, a luz não é uma propriedade daquele corpo, mas apenas um reflexo, e o esforço de projecção tem naturalmente o seu custo. Uns versos mais à frente, Ritvo escreve: “A dada altura perguntei-me/ se na verdade me teria matado –/ se o significado da morte não era mais/ do que passar todo o tempo com o passado.// Quanto mais há, maior a perda –/ pode dizer-se não só do mundo, mas da percepção dele,/ até da imaginação que sobre ele fervilha.// Tenho uma nódoa negra no corpo/ onde uma cauda brotaria./ Se puser água pura na boca/ e tossir, cuspirei lama.// Enoque escreveu/ Somos criados à sua imagem/ mas Deus pode ter muitas imagens./ Pode querer ainda mais.// Talvez Ele esteja a usar o meu corpo/ para recriar o Seu/ numa espécie de pó pensante.// Isto é, no entanto, uma abnegação/ que escolho. Estou aqui,/ sem nenhuma voz no ouvido,/ sem nenhuma loucura que não a da vida –”.

São hipóteses, vozes entretecidas, debatendo-se em direcção ao infinito, sendo essa a tensão e o desejo que nos segura, que nos impede de nos desintegrarmos antes de tempo… “Os anjos chamam a estas sobreposições sonhos/ e acreditam que brotam porque os anjos/ querem dormir apesar de não poderes –// o espaço desintegra-se quando se dispõe de tempo ilimitado.”

 

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