26/02/2024
 
 
A COP28 - quebrar o ciclo mortal do aquecimento

A COP28 - quebrar o ciclo mortal do aquecimento

Henrique Gomes 05/12/2023 09:02

Está a decorrer neste momento no Dubai a conferência da ONU sobre alterações climáticas deste ano, a COP 28.

Nos dias que antecederam a inauguração, António Guterres afirmou: “Os líderes mundiais na conferência climática desta semana, COP28, devem quebrar o ciclo mortal do aquecimento global antes que um “ponto de inflexão mortal” seja alcançado, disse o chefe da ONU na segunda-feira.” “A ação climática não pode esperar”.

“A ciência é clara: para preservar um clima habitável, a produção de carvão, petróleo e gás deve diminuir rapidamente, e a capacidade global de energia renovável - incluindo energia eólica, solar, hídrica e geotérmica - precisa triplicar até 2030. Ao mesmo tempo , o financia- mento para a adaptação e os investimentos na resiliência climática necessitam de um salto quântico.”

 

O SALTO QUÂNTICO DOS BILIÕES

Organizado pela Presidência da COP28 e nela integrado, decorreu, entretanto, o primeiro Fórum Climático de Negócios e Filantropia COP28, reunindo “mais de 1000 chefes de Estado, de Governo, CEOs empresariais, filantropos e chefes de ONG a nível mundial…”

O seu Presidente, Badr Jafar, declarou: “A nossa agenda, visa concentrar-se em onde as parcerias público-empresas-filantrópicas podem acelerar, replicar e escalar, enquanto transferem o diálogo de milhares de milhões para os biliões que são necessários.”

 

A REDENÇÃO NOS NEGÓCIOS

E FILANTROPIA

O IPCC, organismo político-científico da ONU que acompanha as alterações climáticas e que as considera como quase exclusivamente antropogénicas, distribui os financiamentos e apoios para a “ciência alinhada”. Reivindica-se como o grande detentor do conhecimento climático e procura “acelerar e mostrar o progresso nas metas climáticas e na transição da indústria”. 

Sob a sua batuta, prepara e anima, anualmente, o areópago ambiental COP. 

Considerando que no “ciclo mortal do aquecimento global” estamos a atingir o “ponto de inflexão mortal” mas “ainda não é tarde”, as grandes ideias deste ano são,

• “A ciência é clara: … a energia renovável precisa triplicar até 2030”.

• O financiamento e investimentos da transição energética “necessitam de um salto quântico” de “milhares de milhões”.

• “As parcerias público-empresas-filantrópicas podem acelerar, replicar e escalar os múltiplos projectos do processo de transição. 

Os “mais de 1000…” líderes mundiais presentes na COP28, vergar-se-ão à consciência da catástrofe que se avizinha, agitar-se-ão com o imperioso desafio que a ciência lhes coloca e exultarão com as oportunidades dos novos negócios. 

COP parte “com os ventos de feição”. Redenção à vista!

 

OS GANDES EMISSORES E A NEUTRALIDADE CARBÓNICA

Em termos das emissões acumuladas (incluindo combustíveis fósseis, cimento, uso da terra e florestas), que representam as responsabilidades do aquecimento global e são referência de “justiça ambiental”, verifica-se que os EUA são, de longe, o maior emissor com 20%, a China com 11% e a Índia com 3%. O conjunto do que hoje é a UE terá 14% e Portugal, graças a Salazar, será irrelevante.

Em termos instantâneos anuais e em 2021, 59% das emissões de dióxido de carbono globais foram da responsabilidade de 3 países: China (31%), EUA (17%) e Índia (10,5%). Nesse ano, a UE foi responsável por 9,5% e Portugal representou 0,1% (1% da UE). 

Se a trajectória actual não for mudada, a meta relativa ao ano de referência de 1750, de +1,5ºC de temperatura global, seria atingida no final da presente década. Daí que uma das conclusões preparadas para esta COP seja a do compromisso de triplicar até 2030 e para 11 TW, a capacidade global de energia renovável, por forma a colocar o mundo numa trajectória certa para alcançar a neutralidade carbónica em 2050.

Qual a situação destes países face a este objectivo?

• A China com 1,2 TW é actualmente o país com maior potência instalada renovável do mundo, tem capacidade em cumprir os objectivos de 2030 e de se manter na trajectória da neutralidade carbónica. Não obstante, mantém um mix de produção energética diversificado e é um dos poucos países que continua a aumentar as suas emissões, grande parte relacionadas com as suas exportações de que o resto do mundo beneficia. A China pretende alcançar a neutralidade carbónica somente em 2060. 

• Os EUA, com 385 GW, vêm descarbonizando de uma forma eficiente. Embora Biden tenha assinado o Inflaction Reduction Act prometendo milhares de milhões de dólares para a transição energética, as barreiras, não só a alfandegária das importações da China mas também a complexidade dos licenciamentos, fizeram com que alguns dos mais ambiciosos projectos tivessem sido arquivados, as vendas de carros eléctricos não descolassem e os investidores estejam a abandonar o sector. Adicionalmente, o risco de política interna é elevado. Os objectivos climáticos de 2030 e o objectivo da neutralidade carbónica em 2050 estão em risco e dificilmente serão alcançadas.

• Na Índia, a base renovável é de 177 GW e terá um bom crescimento. Não obstante, as emissões de CO2 continuarão a aumentar, lideradas pelo crescimento do consumo (9,6% no último ano). A percentagem de electricidade produzida com carvão é de 73%, valor que ainda aumentará nos próximos anos. “A Índia não pode viver sem carvão pois não tem outra opção”. A Índia pretende alcançar a neutralidade carbónica em 2070.

• Na UE, foi recentemente actualizado a Renewable Energy Directive que subiu para 42,5% a meta de produção renovável para 2030. A aceleração dos investimentos associados só será possível com a redução dos tempos de licenciamentos, eliminação das restrições de rede e a introdução de sistemas flexíveis de gestão da procura. A UE é líder da transição energética e pretende alcançar a neutralidade carbónica antes de 2050.

Devemos ter consciência de que os processos de transição energética são pesados, complexos e vão ziguezaguear. Os diferentes projectos vão ser longos pela necessidade de gerir o risco e o desenvolvimento das tecnologias e sistemas (de produção, redes e armazenagem) e por limitação de recursos (matérias-críticas, capacidade de execução, recursos humanos, tecido económico, financeiros). 

Analisámos 3 países e a nossa região representando, no seu conjunto, cerca de 70% das emissões. As 30% que ficaram de fora são essencialmente relativas aos países em desenvolvimento que, embora emitindo menos, não têm capacidade nem recursos para terem uma descarbonização mais rápida e eficiente que aqueles.

Em suma, a neutralidade carbónica não será alcançável em 2050!...

 

CADÊ A ECONOMIA? - O ELEFANTE NA SALA

… e não será alcançável também por razões económicas e de estabilidade e segurança dos sistemas energéticos.

China, India e EUA. Todos procuram salvaguardar o equilíbrio entre o ambiente, a segurança de abastecimento e a competitividade. Mantêm mixes de produção seguros e eficientes mesmo para lá de 2050 e caso o tenham, as taxas de carbono são muito baixas. Em contrapartida, a UE está convertida à cruzada do objectivo único da neutralidade carbónica como garante da salvação da humanidade e transmitindo a ideia de que “o novo petróleo é a energia verde barata”. A energia europeia é cara e factor de perda de competitividade da economia.

Relativamente a Portugal, o país prevê investir na energia, e até 2030, cerca de 60 mil milhões de €, essencialmente em projectos, ligados ou induzidos, de Hidrogénio e de Offshore Eólico (flutuante?). Considerando:

• Que a Europa está a ter dificuldades em concretizar os primeiros contratos de compra e venda de hidrogénio entre 7 e 8 €/KgH2 (190€/MWh). 

• Que o Reino Unido, um dos mercados mais atraentes para a energia eólica offshore, acaba de garantir parâmetros CfD - administrative striking prices para a eólica fixa e flutuante de 116 e 279 €/MWh. 

Quais os preços considerados em Portugal (incluindo reforço e uso de redes e sistemas) e os benefícios para os contribuintes e consumidores?

Nos últimos dias temos assistido a bastantes profissões de fé:

• Primeiro-ministro: …”o combate às alterações climáticas é sobretudo uma oportunidade”,

• Maria da Graça Carvalho: … ”a aposta crescente nas renováveis,…têm de se traduzir em benefícios ambientais, mas também em mais-valias claras para os consumidores.”

• A consultora McKinsey considera que a transição energética é imparável e destaca Portugal como um potencial vencedor, reinventando a sua economia.

A UE vai numa senda perigosa e leviana e, tal como Peter Pan, em busca da “Terra do Nunca” em vez de fazer a transição energética mantendo a economia competitiva e robusta.

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