02/12/2023
 
 
Alvorada vermelha e uma aventura na revolução

Alvorada vermelha e uma aventura na revolução

José Luís Andrade 21/11/2023 12:44

Com a curiosidade dos meus 20 anos, estimulada por toda essa agitação, corri a ver o que se passava em Monsanto na compañía do meu amigo João, jovem militante do PPD.

Depois de um febricitante Verão em que a sociedade civil portuguesa e os partidos alinhados ao centro e à direita, e mesmo a esquerda socialista, tinham começado a reagir com firmeza contra a deriva totalitária iniciada ainda mal decorrida uma semana após o triunfo do golpe militar de 25 de Abril de 1974, o Outono que se avizinhava, e em cuja agenda se destacava a independência de Angola, prometia mesmo a guerra civil no horizonte.

Da parceria Antunes & Antunes saíra o principal camartelo que derruíra em Abril de 74 a barraca carcomida em que Portugal se transformara. Fiados na resiliência e lealdade das cúpulas militares que haviam lançado os caboucos do regime, os políticos no poder não haviam lido com atenção as palavras premonitórias de Cunha Leal, que afirmara que “à medida que os plutocratas fossem assegurando a direcção superior da mecânica política e económica, mercê do poder controlador do capital, chegaria um dia em que os estados-maiores [daqueles regimes], forçados a estar de pé numa vigilância” permanente, “agarrados desesperadamente às baionetas”, deixariam “cair as armas da mão, fatigados dessa sempiterna vigília”. Mas tão ténue e desgarrada era a colaboração das sociedades secretas de Ernesto Melo Antunes com o PRP de Carlos Antunes que bastou a Álvaro Cunhal pouco mais que um bafo para o PCP assumir o controlo do processo revolucionário em curso, vulgo PREC, a partir do 1.º de Maio de 74.

Após a substituição de um demencial elenco governativo por outro mais frequentável, a 9 de Novembro verifica-se uma manifestação de apoio ao Governo do Almirante Pinheiro de Azevedo no Terreiro do Paço, seguida por outra no Porto a 14 e, de novo, em Lisboa no dia 16. Em Angola, MPLA e UNITA/FNLA declaram independências separadas que no meio da agitação política que se vivia em Lisboa passam mais ou menos desapercebidas. O PRP apela à insurreição armada, e a resistência popular organizada pela rede interna do MDLP, da CAP e dos partidos à direita do PCP levanta barricadas em Rio Maior. A 13, a Assembleia da República e o gabinete do primeiro-ministro são cercados por dezenas de milhares de pessoas da dita cintura industrial de Lisboa às ordens da CGTP que apenas deixam livre-circulação aos representantes do PCP. Culminando esse rosário de eventos excepcionais, na noite de 24 para 25 de Novembro de 1975, forças do Regimento de Tropas Paraquedistas de Tancos (que havia sido formalmente extinto pelo CEMGFA), sob o comando “revolucionário” do major Pessoa sublevam-se, assaltando e tomando o poder nas bases aéreas e no comando da Região Aérea em Monsanto, Lisboa. O RALIS ocupa o terreno por forma a opor-se a qualquer força militar que de Norte caia sobre Lisboa. E o Regimento de Polícia Militar subleva-se, acolhendo o comando-geral da Revolução.

Com a curiosidade dos meus vinte anos de fresco estimulada por toda essa agitação, corri a ver o que se passava em Monsanto na companhia do meu amigo João, jovem militante do PPD. Depois de percorrer livremente as posições assumidas nas rotundas e ao redor das antenas da RTP por paraquedistas e civis armados de metralhadoras ligeiras, dei de caras com um amigo que recentemente conhecera em Caxias e que nos convidou a acompanhá-lo ao Regimento de Comandos. Aí, o Pedro conhecia alguns oficiais e graduados que haviam sido seus instruendos em Lamego ou com quem havia combatido no norte de Moçambique, e para a Amadora partimos no seu Alfa-Romeo amarelo-torrado.

Chegados ao Regimento, fomos recebidos pelo oficial de dia, o Capitão Carrapeta, que logo nos orientou para um gabinete onde nos foram transmitidas informações e instruções. Apercebemo-nos do que se passava à nossa volta e da grande quantidade de veteranos ditos “convocados” que haviam sido incorporados ao abrigo da criação da AMI (Agrupamento Militar de Intervenção) como contraponto às forças do COPCON. Havia que travar os “rústicos”, como lhes chamava Carrapeta, e ninguém melhor para o fazer que os homens arregimentados pelo comandante Vítor Ribeiro, presidente da Associação de Comandos e um dos grandes heróis do contragolpe. Foi-nos atribuída a missão de ir verificar o que se passava no corredor que ligava o Palácio de Belém ao Ralis pela Avenida da Índia e Infante D. Henrique, com senha e contrassenha. Na parte baixa da Calçada da Ajuda, em completo alvoroço, cruzamo-nos com um velho conhecido do Pedro, o alferes Infante armado com uma belíssima Kalashnikov, de fabrico chinês se a memória me não falha. O pessoal comunista da Carris já havia descarrilado os carros-eléctricos por forma a impedir a passagem de viaturas militares.

Retomando o percurso do reconhecimento, quando passávamos em frente do que hoje é o Museu do Oriente, eis que o Pedro, inopinadamente, resolve curvar a 135º, ao avistar uma coluna militar que aparentemente se dirigia para o Calvário. Sem nos avisar, colocou-se entre o último veículo militar, uma Mercedes-Benz Unimog, e a enorme fiada de carros civis que seguiam atrás. E assim encaixados prosseguimos até à lateral do Regimento de Lanceiros 2, na Rua das Amoreiras à Ajuda, tendo o Pedro estacionado com duas rodas no passeio e partiu logo para a Calçada da Ajuda para ver o que se passava. O João e eu sentimos imediatamente ter feito algo errado já que, detrás de nós, todos os carros se atravessavam, em zebra, na própria via. Pela conversa fiada de circunstância percebemos que era gente afeta ao PCP e que a manobra de estacionamento demonstrava um esquema organizacional previamente estudado. Comeu-se o papel com a senha (esquecimentos de amadores) e preparámo-nos para o pior; que surgiu pronto na boca de várias pistolas-metralhadoras FBP e UZI com que vários civis traziam empurrado o Pedro no meio de bruta algazarra de “morte aos fascistas” vinda da Calçada mas rapidamente secundada pelas camaradas com que nos havíamos amenamente entretido a conversar.

Levados a murro e pontapé para o interior das instalações do RPM, fomos logo à entrada interpelados por uma figura que em circunstâncias diferentes se nos afiguraria cómica, já que nos fazia lembrar um daqueles brutamontes de banda desenhada de grande volume e olhos diminutos. Pegando numa MG-42 com fita que levava ao ombro (tal a envergadura do sujeito) prontificou-se a resolver o assunto logo ali mandando-nos encostar à parede do edifício do Comando da unidade aplaudido pela turbamulta envolvente. Um Pai Nosso preparou-me para o que suspeitava que iria acontecer mas a intervenção de um major (julgo ter-se tratado do Cuco Rosa) pôs termo ao incidente e já sob escolta de Polícias Militares fomos levados para o Centro de Comando acompanhados por mais três indivíduos que viemos a perceber terem sido os denunciantes. Militantes da UDP e consumidores habituais de estupefacientes, haviam reconhecido o Pedro de quando em Setúbal havia protegido a fuga dos dirigentes do PPD no comício falhado de 7 de Março, facto que, aliás, o havia levado a “passar férias em Caxias”.

Uma vez no interior, esperámos que elementos da famigerada Brigada Especial nos interrogassem depois de ouvirem os denunciantes. Colocados horas a fio em pé, junto do Comando, não só contemplávamos a enorme fila de voluntários para as patrulhas no exterior como ouvíamos as desesperadas tentativas dos operadores do posto de rádio para contactar as que era suposto andarem em ronda pela cidade. Percebia-se que o medo das forças dos comandos levava os soldados da PM a procurar ir para o exterior para conseguirem desertar como se percebia que haviam feito os camaradas que os haviam precedido. A meio da noite, quando ainda aguardávamos o interrogatório, um alferes que estivera há bem pouco tempo como carcereiro em Caxias, e que viemos posteriormente a saber tratar-se de um furriel graduado em oficial de apelido Perestrello, agrediu o João à coronhada, no baixo-ventre, porque usava partes de vestuário de tipo militar. Quando nada parecia correr pior, eis que surge na minha frente um velho conhecido meu, o Gáfila, que, em 74, militara comigo no Movimento Federalista Português e que na ocasião era o sargento de guarda. Dando palmadas na sua Walter P-38 de serviço, disse-me: “Andrade, enquanto eu tiver esta, nada temas e já agora conta aqui a estes gajos se não é verdade que eu estive no Partido do Progresso, porque eles não acreditam”. Retorqui-lhe que não me parecia o local e circunstância mais apropriada para reavivar as nossas aventuras do ano transato e pedi-lhe que se afastasse, o que acabou por fazer a muito custo. No meio da espera, tivemos os três a oportunidade de combinar a estória do nosso encontro e como relações de amizade (totalmente fictícias) entre o pai do Pedro e o meu (ambos originários da Beira Baixa) nos haviam levado por simples curiosidade a seguir a coluna militar dos sublevados; o João viera pela relação de amizade comigo. Os operacionais da Brigada Especial, manifestamente incomodados com a fama de criminosos que haviam granjeado, retiveram o meu cartão de aluno civil de Engenharia da Academia Militar e deixaram-me sair e ao João, levando o Pedro detido para Cavalaria 7.

Com a colaboração dos mesmos raivosos revolucionários que nos haviam agredido, pedimos um táxi acima da vala que cortava a Calçada e pedimos ao motorista que nos levasse ao Alto do Restelo e depois à Amadora, deixando-nos defronte do Regimento de Comandos, onde nos foi feito um debreefing em que contámos o que havíamos testemunhado na Polícia Militar, a desmoralização generalizada, a vincada presença de civis armados e que ouvíramos que os comandos eram esperados por volta da hora em que em Lisboa se apagava a iluminação das ruas. De seguida, saímos a recuperar em Monsanto o carro do João. E a dormir, porque a noite fora longa.

Hoje historiador, mas na altura testemunha assiste-me «o dever de contar» como vivi aquele sobressalto revolucionário, «mesmo correndo o risco da insuficiência da interpretação pessoal,» como afirmou o general Ramalho Eanes na ocasião da comemoração do 20º aniversário do 25 de Novembro. Como historiador o meu dever é perscrutar e respeitar a verdade dos factos por sobre as narrativas correntes impostas como oficiais e que muitas vezes fazem da realidade verificada mero ruído incómodo sobre as versões politicamente mais convenientes e ajustadas.

Pena foi que Ramalho Eanes não tivesse seguido as suas próprias palavras, enveredando ao invés por corroborar a «verdade» de conveniência ditada por Melo Antunes que não hesitou em assumir as rédeas do poder do contragolpe revolucionário às cavalitas dos comandos. Não só isentou o PCP de culpas, argumentando que se mostrara dividido, como impediu que se repusesse a justiça das ilegalizações partidárias e das prisões arbitrárias decididas a 28 de Setembro de 74 e a 11 de Março de 1975, limitando o espectro partidário às forças mais submissas ao Conselho da Revolução que condicionariam a democracia portuguesa durante muito tempo.

O aparelho militar do PCP, coordenado operacionalmente pela Alemanha de Leste (para onde aliás fugiu o «chefe» dos paraquedistas sublevados, o major Pessoa), envolveu-se claramente no golpe articulado com as forças da extrema-esquerda. Só as suas cúpulas políticas, caninamente obedientes a Moscovo, se mostraram renitentes em embarcar na aventura da guerra civil, eventualmente depois de uma análise de situação em que teriam seguramente pesado os calafrios por que haviam passado com a inesperada resistência popular durante o Verão Quente, nomeadamente a Norte.

Contrariamente ao que quer Antunes quer mesmo Eanes afirmaram não foi a direita «revanchista» que buscou o confronto civil armado mas a esquerda não-democrática de que são hoje herdeiros o PCP e o Bloco de Esquerda. De igual modo, a consagração do chamado Grupo dos Nove, sob a liderança de Antunes, ainda hoje tido pelas narrativas mediáticas como uma espécie de emanação dos oficiais moderados é uma manipulação histórica para contar às crianças; basta atentar na actuação criminosa de Pezarat Correia que poucos meses antes do golpe revolucionário de Novembro mantinha o Alentejo a ferro e fogo, passando «mandatos» de captura em branco sobre os suspeitos de oposição às posições do V Governo Provisório. Que se saiba nenhum desses protagonistas foi julgado ou pediu desculpas às vítimas e ao país. Aliás, a desfaçatez foi tão grande que os próprios oficiais envolvidos na golpada revolucionária de 25 de Novembro foram enviados para casa por Costa Gomes, com o sangue ainda quente dos mortos comandos; foi preciso uma grande pressão e a ameaça de revolta destes para que pelo menos os responsáveis fossem detidos. Mas as segundas linhas, como por exemplo o tal capitão Pardal da Brigada Especial, responsável por um sem-número de malfeitorias como relata o Relatório das Sevícias, no dia seguinte ao falhanço do golpe encontrava-se no Forte de Caxias em amena cavaqueira e copos com os oficiais carcereiros.

No seu assumido papel de condecorador, o Presidente da República acabou mesmo por condecorar alguns sinistros protagonistas daqueles episódios revolucionários como o major cmd Gil que em Agosto de 1975 tinha cometido a façanha de capturar um putativo agente da CIA em Évora. Apesar da idade do detido, 19 anos, aconselhar alguma prudência na acusação, Gil vociferou para quem o quis ouvir no pátio do quartel-General da RM de Évora que «Este já não escapa! 'Tá feito!» Confrontado com o sorriso irónico do detido, mostrou ao famigerado capitão Andrade e Silva e a quem mais quis ver um pequeno pedaço de papel onde se podia ler «Millman & Halkias, McGraw Hill Cia, Electronics Handbook» e um número como prova indesmentível do contacto com a grande obsessão da época, a invasão dos americanos como se de marcianos se tratasse. Isto viria a ser esclarecido semanas mais tarde já em Caxias, o detido lá explicou ao alferes interrogador Lopes da Silva, membro do PAIGC que se fazia acompanhar de um escriturário da V Divisão que se tratava do manual de Electrónica, escrito pelos cientistas Jacob Millman e Christos Halkias e publicado pela Editora McGraw Hill e como na altura a loja mais próxima era em Espanha, o professor da cadeira indicara a abreviatura de companhia em castelhano (Cia); o tal número não era um telefone mas o código da quota de um exemplar do livro existente na biblioteca da Academia Militar onde o preso era aluno.

Foram as narrativas manipuladas, omitidas e ajeitadas que nos trouxeram aos dias de hoje onde verdade e liberdade são relatividades de conveniência que levam à iniquidade de pessoas do jaez moral e cognitivo do major Gil terem sido distinguidas com condecorações enquanto outras, verdadeiros heróis, ou o foram à pressa, in extremis, como Vítor Ribeiro, ou nem sequer o foram como o primeiro-sargento Lobato que aguentou sem quebrantar numa enxovia do PAIGC em Conacry durante 7 anos.

 

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