12/04/2024
 
 

O que não conta, não conta até quando?

As grandes opções políticas são modeladas em função da sobrevivência dos protagonistas, das eleições e de interesses que nem sempre coincidem com as necessidades gerais.

 

Chateia que a existência quase só se adquira por via da projeção mediática, mas também que os interesses em presença possam determinar a maior ou menor relevância dos temas e realidades, sem capacidade para serem gerados filtros que permitam colocar as questões em perspetiva e efetuar juízos próprios. O país das dinâmicas positivas e negativas navega num conjunto de realidades, entre problemas e ambições, que só ganham lugar nas atenções gerais através da atenção mediática dada, sobretudo em registo de choque ou catástrofe. Até lá, as coisas vão fluindo, configuradas a uma espécie de destino, entre o fatalismo e a falta de consciência cívica para sermos mais exigentes nos direitos e deveres individuais e comunitários.

Foi assim com o abandono do território rural que se projetou nos incêndios de 2017 e se projeta todos os anos na ampliação de riscos sempre que o calor aperta. É assim com os imigrantes, a habitação, a saúde, os serviços públicos, a pobreza, a exclusão, as disfunções de funcionamento da sociedade e com um amplo conjunto de pendências por resolver no Portugal de Abril. Mas, é assim porquê?

Basicamente porque as grandes opções políticas são modeladas em função da sobrevivência dos protagonistas, das eleições e de interesses que nem sempre coincidem com as necessidades gerais; as atenções mediáticas que conferem relevância estão sujeitas a critérios nem sempre inteligíveis e o grau de exigência cívica, no exercício de direito ou no escrutínio, é demasiado baixo. 

Não se compreende como é que uma realidade reiterada e disfuncional, não é considerada só porque ocorre pela mão de um determinado protagonista político, acontece num determinado território longe dos grandes centros urbanos ou toca uma comunidade sem peso eleitoral. Há realidades que não estão no radar dos decisores e dos media, logo não existem, mesmo que sejam vividos, sofridos e infernizados por seres humanos, em territórios de alegado desenvolvimento generalizado.

O drama é que só a existência mediática confere atenção e a necessidade de gerar resposta dos decisores para demasiados temas e realidades. Aliás, como acontece com o inacreditável abuso do beijo na boca do Presidente da Federação Espanhola de Futebol a uma jogadora, ao que parece um entre diversos comportamentos inadequados e inaceitáveis do comparsa da Federação Portuguesa de Futebol na candidatura de Portugal à organização do Mundial de Futebol de 2030 que não tiveram a adequada relevância mediática e indignação geral.

O problema é que este regime de existência por via da atenção dos media pode conduzir a uma perpetuação das realidades indesejáveis, a uma sociedade dual entre os que têm voz e os que não relevam, gerando ainda desgastes relevantes no compromisso social dos indivíduos (o contrato social de Hobbes, Locke e Rousseau) e nas vivências democráticas. O problema só não será maior pela capacidade de ajuste e configuração dos portugueses às maiores malfeitorias, injustiças e disfunções, entre o desenrasca e o improviso, entre o sacrifício e a alegada conceção de uma qualquer benesse dos poderes instalados. O risco é o exercício político ou a função mediática de informar (com tudo o que possa caber no conceito) capturarem a existência, a construção de respostas e a configuração da defesa do interesse geral, onde deveriam caber todas as realidades, mais ou menos relevantes, priorizadas com transparência, escrutínio e os adequados recursos em função das existências da nação. Reconduzir a existência à evidência mediática ou aos humores dos decisores é um risco que os cidadãos não podem permitir, devendo exercitar todos os direitos como contraponto dos deveres a que estão obrigados num Estado de Direito Democrático.

É preciso mais atenção e mais ação atempada em relação às realidades, em função do interesse geral e da coesão que se pressupõe na gestão da nossa comunidade de destinos. Não pode, porque não é fiável, serem apenas os decisores ou os media a determinarem as existências que justificam a ação e a alocação de recursos. O que ainda não conta, deve contar sempre.

 

NOTAS FINAIS

O PRENÚNCIO PRESIDENCIAL DE MARQUES MENDES.

A existência mediática de Luís Marques Mendes ambiciona seguir a pegadas de Marcelo, mas, ao invés do atual Presidente, outrora remetido à academia, aos pareceres chorudos e às diatribes dos bastidores, o ensejo do atual comentador seria a consagração de carreira do tráfico de influências tolerado e da geometria variável.

 

VERÃO AZUL?

Apesar dos sinais de contração, das vontades e das dinâmicas individuais e comunitárias, o Verão terá mantido o poder regenerador dos humores, não terá sido caótico na saúde e nos incêndios - nunca fiando -, mas há renovadas nuvens negras no horizonte do regresso às rotinas, na prestação da casa, na procura de habitação para os universitários colocados e em tantas outras realidades, com maior ou menor existência mediática.

 

PIMENTA NA PRESIDÊNCIA.

Do alto dos resultados de mais títulos e medalhas na canoagem, Fernando Pimenta visou o problema do critério no exercício presidencial dos reconhecimentos e condecorações das conquistas desportivas. A falta de critério é geradora de injustiças, a opacidade pode perpetuá-las. Algo expectável perante a banalização do exercício em função da espuma dos dias.

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