27/03/2023
 
 
O diagnóstico do costume, a inércia de sempre

O diagnóstico do costume, a inércia de sempre

Ana Rita Cavaco 16/03/2023 14:30

Portugal perdeu mais de 15 mil enfermeiros em oito anos. Não há País que resista a esta sangria. É urgente avançar com uma estratégia de retenção de profissionais. O tempo é de valorização dos recursos humanos assente em três pilares: salário, carreira e condições de trabalho.

O diagnóstico é conhecido, está escrito e tem sido debatido até à exaustão. Falta fazer. O Serviço Nacional de Saúde tem dificuldades crónicas no acesso, faltam recursos humanos e continua subfinanciado. Até aqui, nada de novo. Apesar deste cenário, os portugueses reconhecem no SNS um dos pilares da Democracia do qual não tencionam abdicar. É daqui que partimos para qualquer esboço ou tentativa de reforma que os sucessivos governos têm adiado.

Continuamos com problemas evidentes no acesso aos cuidados de saúde, muito por culpa da incapacidade de concretizarmos uma verdadeira reforma dos Cuidados de Saúde Primários capaz de retirar pressão sobre os serviços de urgência, mas não só. O actual modelo centrado no hospital é, só por si, redutor, sobretudo num País com evidentes clivagens sociais e assimetrias regionais. As dificuldades no acesso estão a prejudicar, sobretudo, os mais pobres que não têm capacidade financeira para recorrer a serviços privados de saúde e todos aqueles cidadãos que vivem longe dos centros urbanos.

Este problema resulta, em grande medida, da sobreposição de desajustes crónicos no sector, começando pela falta de financiamento e de critério na aplicação dos investimentos, passando pela incapacidade de retermos o talento e culminando em modelos arcaicos de gestão e organização.

Portugal perdeu mais de 15 mil enfermeiros em oito anos. Não há País que resista a esta sangria. É urgente avançar com uma estratégia de retenção de profissionais. O tempo é de valorização dos recursos humanos assente em três pilares: salário, carreira e condições de trabalho.

A verdade é que não é possível redefinir a política de recursos humanos e reter o talento se, ao mesmo tempo, não revolucionarmos a forma como gerimos os hospitais. O desafio passa por premiar o mérito, humanizar as relações de trabalho e gerir com eficiência.

Entretanto, o tempo vai passando. Um em cada três portugueses terá mais de 65 anos em 2050 e um em cada oito será maior de 80. Por cá, os mais velhos estão condenados a dois movimentos simultâneos: envelhecer e empobrecer (que é praticamente a mesma coisa). É urgente libertar o País de um modelo focado na urgência e na crise aguda. O nosso sistema não dispõe de uma rede de cuidados integrados e eficientes que permitam lidar com o ritmo de envelhecimento da população, o que torna imperativo apostar num novo paradigma assistencial, de maior proximidade, reforçando o acesso aos cuidados de saúde primários e comunitários, apostando na presença no domicílio, ao mesmo tempo que se garante meios e dignidade aos cuidados continuados.

O cenário de terror vivido em muitos lares coloca a nu a dura realidade em que vivemos. O Estado demitiu-se de zelar pela proteção dos mais velhos. Ao não fiscalizar o cumprimento da Lei, abriu a porta ao abuso, à desumanidade e à tragédia. É preciso garantir que os cuidados de enfermagem são prestados por enfermeiros e que estes existem em número suficiente. Neste caso, vou mais longe: defendo que a direção dos lares deve ser entregue aos enfermeiros e que a tutela possa ser partilhada entre a Segurança Social e a Saúde. É urgente colocar o cuidado dos idosos como um dos grandes desafios da comunidade. Hoje são os nossos pais e avós, seremos nós amanhã.

 

Bastonária da Ordem dos Enfermeiros

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