07/02/2023
 
 

Turismo nas pistas de dança

A noite, o entretenimento e as festas não ficaram imunes a esta nova moda do filmar e fotografar tudo o que aparece à frente e são agora também invadidas por esses curiosos, que têm tanto direito a estar lá como os outros mas que lhes retiram parte da sua magia e do seu encanto. 

No boom turístico que se deu em Portugal no princípio do século XXI, muito à custa da Expo 98, era comum vermos a calcorrear as ruas históricas do Porto mas sobretudo de Lisboa, estrangeiros de máquina fotográfica ao pescoço e malinhas de tiracolo com máquinas de filmar, normalmente com um ar pitoresco, carregados com uma parafernália de adereços e baterias dentro uma mochila ou bolsa à cintura. Com o passar dos anos e com a constante evolução da tecnologia tudo passou a ser condensado em equipamentos cada vez mais pequenos numa espécie de “tudo em um” até aos telemóveis que nos dias de hoje filmam e fotografam com câmaras cada vez mais poderosas e que permitem aos seus utilizadores imagens cada vez mais definidas e uma série de aplicações que lhes dão depois os devidos efeitos e filtros.

O turismo que víamos por essa altura trespassou as zonas históricas e transformou-se hoje em dia num culto voyeur em tudo o que são eventos, espaços ou festas. Seja uma passagem de modelos, o lançamento de uma marca ou um concerto, são mais as pessoas de telemóvel na mão, na ânsia de mostrar aos outros onde estão e que são uns privilegiados por estarem ali do que gente que vive os momentos sem distrações ou necessidade de se exibir para outros ou de colocar nas redes sociais tudo o que faz, o que sente e o que come. A noite, o entretenimento e as festas não ficaram imunes a esta nova moda do filmar e fotografar tudo o que aparece à frente e são agora também invadidas por esses curiosos, que têm tanto direito a estar lá como os outros mas que lhes retiram parte da sua magia e do seu encanto. A semana passada, por exemplo, no lançamento do novo álbum de uma artista luso-brasileira em ascensão, eram mais as pessoas que estavam a filmar do que as que não estavam e quem estava realmente interessado na música não conseguia sequer ver o palco com tanto braço esticado à procura do melhor ângulo.

Esta tem sido aliás uma prática comum a que tenho assistido seja em discotecas ou em festas privadas, mesmo aquelas onde a música é supostamente a atração principal. Já não bastavam os “artistas” que passam a noite toda na linha da frente a pedir músicas ao dj como se ele fosse uma jukebox ao dispor do gosto de cada um, agora vemos constantemente os turistas das pistas de dança colarem-se à frente do dj, que deveria ser um espaço onde está quem mais sente a música, em selfies consecutivas, fotos frontais de quem está a meter música ou filmagens que apanham tudo e todos sem pedirem autorização a quem está à sua volta. Acabam por empurrar quem está a dançar, retiram magia ao ambiente que se está a viver enquanto se concentram na melhor fotografia ou no melhor ângulo para mostrarem que são cool, que estão numa festa boa ou que são grandes festivaleiros.

Como disse no princípio, obviamente que todos têm o mesmo direito a estar onde querem, aqui o problema é que a pista de dança de uma festa deveria ser local de culto de quem quer dançar e viver a música e não um estúdio de fotografia ou posto de fotógrafos nem local de exibição de curiosos. Não me incomoda que haja quem queira fazer turismo na noite ou nas festas, até para perceberem e sentirem ambientes diferentes, acho é que devia existir algum respeito por quem passa música e por quem está ali para se divertir sobretudo na linha da frente, onde existe interação entre o dj e os que foram lá para o ouvir. Os privados são um bom espaço para esse tipo de exibicionismos, não estraguem as pistas de dança.

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