24/04/2024
 
 
Religião. "Natal é quando um homem quiser"... ou não quiser

Religião. "Natal é quando um homem quiser"... ou não quiser

Enquanto os cristãos celebram o nascimento de Jesus a 25 de dezembro, as outras religiões não têm motivos para comemorar nesta altura do ano. Como vivem o Natal os muçulmanos, taoistas, hindus e judeus? E têm alguma festa religiosa equivalente?

Por Sara Porto e Maria Moreira Rato

Iara Mahomed
Muçulmana
“Os nossos pais não queriam que nos sentíssemos excluídos”

Com raízes em Moçambique, Iara Mahomed e a sua família são muçulmanos, mas sempre se habituaram a estarem juntos na véspera de Natal. “Temos o hábito de jantar o típico bacalhau, uma lasanha e um prato indiano (geralmente dahl)”, explica ao i.

A jovem de 24 anos diz que os seus pais, de forma a que ela e o resto dos jovens da sua família não se sentissem de parte, tinham o hábito de fazer uma troca de presentes. “Os nossos pais não queriam que nos sentíssemos excluídos, tendo em conta que vivemos num país católico, onde toda a gente celebra o Natal”. No entanto, “com o passar dos anos deixou de fazer sentido porque fomos percebendo que não faz parte da nossa religião”.

Apesar de alinharem nas tradições, a família de Iara celebrava de forma diferente e até com outro propósito. “A minha bisavó fazia anos no dia de Natal e havia sempre uma festa enorme, com os filhos, netos e bisnetos todos. Depois de falecer, começámos a ir todos os anos ao cinema no dia 25”.

Na religião muçulmana, o feriado que pode ser considerado “equivalente” ao Natal é o fim do Ramadão, Eid al-Fitr, dia que marca o fim do jejum deste período do calendário muçulmano. Em 2023, esta celebração irá decorrer entre os dias 21 e 22 de abril.

“Este feriado decorre no primeiro dia do 10º mês do calendário Islâmico, por isso a data varia sempre no calendário ocidental”, explica, descrevendo ainda as tradições e rituais que costuma cumprir com a sua família.

“Há uma oração a meio da manhã ao ar livre, e temos um grande almoço com toda a família. Vestimos as nossas melhores roupas, algumas mulheres fazem mehndi (henna) nas mãos, convivemos e dançamos e, tal como no Natal, as crianças recebem prendas neste dia”, relata.

Suhai
Monge budista
“Esta época é como um período de férias para nós”

Os budistas não celebram o Natal como os cristãos, mas partilham do mesmo sentimento de generosidade e união que o mês de dezembro traz, independente da religião.

Suhai, uma monge budista de 50 anos, que integra a Buddha’s Light International Association (BLIA) de Lisboa, uma organização de base religiosa de budistas monásticos, vive em Portugal há vários anos, mas nunca experienciou esta época com o tradicionalismo que leva cristãos por todo o mundo a decorarem as suas casas com presépios e pinheiros para receber a família à volta de uma mesa recheada com o típico bacalhau e bolo rei.

“Esta época é como um período de férias para a nossa comunidade”, conta ao i. No entanto, isso não quer dizer que os budistas não alinhem no espírito de retribuição, já que as duas religiões têm valores semelhantes, como o amor ao próximo, a caridade e a humildade.

“Como sabemos que esta é uma altura de mais necessidade entre a população, a nossa associação dá mais apoio para benefício social, sobretudo com foco nas crianças e nos idosos, fazendo doações, mas também distribuindo comida para a REFOOD e para o Banco Alimentar”, explica Suhai.

Estas iniciativas de voluntariado desenvolvidas pela BLIA de Lisboa, que são mais frequentes no final do ano, resultam de um trabalho em conjunto com a Junta de Freguesia do Parque das Nações, bairro onde se encontram as instalações da associação.

Ainda assim, o mês de dezembro também tem um significado especial no budismo, pois em alguns países celebra-se no dia 8 de dezembro o Dia da Iluminação, em que se comemora a meditação árdua praticada pelo Sidarta Gautama até ao “despertar” ou “iluminação”, caminho que o levou a mestre espiritual, fundando o budismo.

Derek Lin
Autor taoista
“O Tao não entra em conflito com outra fé”

Os taoistas celebram o Natal? Derek Lin acredita que o Tao é um estilo de vida que não entra em conflito com as celebrações de qualquer outra fé ou cultura. “O nosso foco está na forma como vivemos, em vez de modos particulares da prática religiosa.” 

O taiwanês, considerado um dos mais influentes autores a escrever sobre o Taoismo, defende que a celebração do Natal tem que ver com a sua essência e isso não significa necessariamente a celebração do nascimento de Jesus. “Uma das melhores formas de expressarmos essa essência é estarmos com os nossos entes queridos e mostrar-lhes, com a nossa presença, o quanto os apreciamos. Quando expressamos isso, não importa tanto o que todos estão a comemorar”, respondeu numa entrevista em 2016.

Para o escritor, a quadra natalícia não se trata de compras frenéticas no shopping, sendo o consumo meramente “uma manifestação externa do mundo material”. “A essência interior e mais verdadeira do Natal tem a ver com paz, amor, família, amizade e boa vontade. Ser compassivo com os outros é uma ótima maneira de expressarmos essa essência e, ao fazer isso, honramos o espírito natalício”, explicou então.

Então, aqueles que praticam taoismo devem celebrar o Natal? “Acho que a resposta deveria ser óbvia. Em todos os aspetos da vida, os taoistas olham para além do superficial para explorar a compreensão mais profunda da vida. O Natal não é exceção. Não devemos hesitar em apreciar esta festividade. Devemos é celebrar o seu verdadeiro significado, especialmente porque nem todos o fazem hoje em dia. Só assim é que podemos concentrar-nos em seguir um estilo de vida alinhado com o Tao”.

Ìyá Sussu
Sacerdotisa do candomblé yorùbá
“Quem não reflete não segue em frente”

“Os santos católicos entraram no Candomblé por via da pressão colonial sobre os escravos e ficaram. Os mais antigos, sobretudo, acreditam nos santos católicos, porque foi assim que foram criados, com esse sincretismo Santo-Orixá”, começa por explicar ao i Ìyá Sussu, sacerdotisa da Comunidade Portuguesa Candomblé Yorùbá, religião afro-brasileira.

“São entidades religiosas distintas que se aproximaram por necessidade de sobrevivência do culto. Os negros escravizados eram obrigados a participar em irmandades e confrarias católicas, com o objetivo de os converter”, observa, adiantando que “para manterem o culto vivo tiveram de adotar estratégias como a associação entre santo e Orixá, cultuando o segundo debaixo do manto do primeiro”.

“Quanto ao nascimento, vida e morte de Jesus, não tem qualquer sentido de facto celebrar, já que Jesus é uma figura do mundo judaico que se tornou a base de uma nova religião, não tendo nada que ver com o Candomblé e as suas raízes africanas”, frisa, deixando claro que nesta religião é possível participar em eventos habituais como almoços e jantares natalícios e troca de presentes se as pessoas assim o desejarem. “Se a pessoa janta com a família, troca presentes, coloca as bolachas para o Pai Natal junto com as crianças, será que podemos falar em celebração religiosa, ou, de facto, tirando os católicos, que celebram a data como santa, estamos perante uma celebração de Família, cheia de afetos e nostalgia?”, questiona.

“Quanto a refletir sobre o ano que se finda, essa é uma prática que deve estar na vida de cada pessoa, independentemente da religião, porque é preciso orgulharmo-nos do que correu bem e pensar no que foi menos bom como lição. Quem não reflete não segue em frente”, salienta, concluindo que “que as pessoas devem aproveitar esta quadra para se lembrar dos que estão sozinhos, dos que não têm afeto, dos mais carenciados, mas devem transportar esse sentimento para o ano todo”. “O Candomblé ensina o sentido de comunidade, de família (sob todas as formas), de responsabilidade e compromisso. Era bom que esses valores fossem consensuais”.

Hiren Tambaclal
Hindu
“Hindus juntam-se, mas não comemoram”

O Natal é celebrado ao redor do mundo de várias maneiras, depende da crença, mas há quem passe completamente ao lado da noite de 24 de dezembro e do nascimento de Jesus. Na cultura hindu a data não tem qualquer significado, diz-nos Hiren Tambaclal, proprietário do restaurante Calcutá 1, no Bairro Alto. “A comunidade indiana nada tem a ver com o Natal cristão, são dias normais. Em toda a Índia, apenas em Goa, Damão e Diu se comemora o Natal porque são regiões maioritariamente católicas. Nós temos o Diwali, que é o equivalente, e que se comemora dois meses antes. É um festival de luzes em que são colocadas milhares de lâmpadas em todas as casas e nos templos, que ficam acesas toda a noite. Nessa data a família reúne-se, a comida é quase sempre vegetariana se forem do estado de Gujarat, não há troca de prendas, mas há troca de doces entre as famílias”, explica.

Estando em Portugal há mais de 30 anos, cumpre de forma muito própria a noite de Natal: “Como temos crianças que nasceram em Portugal fazemos uma festa familiar, mas sem qualquer carga religiosa. Fazemos troca de presentes, mas só para os mais novos. É uma noite perfeitamente normal”.

O seu irmão, Bavhes Tambaclal, que gere o Calcutá 2, conta como os hábitos mudaram. “Quando abrimos, em 1998, qualquer pessoa chegava e sentava-se, agora há fila à porta para jantar na noite de Natal. São dias excelentes para o negócio”. E dá outro exemplo: “Na noite de 24 há uma discoteca aberta em Lisboa e os clientes são quase todos indianos. Aproveitamos para festejar, mas sem qualquer sentido religioso”.

Nas noites de 24 e 25 de dezembro, os dois restaurantes vão estar abertos, por uma razão muito simples: “Temos clientes antigos que nesta altura fazem questão de vir jantar com a família ao Calcutá, é muito importante para nós receber os amigos”, diz-nos Hiren Tambaclal.

Rafaela Silva
Adventista do sétimo dia
“Sempre que o Natal é ao sábado há festa a dobrar”

“O Natal sempre evocou em mim ternas memórias da minha infância... Nascida num lar cristão de adventistas do sétimo dia, desde cedo identifiquei o dia de Natal como um tempo especial partilhado em família e conjuguei-o com um profundo sentimento de gratidão. A ceia de Natal fazia as nossas delícias e o apetite era aguçado com o esmero de todos os que a preparavam. Tudo era simples, sem requintes, mas revestido de um alegre encanto. Sentados à mesa, uma breve oração era feita, pois não poderia faltar a bênção sobre o ‘pão’ que comíamos e uma lembrança para os mais desprovidos. Desde criança, sabia o que era um ‘necessitado’, pois muitas vezes, na igreja, a árvore de Natal era enfeitada (e ainda hoje o é) com pequenos saquinhos coloridos onde deixávamos as nossas ofertas para eles, nunca esquecidos. A ADRA “Associação Adventista para o Desenvolvimento, Recursos e Assistência”, tanto outrora como hoje, era e continua a ter esse papel de fazer chegar o aconchego a todo aquele que não o tem.

E sempre que o Natal é celebrado num dia de Sábado, temos festa a dobrar! Ao Sábado, dia de solene repouso e de comunhão com o nosso Criador e Mantenedor da vida, desde o Éden lembrado e confiado à humanidade, junta-se agora também o primeiro advento de Cristo – o nascimento de Jesus! 

Tudo quanto fazíamos, e ainda hoje fazemos, neste tempo festivo, relembra Jesus, a Majestade do Céu, que deixou o Seu trono e glória para vir ao nosso mundo caído e nos salvar. O Seu nascimento, afinal de contas é a maior dádiva recebida e a nossa mais sublime esperança – o Seu segundo advento, o seu regresso a esta Terra para nossa redenção eterna! Esta é a minha fé”.

João Monteiro
Entre o judaísmo e o catolicismo
“Até aos meus 20 anos nunca celebrei o Natal”

Considera a quadra natalícia um período “bastante particular”. “Até aos meus 20 anos nunca celebrei o Natal, pelo facto de ter nascido no seio de uma família… chamemos-lhe híbrida (mãe cristã e pai judeu)”, explica ao i João Silveiro, de 24 anos. Sempre existiu uma espécie de fragmentação na sua família em dias festivos como este: o seu pai isolava-se dos demais e a sua mãe prosseguia com os costumes de uma forte vivência católica. “Eu e a minha irmã também optámos por nos isolar porque não nos identificávamos nem com um lado nem com o outro”, revelou. “Esta dualidade deu-me desde cedo a liberdade de não encarnar o padronizado espírito natalício vivido pela generalidade dos nossos contemporâneos”, acrescenta. Hoje, não tem qualquer orientação religiosa, “o mais parecido que tenho é uma ideia não corroborada da existência de algo que une todo o cosmos na sua infinita expansão (eu chamo-lhe energia)”. No entanto, no decorrer dos anos de formação, conviveu “com diversas correntes sobre a existência de uma figura semi-parental responsável pelo fluir do tempo e do espaço”: “Confesso que não sou o melhor exemplo para definir o que é ser enraizado sob os alicerces de duas religiões monoteístas, porque na verdade, ambas as doutrinas me foram incutidas com bastante passividade, não só pelo respeito pela outra, como inclusive para me dar a tal liberdade de absorver/filtrar as divisas de cada uma”, especifica.

Na sua perspetiva, o Natal é “um exemplo paradigmático da cada vez mais comum prática de desvirtualizar conceitos”.

“Poderia ser mesquinho e apontar algumas correntes que indicam que Cristo não nasceu em Dezembro, mas vou-me fixar nos fenómenos culturais inerentes ao Natal. Como é que uma dúzia de renas; um idoso de vermelho e com sobrepeso e a constante e fatídica repetição das mesmas canções alusivas à época se relacionam com uma tradição cuja base conceptual é puramente Cristã?”, interroga.

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