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Joana Mortágua 08/12/2022 09:31
Joana Mortágua
Cronista

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Pedro Adão e Silva falhou no apoio às artes

Em nome de que justiça e de que rigor é que profissionais que ajudaram a construir o país que somos, um pouco menos inculto do que poderíamos ter sido, têm de se submeter a esta lotaria?

Pedro Adão e Silva demonstrou ter demasiadas certezas para pouco conhecimento sobre a realidade da criação cultural no nosso país.

O ministro da Cultura estava absolutamente convencido de que o melhor para as estruturas artísticas seriam as candidaturas a quatro anos; o que não teria problema nenhum se o ministro da Cultura fosse dirigente de uma dessas estruturas com condições para concorrer à modalidade quadrienal: enquanto ator, encenador, músico e coreógrafo, Pedro Adão e Silva teria liberdade artística para pensar o seu projeto no prazo que bem entendesse. Enquanto ministro, Pedro Adão e Silva tem a obrigação de saber que a pluralidade e a diversidade valem mais do que qualquer certeza.

Atenção, o Bloco de Esquerda não entende que os apoios às artes devam ser uma corrida anual, uma instabilidade permanente, ano após ano de mão estendida, como se muitas destas estruturas não tivessem uma história e um passado para provar o seu valor. Mas a solução adotada pelo Ministério da Cultura, de injetar o concurso quadrienal, também não resolveu esse problema. O ministro Pedro Adão e Silva pode até ter toda a boa vontade do mundo:

Tivesse isso bastado para a Seiva Trupe não estar a lutar contra a morte no ano em que completa 50 anos de atividade cultural no Porto. Tivesse isso bastado para a Companhia Clara Andermatt não ter de hibernar ao fim de trinta anos.

Vinculamos a esta tristeza uma inquietação justa: será que podemos dar-nos ao luxo de perder o contributo de todas as estruturas e artistas que ficaram de fora? Não apenas os dos nomes que conhecemos tão bem, como Albano Jerónimo ou Marco Martins, mas da Casa Conveniente, do Teatro Animação de Setúbal, do Teatro do Interior, na Lousã, da Jangada, em Lousada, da Lendias d’Encantar, em Beja, dos Jardins Efémeros, de Viseu, ou os projetos do centro de música barroca de Queluz, da associação Divino Sospiro, da Música Portuguesa a Gostar dela Própria, “Urgências, Territórios e Liberdade”, do Varazim Teatro, ou as “Travessias Ibéricas”, do Teatro Ibérico.

Em nome de que justiça e de que rigor é que companhias e profissionais que ajudaram a construir o país que somos, um pouco menos inculto do que poderíamos ter sido, têm de se submeter a esta lotaria.

Em nome de que futuro é que se planeia excluir projetos emergentes para resolver a trapalhada do concurso anterior, dizendo a quem ficou de fora do apoio bienal para concorrer ao Apoio a Projetos. É uma rampa deslizante.

Nunca foi mais necessário repensar todo o sistema de apoio às artes. Nestes tristes resultados somam-se duas injustiças:

- a primeira é serem excluídos de apoio projetos que o júri pontuou como merecedores de apoio, pela única razão de faltar orçamento;

- a segunda, serem estes concursos mais vocacionados para avaliar o bom preenchimento de formulários do que a validade dos projetos artísticos. Alguém um dia explicará para que servem comissões de acompanhamento da Direção Geral das Artes, o que acompanham e relatam e que papel têm para as decisões de financiamento que são tomadas. O que sabemos é que aos júris se pede que analisem folhas de excel, mas nada se diz sobre o que acontece no terreno.

No imediato é preciso corrigir esta injustiça e reforçar a verba do apoio bienal. No imediato a seguir é preciso ouvir as estruturas sobre um novo modelo de apoio às artes, que assuma um compromisso com a continuidade que não passe pelo visto do excel e um compromisso com a renovação sem discriminação.

Os artistas estão em luta por um modelo de financiamento justo que defenda o direito à cultura em Portugal - e o Bloco está com eles.

Deputada do Bloco de Esquerda

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