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Lusail. A alegria dos homens-toupeira

Lusail. A alegria dos homens-toupeira

DR Jornal i 07/12/2022 21:45

Mergulham nos subterrâneos do Qatar com as suas caras pintadas e os seus cachecóis, espalham-se pelas linhas vermelha, verde e dourada do moderníssimo metropolitano cujo trajecto desemboca em todos os estádios menos em um.

LUSAIL – São três horas da tarde e os homens-toupeira mergulham aos grupos nos subterrâneos da cidade. Desde que cheguei, já há quinze dias, que aprendi a conhecer os caminhos intestinos do Qatar. Todos estádios (não todos, o de Al Byat exige um percurso final por estrada) estão ligados pela linha de metropolitano que tem três rotas, a vermelha, a verde e a dourada. Msheireb, a um quilómetro de minha casa, é a estação-chave de onde se parte para todo o lado. Gente vai-se acumulando junto aos torniquetes que estão abertos, têm estado abertos desde que o Mundial começou, ou seja, não se paga um tostão para usar e abusar das carruagens modernas, confortáveis, a cheirar a novo. Najeed é polícia e já o apanhei diversas vezes na rota de Lusail. Vai fazer a segurança ao estádio no qual Portugal defronta a Suíça, na passada sexta-feira cumpriu o mesmo trajecto para o Brasil-Camarões, viemos à conversa tal como agora, lamenta-se do futuro: “Daqui a dez anos já estas carruagens estão todas estragadas…” Homessa! Não sei se estarão ou não, no Qatar há dinheiro que chegue e sobre para ir trocando carruagens de metropolitano sempre que começarem a ficar degradadas, verdadeiramente espanta-me é como todos estes adeptos ainda não entraram no caminho da destruição, desde os mais calmos, aqueles que pertencem às comunidades indiana, bengali, paquistanesa, aos outros mais excitados, mais espalha-brasas, os que seguiram as suas seleções até aqui, como a vintena de marroquinos que berram até esgaçar as cordas vocais, encantados por irem defrontar a Espanha, há sempre assuntos a resolver entre marroquinos e espanhóis, vem do tempo do protectorado, continua ainda por causa dos enclaves de Ceuta e de Mellilla.

Vão para Al-Rayaan, lado contrário ao meu destino, para o Estádio da Educação, perto de Ahmad Bin Ali, onde termina a linha verde, não há maneira, neste país tão pequeno de os estádios não se encavalitarem uns nos outros.

Portugueses. Ah! Quem diria que chegaria o dia em que me dispusesse a dar tranquilamente à taramela com um bófia, não é por nada, é só porque tenho aversão a fardas, maldito o tempo em que andei com uma no convento de Mafra, com G3 ao ombro e tudo, raro é o mamífero que, farda vestida, não se transforma num prepotente camelo de 128 patas. Najeed para já vai manso. Aliás, todos os polícias e seguranças têm exibido uma fleuma muito civilizada, benza-os Allah, disponíveis para dar informações mesmo que sejam informações erradas e nos façam andar quilómetros sem necessidade. Enfim, é aquela vontade de ajudar, de serem úteis, de não dizerem que não, de não admitirem que desconhecem um trajecto ou o local que procuramos. Em Al Bidda, Corniche e West Bay, os portugueses invadem as carruagens cujo futuro tanto preocupa Najeed. Faltam seis estações para Lusail, essa cidade a norte, que é um verdadeiro País das Maravilhas para os arquitectos que projectaram edifícios espelhados num total despautério de chegar ao cúmulo de haver por aqui um prédio em forma de tubarão, inegavelmente em forma de tubarão, gostava de ver a cara do fulano que teve esta ideia do demónio. Para compensar vejo a cara de compatriotas, muitas pintadas de vermelho e verde, em Msheireb havia uma confusão entre o vermelho e verde dos portugueses e o vermelho e verde dos marroquinos, ouço o vernáculo da nossa língua inimitável, palavrões em barda, se isto não é o povo onde é que está o povo, mesmo que o povo lusitano que viajou até ao Qatar não seja propriamente daqueles que metem a mão no bolso e só encontram cinco dedos. Gritam “Portugal olé/Portugal olé/Portugal olé!”, nada de particularmente imaginativo, como está bem de ver, mas se o objetivo é fazer barulho então o jogo já está ganho, os suíços viajam calados, ensimesmados, há um que traz um badalo de vaca, daquelas vacas alpinas, massacra-nos os tímpanos com um dlong!, dlong!, dlong!, bastante irritante, mas como é típico ninguém leva a mal, era bem pior se em vez do badalo tivesse trazido o bovino, ele próprio tem alguns traços de gado vacum, deixá-lo ir agora que chegámos à última estação e saímos todos para esse estádio em forma de barco, todo iluminado, no qual a seleção joga o seu destino.

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