31/01/2023
 
 

Moçambique. Humor de criança de seis anos em julgamento

Parece que a criança terá violado a lei de imprensa e a avó está em maus lençóis, até porque trabalha na Rádio de Moçambique. Será isto normal num país que se quer democrático? 

Sou um fã de Angola e Moçambique – e do arquipélago dos Bijagós da Guiné-Bissau –, tendo conhecido os territórios depois de 2010, longe, portanto, da colonização portuguesa, e não me sinto em dívida com os países que foram colónias portuguesas, nem devedor. A História é o que é e, como é óbvio, aos olhos de hoje temos alguma dificuldade em perceber como tal aconteceu durante tantos séculos. Mas antes e depois dos portugueses muita coisa se passou e passa, deixando uma certa mágoa pelo que vejo nos grupos de WhatsApp.

O funeral de Nagrelha, um cantor de kuduro, foi assustador, com cenas de pilhagens inqualificáveis em Luanda, dando para perceber o que se poderia ter passado depois das eleições de agosto passado se a UNITA tivesse feito manifestações contra o resultado oficial que deu a vitória ao MPLA. Também vi as cheias que assolaram Angola e como miúdos se atiravam para os riachos criados, mergulhando em águas cheias de “tralha” sem temerem lesões graves. É um retrato que os angolanos certamente tratarão de resolver com o tempo e com a aposta na educação.

Outro vídeo chamou-me à atenção, já que a Polícia estava, supostamente, a usar a sua carrinha para fazer concorrência aos “chapas”, vulgo táxis. Sendo um amante de África não posso deixar de ficar triste – e para que não fiquem dúvidas de qualquer espécie, é óbvio que algumas coisas semelhantes se passam em Portugal. Mas a história que chega de Moçambique ultrapassa tudo, pelo insólito. Três crianças, por volta dos seis anos, do Chimoio, província de Manica, fizeram um vídeo onde, supostamente, uma vez mais, recriavam uma operação Stop, em que agentes policiais extorquiam dinheiro, no caso iogurtes, ao condutor Valter Danone. Não é que as imagens foram parar às autoridades e um tribunal está a julgar a avó do pequeno Danone, responsável pela criança, incorrendo esta numa pena de prisão que pode ir de seis meses a três anos. Parece que a criança terá violado a lei de imprensa e a avó está em maus lençóis, até porque trabalha na Rádio de Moçambique. Será isto normal num país que se quer democrático? Pode ser que o barulho que este julgamento está a criar ajude o país a libertar-se de leis absurdas e que atentam contra os direitos mais básicos dos cidadãos.

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