31/01/2023
 
 

Sabe qual é o segundo país com mais médicos?

Poder-se-á pedir-lhes que façam centenas de horas extraordinárias por ano e sujeitá-los a bancos de 24h consecutivas, por exemplo, enquanto outros funcionários públicos cumprem somente as 35 horas semanais? 

Nos tempos da revolução industrial, há duzentos e picos anos, havia quem preconizasse que no futuro as máquinas fariam todo o trabalho e os homens poderiam ficar de braços cruzados a assistir, numa espécie de férias permanentes. Outros, mais pessimistas, anteviam enormes vagas de desemprego, com consequências sociais desastrosas.
Nenhum desses cenários se concretizou. É certo que deixámos para as máquinas os trabalhos mais pesados ou mais repetitivos, e há empregos que vão desaparecendo. Mas continua a não faltar aos humanos trabalho para fazer. Mesmo nas sociedades mais desenvolvidas.

Ainda ontem foi anunciado que o desemprego na zona euro caiu para 6,5%, um mínimo histórico. E depois há, claro, profissionais que, apesar de toda a tecnologia disponível, têm de trabalhar como se fossem máquinas.

Estou a pensar nos médicos. Não basta perceber se as urgências deste ou daquele hospital estão em ponto de rutura. A questão de fundo, creio, é se aquilo que se exige aos médicos é humanamente possível. Poder-se-á pedir-lhes que façam centenas de horas extraordinárias por ano e sujeitá-los a bancos de 24h consecutivas, por exemplo, enquanto outros funcionários públicos cumprem somente as 35 horas semanais? Poder-se-á sujeitá-los ao stresse de filas intermináveis nos seus serviços, sabendo que há pacientes urgentes e muito urgentes a terem de esperar largas horas para serem assistidos?

Tudo parece apontar para um enorme défice de profissionais nas unidades de saúde públicas. Mas quando olhamos para as estatísticas percebemos que o rácio de médicos/ habitantes em Portugal é dos mais altos da OCDE. Ou seja, somos dos países que têm mais médicos proporcionalmente à população. Segundo o estudo “Health at a Glance 2021”, Portugal só fica atrás da Grécia: temos 5,3 médicos por cada mil habitantes quando a média da OCDE é de 3,6.
Como se explicam então os problemas nas urgências havendo esta abundância? Se calhar não temos falta de médicos, temos é demasiados doentes. Mas isso, em qualquer dos casos, é um mistério que o ministro da Saúde terá de resolver.

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