28/01/2023
 
 

Ping? Pong!

Está em curso uma guerra incivil e sínica entre o Estado, que controla os meios de comunicação e as redes sociais, e os cidadãos, que sabem o que se passa pelo mundo e insistem em opinar.

A arrogância no presumir ter sempre razão é uma doença congénita dos detentores do poder. Nas geografias em que os governantes se auto-elegem as certezas de ontem tendem a eternizar-se. Pela China a proclamada supremacia do modelo autoritário face às fraquezas do ocidente assentou, no combate à pandemia, no confinamento massivo e repetido, a alternativa possível à vacinação generalizada que não foi feita. A vacina chinesa não se revelou eficaz e a glória do PCC não permite importar vacinas do ocidente.

A arrogância viu-se desafiada pelos protestos recentes, com causas diversas: rurais que passaram a proletários na indústria e foram aldrabados pelo patronato (as manifestações a sul, em particular em Cantão), urbanos sofisticados que estão fartos de três anos de restrição de liberdades (Xangai e Pequim) e uma juventude inquieta com o arrefecer da economia e com a diminuição da quantidade e da qualidade das ofertas de emprego para os mais qualificados (sounds familiar?).

A comparação com o resto do mundo, especialmente durante o Mundial de futebol que mostra multidões em liberdade nos outros países (a televisão pública chinesa, sempre pedagógica, editou as imagens dos espectadores nos estádios para não ser visível a ausência de máscaras faciais), lembra o início da queda muro de Berlim, quando os habitantes da RDA começaram, muitos anos antes, a ver a televisão da RFA.

Os protestos tornaram-se imaginativos: as folhas de papel em branco e o non sense de gritar às filas de polícias plastificados em branco “– Quero fazer um teste!”. Mas também há quem grite pedindo a demissão de Xi Jin Ping, o novo auto-proclamado grande timoneiro, que quebrou a regra da limitação de mandatos e se preparava para, como Mao, ser um líder vitalício.

A reacção estatal foi musculada mas discreta, não alimentando mais protestos, afrouxando os confinamentos, culpabilizando as autoridades locais (como no xadrez, os peões servem para ser sacrificados, já a travessia do tabuleiro e a promoção são regras inaplicáveis na política sínica) e antecipando as férias escolares para devolver os estudantes à responsabilização da progenitura.

A coreografia do poder na China mantém a tradição: o líder desafiado não aparece, não fala sobre as manifestações, não fala com os manifestantes. O poder não se rebaixa ao nível do povo. Próximas etapas? O PCC não é monolítico mas uma queda de Xi Jin Ping parece distante. Até lá a vigilância e a punição continuarão a ser tarefas fundamentais do Estado.
A repressão no século XXI inclui o reconhecimento facial dos participantes nas manifestações (tecnicamente possível mesmo quando se usa máscara), a identificação dos participantes pela triangulação das antenas activadas pelos telemóveis, a identificação dos conteúdos nos telemóveis (mensagens, fotografias, vídeos das manifestações) e a descoberta do quão difícil é apagar os conteúdos (sem destruir o cartão SIM ou a memória física do telemóvel). Para garantir a sua saudinha o cidadão recebe uma visita em casa, feita por vários funcionários públicos, que o advertem da necessidade de não participar em manifestações contra o Estado e, gentis como só os cívicos, rogam: “– Faculta-me o seu telemóvel?”.

São exemplos edificantes para a classe política portuguesa, entretida com uma revisão constitucional que, a consumar-se, terá como único efeito útil a restrição de direitos fundamentais dos cidadãos.

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990
 

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