29/11/2022
 
 
Portugal, 3 - Gana, 2. Tanta dose de Xanax pelo meio dos embondeiros…

Portugal, 3 - Gana, 2. Tanta dose de Xanax pelo meio dos embondeiros…

AFP Afonso de Melo 25/11/2022 08:21

Vitória e basta? Pode ser… mas, ao intervalo, deve ter havido muita gente a acordar e a espreguiçar-se dizendo: “Uaaaa! Bela sesta! Quando começa o jogo?” Começou quando Ronaldo cavou um penalti por entre aqueles arranha-céus negros de baquelite. Depois pareceu um electrocardiograma. Só a defesa e o guarda-redes de Portugal continuaram a dormir.

DOHA – Nem de propósito: o primeiro jogo de Portugal neste Campeonato do Mundo do deserto foi jogado quase à beira mar, no bairro de Ras Abu Aboud, no sul de Doha, junto à baía que se debruça sobre as águas do Golfo. Foi por aqui que nos nos tornámos os primeiros europeus a desembarcar nesta região, foi aqui que, frente ao Gana, demos o passo inicial e vitorioso de uma competição na qual entrámos com legítimas aspirações de ultrapassar o que foi feito, de forma muito cinzenta, infelizmente, em 2018 e 2021 (no caso 20).

Foi tudo estranho no princípio da noite de Doha. Primeiro uma dolência acabrunhante percorreu toda a gente, de jogadores a público; depois, choques sucessivos provocaram zigue-zagues nas emoções como se estivéssemos a olhar para uma electrocardiografia. Portugal ganhou, meio incomodado mas ganhou. E será isso o ponto fundamental a reter enquanto as bandeiras se enrolam e esperamos que passe o fim de semana para o vermos jogar outra vez.

Tinha aventado aqui a hipótese de Pepe estar completamente recuperado, algo que lhe valeria uma natural titularidade, o que pelos vistos não aconteceu. E assim surgiu Danilo ao lado de Ruben Dias (aquela costela conservadora do engenheiro não terá considerado muito a probabilidade António Silva), abrindo-se o leque de escolhas para o meio-campo onde, ao contrário do último jogo, na preparação contra a Nigéria, William Carvalho não teve lugar e todos sabemos como Fernando Santos gosta do jogador do Bétis. Ora, quer isto dizer que, provavelmente, o selecionador confiava na capacidade de recuperação de Ruben Neves e Otávio para lançar o quarteto ofensivo formado por Bernardo Silva, Bruno Fernandes, João Félix e Ronaldo, com Bruno mais sobre a direita e João mais sobre a esquerda, ficando Bernardo um pouco mais atrás mas igualmente mais solto, cabendo-lhe tirar partido da sua faceta mais defensiva quando isso o justificasse. Já Addo, o treinador do Gana, não teve qualquer pejo em agarrar-se às suas tamanquinhas – uma defesa de cinco, três no meio, e Ayew um ou dois metros atrás de Iñaki Williams. Como todos estes dez matulões se dispuseram a esperar por aquilo que os portugueses fizessem, deixando-lhes a bola, dentro do seu meio campo, o jogo ficou espesso como as multidões à porta dos metropolitanos da estação de Shibuza, em Tóquio, que até precisa de uns auxiliares de luvas brancas para empurrar a malta para dentro das carruagens. Sem nenhuma imaginação na frente por parte de Portugal – tanta bola por alto contra aqueles arranha-céus negros de baquelite? – passaram-se quarenta e cinco minutos daquilo que o bom do Alencar, d’Os Maias, chamaria uma grandessíssima estucha.

 

Sono

Ao intervalo, não seria de admirar que alguém, nas bancadas, ou lá em casa, pela televisão, no sofá, que ainda deve ter sido pior, se levantasse, se espreguiçasse e perguntasse: “Uaaaa! Bela sesta! E afinal? A que horas é que é o jogo?” Não, não exagero. Uma pasmaceira do pior. Parecia que todos os jogadores tinham tomado doses de Xanax. Ou de normison. Confesso que até me apeteceu deixar o resto da página em branco. Sempre haveria um miúdo para a aproveitar e fazer lá um desenho. Ou um tipo irritado que rabiscasse uma obscenidade. Não seria eu a criticá-lo, porra! Claro que o empate da tarde entre a Coreia do Sul de Paulo Bento e o Uruguai (0-0) fazia com que nenhum dos dois contendores (atenção que não é contentores!) do estádio dos contentores (atenção que não é contendores!) estivesse disposto a perder pontos, sujeitando-se a um atraso incomodativo à segunda jornada. Mas a inversa também deve ser posta em consideração: quem conquistasse três pontos estaria, na próxima segunda-feira, muito mais contentinho da vida. Defina-se, a este ponto, uma realidade do jogo, por muito lento e trapalhão que estivesse a ser: o Gana, que não se dedicou a marcações rígidas e cujos jogadores se limitaram a ocupar os espaços com solidez – e como cada um daqueles vastos embondeiros ocupava espaço! –, começou a partida com maior predisposição para aceitar o empate mas, sentindo que Portugal não lhe provocava grandes sobressaltos, foi ganhando atrevimento. A selecção nacional, por seu lado, continuava curta nas mangas: nenhum movimento capaz de abrir espaço na floresta. O engenheiro não engana: William Carvalho foi a sua primeira aposta – entrou para o lugar de Otávio, sem dúvida um dos menos convincentes. Não se esperavam mudanças significativas mas, de súbito, Ronaldo cavou sabiamente um penalti e dele sacou o 1-0 (65m).

Vinha aí outro jogo. Ou não? Veio mesmo. Obrigados a chegarem-se à frente, não dava ideia que os ganeses tivessem particulares argumentos para mudarem um resultado que parecera cair do céu. O problema é que Ruben Dias se distraiu por um segundo e Danilo se atrapalhou no seguinte – golo de Ayew (73m). Tudo na mesma. Iriam agora recuar outra vez? Bem, pelo menos enquanto os jogos nos vão colocando perguntas deste género não adormecemos.

Fernando Santos arriscou e fez sair Ruben Neves para entrar Leão. E bastou um átimo para que Bruno Fernandes, agora mais no meio, lançasse João Félix para o 2-1 (78m). Os embondeiros estremeceram até à raiz. Afinal, quando tentaram sair dos seus lugares perceberam que, como embondeiros que eram, não conseguiam fazê-lo nem a passo de tartaruga. E, imóveis como bons e grandes embondeiros, assistiram impávidos à forma como Bruno Fernandes arrancou, correu, e pôs Rafael Leão na frente de Ati-Zigi para o 3-1 (80m). Ah! Parecia que uma brisa fresca vinda da baía tinha feito passar o efeito dos xanax.

Portugal convenceu-se que tinha tudo sob controlo. O engenheiro, com as três últimas substituições também. Se, no ataque, o soporífero fora anulado, a defesa continuou a dormir e, em mais um lance trapalhão, Bukari fez o 2-3 (89m). Dez minutos ainda, com os descontos. Diogo Costa também dormia – por pouco não dá o empate de borla numa infantilidade imprópria para consumo mundial. Depois sim. Fim. Talvez seja melhor deixar na gaveta as lamelas de Xanax…

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