08/12/2022
 
 

O que a sociedade devia discutir mas é demasiado incómodo

Devia ser isto que a sociedade devia andar a discutir há muito – como criar condições para as pessoas terem filhos e apoiar a velhice –, em vez das zangas de Ronaldo, os telefonemas do primeiro-ministro e as viagens ou não viagens do Presidente ao Qatar.

Os portugueses adoram uma boa intriga – quem não gosta? Ontem foi o divórcio de Ronaldo do Manchester United, hoje é a querela entre o ex-governador do Banco de Portugal e o primeiro-ministro, amanhã é a viagem do Presidente ao Qatar. Nada como um bom caso para apimentar o dia-a-dia.

Mas esquecemo-nos de uma coisa: enquanto andamos distraídos com estas tricas, deixamos para segundo plano aquilo que realmente devia importar.

Enquanto debatemos questões secundárias ou até mais ou menos imaginárias não temos de encarar aquelas que realmente doem.

Por exemplo, ontem foram conhecidos os dados definitivos dos Censos 2021. Como era de esperar, revelam um país deprimido a nível demográfico, com um interior desertificado, uma população envelhecida e uma natalidade baixíssima.
Pela primeira vez desde 1864 (!) verifica-se uma quebra na população.

Face a este cenário não muito animador, poderia tomar-se uma de duas opções: ou decidir estimular a natalidade, mas com medidas a sério ao nível da habitação, das escolas, dos empregos (não é lá por os impostos para famílias baixarem 1 ou 2% que algum casal vai decidir ter filhos); ou, em alternativa, assumir que a população é velha e não há volta a dar, e face a isso assegurar boas condições de vida para os mais idosos.

Infelizmente, como escreveu um cronista neste jornal, o país não é para os novos (que emigram em números nunca vistos), mas também não é para os velhos, que vivem sós, tristes e abandonados.

Devia ser isto que a sociedade devia andar a discutir há muito – como criar condições para as pessoas terem filhos e apoiar a velhice –, em vez das zangas de Ronaldo, os telefonemas do primeiro-ministro e as viagens ou não viagens do Presidente ao Qatar.

Mas lá está: ninguém gosta de olhar para os problemas reais, é demasiado incómodo. Por isso precisamos tanto de escapes. Nem que seja acompanhar o emocionante trajeto do autocarro da seleção entre o hotel e o estádio...

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