29/11/2022
 
 

A moda de bater em Marcelo

Nasceu nas elites e tende a alastrar, mas a generalidade dos portugueses não adere.

1. Levado ao colo até Belém como nenhum antecessor, objeto de adulação e carinho durante os primeiros anos, o Presidente Marcelo tem vindo a ser destratado por certos estratos, embora a maioria continue a adorá-lo. Como sempre na sociedade portuguesa, os primeiros sinais de afastamento desenvolveram-se nas elites sociais bem-pensantes de esquerda e de direita chiques (as mesmas que se cansaram de Cavaco). Depois alastraram ao jornalismo e aos “opinadores”, atingiram as classes médias urbanas e assentaram praça em grupos mais populares. Apesar deste rolo compressor, Marcelo mantém a confiança dos mais moderados de todos os quadrantes e dos apolíticos. Mas está no foco crítico da bolha social e político-mediática que monopoliza os debates em Portugal e se mimetiza sem ponta de originalidade intelectual. Qualquer coisa que Marcelo diga, mesmo que seja uma verdade de La Palisse, merece análise crítica e repúdio por parte desse núcleo. Veja-se o caso das suas declarações sobre o Qatar. Houve 12 anos para falar do tema e se dizer tudo o que se omitiu até agora. Bastou Marcelo defender que estamos em tempo de Mundial-22 para cair o Carmo e a Trindade e saltarem virgens ofendidas. As mesmas que nunca se preocuparam com as barbaridades feitas para construir os estádios dos mundiais da Rússia e do Brasil, dois países onde os direitos humanos também são espezinhados e onde a violência criminal é gigantesca. Sobre o Qatar (um país que integra a CPLP como observador sem reparos de ninguém) diz-se o que Maomé não diz do toucinho. Só falta assegurar que é também uma potência que quer invadir um vizinho, coisa que ignoraram durante o mundial de Rússia que, na altura, já tinha engolido a Crimeia. Mas haja calma. A próxima edição do mundial vai decorrer no México, Canadá e EUA, países democráticos. Não vai faltar quem os critique como se fossem ditaduras, provavelmente para os responsabilizar pela degradação ambiental planetária. Voltando ao Presidente Marcelo, reconheça-se que pontualmente tem um ou outro excesso, o que não legitima insinuações sobre a sua sanidade mental. Esses ataques são uma estratégia para minar os alicerces da nossa democracia. Os seus arautos vêm sobretudo de grupos ligados a lóbis políticos e económicos. No caso do Qatar, Marcelo disse o mesmo que outros chefes de Estado e de governo, verificando-se ainda que a sua deslocação foi ontem mesmo avalizada pelo parlamento nacional. Desde logo porque se trata de um ato formal que não implica qualquer juízo de valor sobre a natureza da visita. Por triste que seja, o que se passa com trabalhadores imigrantes no Qatar não é diferente do que acontece aos que temos na nossa agricultura e que, por exemplo, Catarina Martins, Ana Gomes e Alexandra Leitão não ajudam concretamente. Limitam-se a fazer números à frente das câmaras. No terreno, zero…

2. Segundo o Tribunal de Contas, das 24 medidas extraordinárias publicitadas durante a crise pandémica, 15 não foram executadas até 2021. Foram quase todas da iniciativa de Siza Vieira, entretanto remodelado por Costa. É extraordinário um cidadão confrontar-se com tanta demagogia e constatar como foi possível os média andarem a apregoar sistematicamente tantos “fake” anúncios. O pior é que o cenário pode estar a repetir-se com o PRR. Com o seu otimismo irritante, António Costa assegura que está tudo a correr bem, mas Mário Centeno mostra-se preocupado. Prognóstico: é grande a probabilidade de voltarmos a desperdiçar uma enorme oportunidade.

3. Está, entretanto, em curso a discussão na especialidade do Orçamento do Estado, no momento em que os portugueses são arrasados por uma inflação sem precedentes em 30 anos. Há sinais de que o governo poderá ajustar e retificar algumas decisões, no sentido de diminuir o impacto do desastre. Enquanto o Estado aumenta substancialmente as suas receitas, por via do IVA e outros impostos, os portugueses todos perdem poder de compra e nada resolve a taxação de supostos lucros excessivos. Está cada vez mais à vista que a máquina administrativa e executiva cresce tentacularmente sem benefício para os portugueses. A sociedade civil já não respira e a pública tornou-se uma espécie de jiboia a fazer a digestão de uma presa de cem quilos. Ao contrário do que alguns apregoam, não precisamos de reformas estruturais. Só precisamos que cada serviço do Estado faça aquilo para que foi criado. Se não faz, pois que se extinga. Sempre se poupa qualquer coisa.

4. O livro O Governador, da autoria de Luís Rosa, trouxe ao de cima mais do que a querela entre dois Costas e supostas pressões. Colateralmente, o longo depoimento de Carlos Costa e a investigação complementar do jornalista recorda-nos a ocupação vergonhosa de lugares nos reguladores por parte do aparelho partidário, designadamente o do PS, nos últimos anos. A regulação, que só está constitucionalizada no caso da comunicação social, é hoje a cadeira de sonho de gente partidária sem preparação especial, sem reconhecimento profissional e que ganha verbas escandalosas. Basta lembrar o ordenado da reguladora Ana Paula Vitorino, a cara metade (é mesmo o caso) do impagável Cabrita, a qual leva para casa cerca de 15 mil euros para fazer sabe-se lá o quê na área dos transportes. A regulação ganhou especial dimensão por imposição da União Europeia, mas, à boa maneira tuga, o exercício da função transformou-se na atribuição de funções tão bem pagas como inúteis para o cidadão comum. Ao ponto dos mais antigos terem hoje saudades das velhas direções-gerais à frente das quais estavam muitas vezes respeitáveis servidores do Estado com largas provas dadas.

5. A Rádio Observador, especialmente Júlio Magalhães e a equipa da manhã, está de parabéns pela iniciativa de leiloar uma caderneta de cromos do Mundial do Qatar, assinada por todos os jogadores convocados. O dinheiro reverte para a organização Nariz Vermelho, cujos membros são os chamados Doutores Palhaços, que visitam e apoiam crianças doentes, algumas das quais estão internadas há anos. Há nota de grande adesão ao leilão, que já vai em milhares de euros. Uma iniciativa que revela a qualidade humana da equipa que a promoveu. 5 estrelas! Prova-se que há quem faça muito com pouco.

6. A CNN Portugal celebrou um ano de vida com uma Portugal “summit”. A estação tem vindo a afirmar-se num segmento que era liderado pela SIC Notícias. Particularmente interessante foi a intervenção do histórico jornalista Bob Woodward, um dos dois investigadores principais do caso Watergate cuja denúncia levou à demissão de Richard Nixon. A moderação esteve a cargo do experiente correspondente Luís Costa Ribas, que escolheu dois momentos do audiolivro que Woodward publicou, revelando conversas com Trump. Em breves segundos, a personalidade egocêntrica e perigosa do ex-presidente ficou exposta. Numa falava do sanguinário Kim da Coreia do Norte como se fosse uma criatura adorável. Noutra chamava a si todos os méritos de eventuais ideias dos seus colaboradores. Trump é uma criatura perigosa que não está descartada ainda. Raramente em Portugal se assistiu a uma conferência tão diversificada e interessante em termos de oradores. António Costa abriu com um discurso em que abordou o futuro da Europa. Foi muito claro em resistir ao alargamento com integração plena de países de Leste. Ficou implícito que essas reservas têm muito a ver com uma futura entrada da Ucrânia, o que nos retiraria o estatuto de primeiro pedinte e de país incompetente a gastar o que nos propõem. Os trabalhos fecharam com uma intervenção do pictórico e fanfarrão Boris Johnson.

Escreve à quarta-feira

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