08/12/2022
 
 

Portugal em modo Kumbaya.

Todo o complexo enredo em torno do agora ex-Secretário de Estado adjunto do Primeiro-ministro. Uma história que envolve adiantamentos de uma verba de centenas de milhar de euros - dos munícipes de Caminha - para algo que, aparentemente comprovado, nunca existiu e nunca irá existir. Uma história com currículos fraudulentos. Uma situação que termina com entrevistas que puxam à vergonha alheia de cada um.

Há muitos anos, no continente americano, lançou-se uma música de cultura gospel intitulada “Kumbaya, my lord”. Ficou associada à escravatura da comunidade afro-americana, sendo vista como sinal de esperança, força e coragem para se enfrentar os dias.

A origem deste conceito, de raízes africanas, remete para a mitologia associada a Kumbaya que seria uma divindade em rituais de dança e espiritualidade positiva.

Esta música deu origem ao ato de fumar uma mistura de ervas, uns modos culturais de espiritualidade para “melhor conexão com as divindades”, dizem os praticantes sobre o “fumar Kumbaya”.

Respeito as liberdades individuais de cada um, discordando do ato praticado. Registe-se.

Porém, devia ser algo, aos dias de hoje, fazendo uma analogia, para transformar tudo o que é mau em positivo. Era esse o conceito e é isso que defende quem se associa a esta cultura que passou da espiritualidade à música e da música à mistura de ervas enroladas para se fumar. 

Como há dias, numa boa analogia também, o Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, disse que a sua reunião como o homólogo chinês, Xi-Jinping, não foi feita em modo Kumbaya.

Acredito que queria dizer que não foi uma reunião amigável, no meio dessa positividade e tranquilidade em aceitar o que está totalmente errado.

Pegando nas palavras do Presidente Joe Biden, mas sobre Portugal, apraz-me dizer também sobre isto que se assiste cá, que: It’s not ‘kumbaya’.

Parece que vivemos em tempos sombrios de pensamento, onde há momentos de falha de lucidez coletiva.

São muitos casos na política nacional, de descrédito, só ultrapassáveis recorrendo a Kumbaya possivelmente.

Vemos uma história gravíssima, que saliento que não me interesso por questões jurídicas nem o menciono porque isso caberá à justiça trabalhar e decidir, que do ponto de vista político não deixa margem para dúvidas: É uma vergonha.

Todo o complexo enredo em torno do agora ex-Secretário de Estado adjunto do Primeiro-ministro. Uma história que envolve adiantamentos de uma verba de centenas de milhar de euros - dos munícipes de Caminha - para algo que, aparentemente comprovado, nunca existiu e nunca irá existir. Uma história com currículos fraudulentos. Uma situação que termina com entrevistas que puxam à vergonha alheia de cada um.

Ainda com as mesmas personagens, o Primeiro-ministro e o seu ex-Secretário de Estado adjunto, vimos quase uma centena de milhar de euros ter sido paga por ajuste direto em 2010, na Autarquia de Lisboa, quando um ainda era Presidente da maior Câmara do país e o outro tinha deixado de ser assessor dessa mesma câmara um ano antes, em 2009.

Pior, o último desses contratos pagos por ajuste direto, de mais de 60 mil euros, não foi concluído sequer porque o então assessor/consultor (será que ele sabe o que era?) já tinha a intenção de se candidatar às eleições autárquicas em Caminha e não chegou a concluir o contrato. Ainda assim, a autarquia de Lisboa (então liderada pelo atual Primeiro-ministro) pagou cerca de 50 mil euros ao consultor (ex-assessor do então Presidente de Câmara e agora ex-Secretário de Estado adjunto do Primeiro-ministro que é a mesma pessoa).

Reitero: Politicamente, mais um prego no caixão da credibilidade política de todos os que se envolvem na causa pública.

 

Vemos também, atualmente, o descrédito e banalidade com que um Governo nomeia especialistas (que auferem entre 3 e 4 mil euros brutos/mês, num país que tem entre 2 a 4 milhões de portugueses no limiar da pobreza com pouco mais de 500€/mês).

 

Umas dessas nomeações porque, devido à idade, não têm nada de especialistas porque acabaram de finalizar cursos na faculdade, portanto, para prestar assessoria técnica não existe a mínima capacidade de ter um percurso profissional que suporte essa nomeação se formos sérios.

Nada contra os jovens em cargos de responsabilidade, mas tudo contra o que descredibilize de forma pública a capacidade de qualquer jovem poder chegar a um bom cargo por mérito próprio! Foi o que fez o Governo e o que as fracas justificações de uma Ministra demonstraram sobre a recente nomeação, de um jovem português de 21 anos, sem qualquer experiência profissional, para especialista do Governo.

Outras nomeações que descredibilizam no governo: quatro antigas secretárias pessoais de vários governos foram nomeadas para os ministérios da Economia e da Saúde, sendo uma adjunta do ministro da Saúde (!) e as outras como técnicas especialistas do ministério da Economia sem licenciatura.

Se uma licenciatura é sinónimo de capacidade? Não.

Se há pessoas sem habilitações académicas que desenvolveram excelentes negócios, ideias e são capacitados para dar “aulas da vida e de negócios” a qualquer doutorado? Sim.

Porém, neste caso, como é que alguém sem estudos em Saúde pode assessorar tecnicamente como adjunta do Ministro? E na pasta da Economia, exigente, nenhuma especialista pode assessorar tecnicamente que tema seja sem conhecimento académico e técnico. Se não estudou ou trabalhou para ter essa capacidade adquirida, não acrescenta nada ao Governo.

Isto é básico! Só não viram aqueles que as nomearam.

 

Agora, nestes últimos dias, vemos um antigo Governador do Banco de Portugal, que esteve no centro de vários acontecimentos marcantes da história deste país neste início de século - desde o pedido de intervenção da troika às negociações do programa de assistência, passando pela crise do sistema financeiro, que levou à queda do BES e do BANIF, e as consequências do Luanda Leaks - vir a público dizer que o atual Primeiro-ministro quis interferir politicamente junto do Banco de Portugal.

Não é preciso dizer nada sobre a insinuação do ex-Líder do Banco de Portugal sobre a tentativa de um “tentáculo do polvo” do Estado abraçar o Banco de Portugal que se quer equidistante e isento politicamente, pois não?

 

São situações graves que nos devem fazer pensar se não estaremos em coma político ou, então, numa espécie de momento Kumbaya da Nação.

 

Será que é possível aceitar todos estes casos – sem referir os “casinhos” do aeroporto, da TAP, recordar Tancos, pensar nas golas inflamáveis, o SIRESP, nas empresas de familiares de ministro e ministra, etc. – sem metermos a mão na consciência crítica e entender que isto não deveria ser normalizado? Isto tem de ter consequências (políticas! Judiciais a quem de direito se existir matéria nesse sentido) imediatas.

 

Uma nota relevante. Não tenho dúvidas de que a clara maioria dos portugueses que desempenham funções governativas têm qualidade, são honestos e sérios. Sem ironia. Acredito mesmo e espero que assim seja pelo bem da nossa democracia.

 

Porém, igualmente, não tenho dúvidas de que há um excesso de normalização de más práticas políticas que a sociedade já nem debate, critica ou apura responsabilidades e tira conclusões.

 

Atualmente parece que os “lugares” prendem muito quem é político.

 

Recordar que houve vários ministros num passado recente, do PSD e do PS, que à mínima desconfiança pública sobre matérias da sua tutela (que não eles próprios), demitiram-se de governos. Falamos de governantes que nem acusados de nada foram, que apenas entenderam que a determinado momento do seu mandato houve algo associado à sua pasta ministerial que lhes retirara a credibilidade pública. Que fizeram? Saíram.

 

Atualmente, neste e no anterior Governo do mesmo Primeiro-ministro, há casos que geram desconfiança pública sobre os próprios Ministros (diferente e bem pior do que referi) e estes governantes insistem em ficar.

Que fazem? Persistem em ficar amarrados a um lugar que se quer que sirva de exemplo de credibilidade ao país.

 

Mas às vezes não é só a desconfiança e ausência de credibilidade que deveria apontar à porta da rua de um Governo.

Há Ministros, sem suspeição sobre si próprios, mas com clara falência de capacidade política para gerir as suas pastas (caso ziguezagueante da TAP é um deles), que, igualmente aos desta atual geração de “Amarrados ao Lugar” ficam, ficam e ficam no Governo...

Mas porquê? Será mais importante a sua carreira política (não acredito que seja a carteira, porque seguramente muitos estão em cargos públicos a auferir menos que ganhavam no privado e nos seus negócios familiares) do que é a credibilidade de toda a classe política?

 

Enfim, só mesmo com umas ervas de Kumbaya e muita espiritualidade positiva é que podemos fechar os olhos ao que assistimos politicamente.

Carlos Gouveia Martins

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