29/11/2022
 
 

Ai do artista que aceitar atuar no Qatar no próximo domingo

Parece hoje que os artistas têm de ser todos impolutos e de lutar por causas humanitárias. Muito bem, que lutem, desde que o façam por convicção absoluta, e não por pressão mediática. Mas não se lhes pede que sejam santos, só artistas. E ninguém tem o direito de condenar quem quer que seja por fazer o seu trabalho e atuar na cerimónia de abertura do mundial.

Sou insuspeito porque nunca vi, nem tenciono ver, qualquer cerimónia de abertura de um grande evento desportivo. Por mais espetaculares e espampanantes que sejam as coreografias e os momentos musicais, não passam de encenações e de insossos aperitivos para a verdadeira emoção que vem a seguir. É a competição pura e dura que interessa e, no caso dos campeonatos do mundo de futebol, são os jogos e os jogadores que queremos ver, não o cantor A, B ou C.

Dito isto, parece-me um enorme exagero a polémica que tem rodeado a cerimónia de abertura do mundial do Qatar. Rod Stewart rejeitou um contrato de um milhão de euros, e Shakira era para ir e já não vai, ao que parece por causa da pressão dos fãs, que não a querem ver atuar num país que não respeita os direitos humanos.

De repente, criou-se um clima de intimidação e ai do artista que aceitar cantar no estádio Al Bayt no próximo domingo. As redes sociais não lhe vão perdoar.

Mas permitam-me uma pergunta: o que iam Rod Stewart ou Shakira fazer ao Qatar? Porventura iriam matar pessoas? Iriam oprimir alguém? Ou iam fazer aquilo que sabem, ou seja, cantar?

Foram eles, por acaso, que decidiram em que país vai realizar-se a competição? Que culpa têm eles que a FIFA aceitasse, ao que tudo indica, vender a organização do evento a troco de vil metal? Que culpa têm eles da morte de milhares de trabalhadores nos estádios? E será que o facto de não cantarem na arena do Al Bayt vai trazer essas vidas de volta?

Parece hoje que os artistas têm de ser todos impolutos e de lutar por causas humanitárias. Muito bem, que lutem, desde que o façam por convicção absoluta, e não por pressão mediática. Mas não se lhes pede que sejam santos, só artistas. E ninguém tem o direito de condenar quem quer que seja por fazer o seu trabalho e atuar na cerimónia de abertura do mundial.

Pela mesma ordem de razão, os jogadores recusavam pisar os relvados, o público recusava-se a assistir aos jogos e o esforço e vidas gastos para construir os estádios teriam sido em vão.

Mais: suspeito que não é isolando o Qatar que se resolve o problema. Pelo contrário, talvez as trocas e contactos com as democracias e os democratas possam fazer mais pelos direitos humanos naquele país do que qualquer boicote ou cancelamento.

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