29/11/2022
 
 

A TAP é pior que as raspadinhas

Habituados a amochar face à discricionariedade, à falta de organização e ao sentido de responsabilidade na concretização de serviços, os portugueses podem até condescender com este estado de coisas, mas é impossível não sentir vergonha própria e alheia em relação a cidadãos não nacionais que optaram pela TAP.

Voar é uma experiência, uma necessidade ou um exercício de masoquismo. Jogar, podendo ser uma adição, é um exercício similar. Voar, sendo um exercício de menor incerteza no resultado, pode ganhar sempre novas dimensões superlativas de surrealismo quando se trata de optar pela companhia aérea nacional. 

A TAP é pior que as raspadinhas. 

Raspa-se, depois de milhões em tinta para dar um ar composto, para alegadamente salvaguardar a economia nacional e os interesses estratégicos, onde se inscrevem os imperativos de coesão territorial, e raramente sai o acervo de serviços contratados, no tempo, nas condições e até no simbolismo que era suposto.

É cada vez mais evidente que alguém continua a gerir o nosso dinheiro injetado na companhia com os pés, sem observar mínimos de qualidade e de senso, na preservação de um perfil de empresa que presta serviços, supostamente de qualidade dado o investimento, que deveria defender a economia nacional e que não deveria manchar a imagem do país.

Infelizmente não é o que acontece. Bem podem os tribalistas do status quo, sempre acólitos na defesa do que acontece, seja de bom, de mau ou de trágico, levantarem-se das existências para contrariar, verberarem um “mas qual era a alternativa?” ou ainda enunciarem um “isso também acontece com a companhia x ou no país y. O que é concretizado é um desastre para quem paga um serviço, para o turismo como pilar da economia nacional e para a imagem de Portugal. Raspa-se e o que sai é quase sempre mau para o preço que se paga.

O drama é que já tinha chegado a essa conclusão, mas enfunado pela narrativa patriótica e pelo facto de ser o único voo direto disponível para o destino europeu a que me dirigia com a família, reincidi na escolha da TAP, qual raspadinha do património (em processo de liquidação) ou acionista da empresa, por via dos milhões dos contribuintes injetados para aplanar terreno para uma colocação do sacrossanto ativo estratégico no mercado das privatizações. E pensar que houve um tempo em que a atual liderança do país afirmava que “se pensarmos como a direita pensa, acabamos a governar como a direita”.

À semelhança da raspadinha, voar na TAP é uma imprevisibilidade. Apesar do conjunto de serviços contratados e do custo superior às low-costs, nunca sabes bem com o que podes contar.

Na ida, contámos com quase três horas de atraso à partida de Lisboa, com uma total ausência de informação sobre as razões do atraso e com funcionários no balcão de embarque que, às questões aziadas dos passageiros, respondiam com um “somos só funcionários, se quiser proteste”, em modo de abuso de posição dominante, montada nos milhões dos contribuintes e num laxismo que envergonha qualquer português. Ah, no meio deste modelo de organização, que permite atrasos sucessivos na chegada e partida dos aviões, ainda contámos com uma deslocação em autocarro até ao aparelho com um tempo de espera junto ao dito para que a tripulação entrasse, como se não fosse suposto os passageiros embarcarem apenas quando estivessem reunidas as condições para o desenvolvimento da operação.

Em suma, dispuseram do nosso tempo, da nossa paciência e duplamente do nosso dinheiro, como contribuinte e como cliente. Resultado, uma tarde perdida, num mundo em que se diz que tempo é dinheiro.

Na vinda, os pergaminhos de rebaldaria mantiveram-se, com um atraso menor, de mais de uma hora, mas o inquietante adelgaçar da estrutura operacional da companhia compromete os mínimos de segurança na missão de transportar passageiros. Ao invés do que aconteceu em Lisboa, no destino, aquando do regresso não houve nenhum controlo de identidade e de cartão de embarque, o que significa que um qualquer cidadão munido do meu bilhete poderia ter embarcado no voo, se ter sentado no meu lugar, desembarcado em Portugal e ter tido os comportamentos que se lhe aprouvesse em território português. Bem sei que estamos em Espaço Schengen, mas é uma falha grave de segurança, impossível de ser superada quando no local de embarque, em Hamburgo, para duas entradas, automatizadas para lerem os cartões de embarque, se encontra apenas um funcionário da TAP. 

Habituados a amochar face à discricionariedade, à falta de organização e ao sentido de responsabilidade na concretização de serviços, os portugueses podem até condescender com este estado de coisas, mas é impossível não sentir vergonha própria e alheia em relação a cidadãos não nacionais que optaram pela TAP. Com o mal dos outros podemos nós bem, mas com os nossos males não podemos persistir em ignorar, em ser complacentes com a incompetência e a falta de senso. Não há nenhum sentido partidário ou patriotismo que se possa sobrepor a tamanha anulação cívica. Só com mais e melhor exigência conseguiremos ser em Portugal aqui que somos em tantas paragens do Mundo: competentes, eficazes, resilientes e fiáveis.

Por mim, de TAP, enquanto houver memória e alternativas, estou vacinado. Afinal, as raspadinhas são mais baratas.

NOTAS FINAIS

 

É DEGRADAÇÃO É SEMPRE TRISTE. Dói assistir à espiral de degradação de Cristiano Ronaldo, que foi e será sempre um atleta superior com lugar entre os imortais do futebol e do desporto. Numa carreira construída com a sua personalidade e aconselhamentos, não é possível permitir que uma parte se sobreponha ao todo de uma marca de referência. Noutro plano, a Federação Portuguesa de Futebol, palco de coisas esquisitas, não pode de forma displicente deixar sair imagens de bastidores que não protegem os atletas. Está sem rei nem roque.

 

PROTEÇÃO DE DADOS PARA QUÊ. O tempo é um fator crítico nas sociedades em que os julgamentos, as perceções e as decisões são configuradas pelo que acontece na praça pública, das redes sociais aos media. Não perceber que o tempo de decisão tem de se aproximar do tempo das realidades, é destinar as instituições à inutilidade prática. É o caso da Comissão Nacional de Proteção de Dados. Há mais de um ano, em junho de 2021, apresentei uma queixa por um tema polémico que estava na berra, em que, na minha perceção, tinha ocorrido uma violação do RGPD. 17 meses depois, não há decisão, o poderoso está ainda mais poderoso e a CNPD parece ter medo de decidir. Se não há meios, reivindiquem-nos, se têm medo de decidir contra o poder, arquivem, mas decidam em tempo útil.

 

VAI-TE CATAR. Mesmo não sendo santos face a outros Mundiais que foram diabos, o Mundial do Qatar é o oposto do que deve ser o futebol, como desporto de massas. É quase tudo muito mau, das realidades aos arrependimentos tardios dos corrompidos.

 

Escreve à quarta-feira

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