29/11/2022
 
 
A realidade na camisa-de-forças da literatura atual

A realidade na camisa-de-forças da literatura atual

DR Diogo Vaz Pinto 15/11/2022 18:45

Com um ouvido atento e uma “sensibilidade sismográfica”, Oliver Sacks estabelecia com os seus pacientes uma relação de amizade e confiança que ia muito além daquilo que se espera de um médico. Quem o diz é o escritor Paul Theroux, que dele nos deixa um retrato inesquecível no livro Figuras numa Paisagem.

Comecemos por um episódio revelado por Paul Theroux, um diálogo que escutou quando seguia Oliver Sacks nas suas deambulações com os pacientes, num esforço de pôr em prática uma “neurologia de rua”, permitindo-se assim observar aqueles que preferia tratar como amigos, observando-os de forma paciente numa situação qualquer, fosse na rua, num autocarro, na fila para o cinema ou numa sala cheia de desconhecidos. Em seu entender, vistas na rua, as particularidades da condição de um paciente mostravam-se de forma bem mais óbvias do que teria acontecido numa clínica, num laboratório, numa enfermaria, que são sempre lugares destinados a restringir e focar o comportamento.

Assim, Sacks era o apologista de uma “neurologia naturalista”, saindo do consultório e combinando encontrar-se com os pacientes em lugares públicos, fazer programas com eles, aproveitando-se do facto de Nova Iorque ser uma dessas grandes cidades “onde o portador de distúrbios extravagantes, impulsivos, pode gozar e exibir plenamente a monstruosa liberdade, ou escravidão, do seu estado”. Isto permite, além do mais, refletir também sobre as cidades em que vivemos, esse espaço que, sendo tão celular, tão parecido com um asilo, uma ilha de compartimentos verticais, poderá produzir esse isolamento das pessoas e intensificar a psicose. É uma indagação decisiva, sobretudo para um médico que nunca falou de curas, mas que revelava o seu génio na compreensão dos pacientes, passando muito tempo na sua companhia, de modo a que a sua prática terapêutica fosse beber na amizade, no amor, nesse laço de confiança que se estabelece nas relações de longa data. Paul Theroux, que também se tornou bastante próximo dele, diz-nos que Sacks escutava com uma “sensibilidade sismográfica”, que via com clareza e era, além do mais, um observador inspirado, com uma eloquência que lhe permitia descrever a condição de uma pessoa com matizes e subtilezas. Na escrita de uma longa reportagem sobre este regime aventureiro da prática neurológica, o próprio Theroux acaba por ser contagiado, e revela ele mesmo uma argúcia prodigiosa nas observações que vai fazendo neste ensaio longo recolhido no livro Figuras numa Paisagem (ed. Quetzal). E eis o diálogo entre um paciente com síndrome de tourette num museu frente a uma montra com três tigres embalsamados. E o paciente às tantas diz: “Isto é uma jaula de vidro tipo mausoléu, enfim, patético. É como a memória, fantasma de um fantasma. Não há realidade nisto. Não faz sentido. Porque é que não embalsamam humanos e os põem aqui? Sabes, o tigre vivo é capaz de ficar muito quieto. Um tigre é capaz de ficar sem respirar, imóvel. Como diria o Oliver – aqui ele passou de novo para o sotaque pedante de Oliver –, é parkinsónico… é… é… lítico. Mas estes tigres só têm a forma e a memória, não têm os movimentos flexíveis. Por outras palavras, uma escultura fazia isto melhor. Não há vida infundida neles.” Perante isto, Oliver Sacks pergunta-lhe o que acha dos tigres no zoo, e Theroux fica a interrogar-se se ele terá vislumbrado uma identificação entre o paciente e os tigres, gostando deles por os seus movimentos se assemelharem, uma vez que, devido à sua condição, também ele era sacudido, e andava entre saltos e balanços. A resposta dele a Sacks é esta:

“Estão numas instalações acanhadas, estão deprimidos, em regressão. Um que vimos tinha um movimento monocórdio. Mas, sabes, a espada de dois gumes é que o zoo se destina a protegê-los.” Oliver insiste, e quer saber agora se tem alguma sensação de espanto “blakeano” ao observá-los no zoo. E o outro responde que sim, mas apenas porque “era um tigre vivo”… E depois nota: “Mas não sei… está preso. Cativo na nossa imaginação. Não é possível captar um tigre.”

Muito se pode retirar deste diálogo, destas impressões, não apenas sobre a natureza de um ser, como na forma como o espaço e a cultura em que se vê contido o constrangem e limitam, ou adestram. Ao marcar os encontros com os seus pacientes fora do consultório, Oliver Sacks permitia-se observá-los sob diferentes pontos de vista e face a tantos contrastes. Theroux vinca que para este médico que era igualmente um escritor formidável, “o comportamento humano prismático, é estratificado”, e a sua vida e o seu trabalho permitiram-lhe perceber como as grandes revelações levam o seu tempo, chegam apenas se se está disposto à procurar as condições adequadas para que estas se deem. “Nesta neurologia natural, com tratamentos na quarta dimensão, a personalidade não surgia pintada a cores primárias, mas sim num milhão de tons mais subtis, delicadamente sombreados e até, como escreveu Oliver num outro contexto, ‘uma polifonia de luminosidades’. Uma pessoa solitária é monocromática. Quando outras estão presentes, a personalidade é imersa em cor”, regista Theroux. Há algo de fabulosamente instrutivo para a literatura na abordagem de Oliver Sacks, sendo que este, perante um paciente com um grave problema neurológico, em vez de forçar um quadro prescritivo a partir de um diagnóstico, preferia depois acompanhar a diferença daquela pessoa não apenas no quadro das perturbações manifestadas, mas também nas suas respostas e evoluções face a diferentes tratamentos. A abertura de Oliver para procurar algo que pudesse aliviar aqueles problemas era total, e tanto podia recorrer à aromaterapia como à musicoterapia, grupoterapia, acupuntura, abraços, dar as mãos, ar livre, idas ao campo – “e, evidentemente, medicamentos, embora como diz Oliver, as drogas ocultem muitas vezes a verdadeira causa de um problema e criem sintomas próprios enganadores”. A diferença da sua atitude estava nesse regime de atenção e disponibilidade de quem adapta o conhecimento que tem àquilo que se manifesta perante ele, ao invés de tentar fazer o contrário. “Quer ir por dentro dos sintomas para encontrar o problema e tratá-lo.” Como é natural, isto implica muito tempo, muitas horas de dedicação, e Theroux frisa que “Oliver oferece aos seus pacientes mais horas do que qualquer outro médico que eu conheça, o que talvez explique porque é que os seus honorários do ano passado foram sete mil dólares, uma verba reduzida a zero depois de ele pagar o seu seguro contra erro médico”. De resto, se a obra literária de Sacks se tornou seminal na forma como são estudadas e compreendidas certas patologias, não deixa de ser curioso que ele tenha conseguido mostrar a propriedade das referências literárias nos seus artigos científicos, e como provou uma capacidade de exame estupenda ao servir-se da sua experiência neurológica para abordar as obras de autores como Dostoievski, Kierkegaard ou Nabokov, mas também as de compositores como Bartók ou Mozart e de pintores como Klee ou De Chirico. No fundo, o seu compromisso nascia de uma curiosidade insaciável, e se dominava um espantoso leque de referências, Theroux assegura que a sua erudição se compunha através dessa sua necessidade quase nervosa de deitar a mão a todas as ferramentas ao seu alcance e que pudessem auxilia-lo no esforço de aprofundar a compreensão de um determinado comportamento ou estado da natureza humana. Se foi reconhecido como um escritor maravilhoso, “com um âmbito expressivo que é ao mesmo tempo exato e poético”, se os seus escritos neurológicos mereceram louvores de nada menos que um estilista como W.H. Auden, como lembra Theroux, o seu cuidado descritivo podia ser tão exaustivo e deslumbrante como o afeto e a dedicação que reservava aos pacientes, e isto permitia transações sumptuosas entre o médico e o escritor, desde logo ao nível das suas notas de rodapé. Theroux assinala como estas se tornam fascinantes devido a um fulgor de simplicidade, e destaca uma que surge num ensaio sobre o cientista Sir Humphry Davy, sendo o seu ponto de partida o pouco conhecido facto de o poeta Coleridge ter assistido às suas aulas, o que permite a Oliver fazer um pequeno excurso e elencar outros poetas que se fizeram valer da linguagem científica: “Coleridge não foi o único poeta a renovar a sua reserva de metáforas com imagens da química. A expressão da química ‘afinidades electivas’ recebeu de Goethe uma conotação erótica; ‘energia’ tornou-se para Blake ‘eterno deleite’; Keats, com formação em medicina, deliciava-se com metáforas químicas. Em Tradition and the Individual talent, Eliot emprega metáforas químicas do princípio ao fim, culminando numa grandiosa metáfora davyana para a mente do poeta: ‘A analogia é a do catalisador… A mente de poeta é limalha de platina.’ É de pensar se Eliot saberia que a sua metáfora central, a catálise, foi descoberta por Humphry Davy em 1816. Um maravilhoso uso metafórico da química é A Tabela Periódica, de Primo Levi. Primo Levi foi químico e escritor.”

Como resulta claro por este exemplo, o espírito inquisitivo de Oliver Sacks aproxima-o, na escrita, de Jorge Luis Borges, que se empenhou igualmente em expandir, por meio de uma vasta disciplina de desvendamento e articulação das grandes experiências literárias, dessa fabulosa trama onírica na qual os homens foram urdindo os seus símbolos como símiles mentais para sustentar um reflexo do cosmos, a partir dos elementos que lhes é dado observar e conhecer. Assim, descrendo dos grandes sistemas, desacreditando a História, ignorando orgulhosamente a sociologia, Borges preferiu mergulhar na literatura entendendo como a redação íntima e que eleva a temperatura da vida por meio de nexos surpreendentes do mesmo modo que Sacks pretendia escapar de certas expectativas culturais que se sedimentam e frustram todo o regime de interpretação dinâmica, e, de resto, havia ainda a uni-los essa exigência de que, mais importante do que os quadros genéricos em que se agrupam certos comportamentos, patologias ou até géneros literários, é reconhecer essa dimensão tão particular que permite que se afirmem os indivíduos. O espírito que aqui mais nos importa é essa capacidade de dilucidar termos mais precisos, de introduzir as nuances e subtilezas que distinguem ou calibram certas situações ou pessoas. Se Sacks procura evadir-se do consultório e do regime clínico, também Borges se exasperava com a forma como a maioria dos poetas e romancistas ignoram o mundo visível, a sua experiência direta, reduzindo a sua vastíssima paleta a uns poucos símbolos herdados. “Todas as flores são a rosa, a cotovia canta em nome de todos os pássaros, o silencia e a lâmpada ocupam toda a representação da noite.” Ganha assim relevo a noção de que não se dá um verdadeiro processo de descoberta e invenção sem que esteja aberto um processo de investigação. E se Borges tinha uma atração enorme pelo género policial, também Sacks nos é descrito por Theroux aproveitando-se da mais célebre figura a emergir desse cânone: “Tem algo de Sherlock Holmes a sua síntese arguta de pistas neurológicas esparsas, o que talvez seja adequado, uma vez que Arthur Conan Doyle baseou a capacidade dedutiva de Holmes num dos seus professores de medicina, um olho de falcão do diagnóstico.”
Se na nossa época vivemos fascinados com esses subprodutos bastante débeis ou até grotescos do género policial, séries televisivas que, ora se alimentam da realidade, e nos servem modelos esvaziados de todo o mistério pulsante e a indagação tão mais apaixonada quanto paciente, ao passo que, na ficção, este degenerou em fórmulas redundantes mais próximas da fantasia, na recriação puramente artificial da violência demasiado estridente e enfática para corresponder a qualquer experiência realista desses atos que continuam a ocorrer todos os dias e assinalar os aspetos mais tenebrosos da natureza humana, Borges faz questão de lembrar a origem intelectual do relato policial. O argentino diz-nos que é em Inglaterra que se consegue ainda recuperar alguma coisa do verdadeiro apelo deste género, em novelas ou romances bastante tranquilos, onde o relato decorre numa qualquer pacata aldeia perturbada por uma ocorrência inesperada: “ali tudo é intelectual, tudo é tranquilo, não há violência, não há grande efusão de sangue”. E o que se poderia dizer como apologia deste género? Borges responde dizendo que literatura hoje tende para o caos. Derrama-se no verso livre porque este é mais fácil que o verso regular. Do mesmo modo, a verdade é também uma disciplina muito exigente e difícil. A tendência hoje é para se suprimirem os personagens, os argumentos, tudo acaba por resultar demasiado vago. “Nesta nossa época, tão caótica, há algo que, humildemente, defende ainda as virtudes clássicas: o conto policial. E isto porque não se consegue seguir um conto policial sem princípio, meio e sem fim. E este é um género a que se têm dedicado escritores normalmente de segunda, os subalternos, apesar de por ele terem passado também escritores excelentes: Dickens, Stevenson e, sobretudo, Wilkie Collins. Eu diria, em defesa do romance policial, hoje lido com um certo desdém, que tem salvado a ordem numa época de desordem. Este é um esforço que devemos agradecer-lhe e é meritório”, remata Borges. E esta mesma ideia resulta da dedicação de Oliver Sacks a compreender os estados de perturbação dos seus pacientes. É uma ideia de esforço para não permitir que a imaginação acabe por sacrificar a vida a um resíduo, a formas embalsamadas ou a feras em cativeiro. No fim de contas, importa que a literatura seja um reflexo ordenado, mas não uma espécie de asilo onde se tenta restringir e focar o comportamento, de modo a corresponder aos modelos já adquiridos, de outro modo esta não passará de uma jaula de vidro tipo mausoléu, uma memória que de cada vez que nos recorda de algo, apenas produz mais um fantasma a partir de outro fantasma, afastando-nos da realidade, desfigurando-a ao ponto de, perante o seu apelo, tudo nos parecer estranho, um erro, que faz de nós esses vigilantes e médicos do conto “Enfermaria n.º6”, de Tchekov. Trata-se de um pesadelo a que Oliver Sacks se referia amiúde, o de um médico, Andrei Yefimitch Raguine, confundido com um doente mental, que se vê incapaz de provar que não está a delirar e acaba por ficar preso na enfermaria sendo sovado de forma brutal por um vigilante enquanto os outros médicos sorriem perante os seus protestos. Este relato é-nos cada vez mais próximo, e este receio começa a tornar-se bastante comum, a encontrar paralelos por toda a parte. Quando a realidade se torna insuportável, e quando a maioria dos homens parecem viver em negação, ficam reunidas as condições para que qualquer protesto enérgico seja lido e denunciado como um ato delirante e paranoico. 

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