29/11/2022
 
 
Panda Bear e Sonic Boom. "Viver em Portugal faz-me questionar se estou dentro do Matrix"

Panda Bear e Sonic Boom. "Viver em Portugal faz-me questionar se estou dentro do Matrix"

DR Hugo Geada 27/10/2022 11:41

Dois influentes músicos, grandes amigos e “exilados em Portugal”, Panda Bear e Sonic Boom, depois de anos de aclamadas colaborações, criaram um disco juntos onde os nomes de ambos os artistas assumem o mesmo protagonismo. Reset, editado em agosto, é um álbum descontraído, mas que aborda várias tensões globais.

 

São dois dos mais influentes músicos alternativos das últimas décadas, contribuindo com a sua expressão singular em diferentes gerações de adeptos de rock psicadélico, e moram os dois em Lisboa, Panda Bear e Sonic Boom, nomes artísticos de Noah Lennox e Pete Kember, respetivamente, que moram em Benfica e Sintra, depois de anos a colaborar em diversos trabalhos, agora, finalmente partilham um álbum onde o nome de ambos assume o mesmo protagonismo.

Lennox foi o primeiro a mudar-se para Lisboa, em 2004, onde vive com a sua mulher, a designer de moda Fernanda Pereira. Mais tarde, convidou Kember para passar uns dias em Lisboa enquanto este o ajudava a produzir os seus discos, tendo acabado por colaborar em Tomboy (2011) e Panda Bear Meets the Grim Reaper (2015), o inglês não resistiu ao charme de Portugal e acabou por se mudar para cá também.

Depois desta mudança, a sua relação, de amizade e de trabalho, ficou mais próxima do que nunca e, em agosto do presente ano, decidiram lançar o seu primeiro disco juntos, Reset. 

Em entrevista ao i, os músicos falam sobre o processo de criação do álbum, como foi trabalhar durante a pandemia e exploram como a mudança para Portugal os influenciou enquanto músicos.

 

No passado, vocês já tinham colaborado em discos e músicos um do outro, mas em Reset, pela primeira vez, dividem o protagonismo deste lançamento, com o nome de ambos a surgir na capa. Quando decidiram que queriam avançar para este projeto?

Panda Bear: Foi algo que começou por acidente, só a meio do processo de criação de músicas é que decidimos que poderia ser interessante transformar estes trabalhos num álbum. No início, existia apenas uma série de loops e samples que o Pete criou e umas letras que desenvolvi depois de ele me ter mostrado estes fragmentos. Com o passar dos dias, ele ia enviando mais material e eu continuava a escrever canções. Quando já tínhamos umas quatro músicas feitas, convidei-o para cantar em algumas e, nessa altura, quando nos juntámos para gravar este material, foi quando se tornou claro que estávamos a criar um disco, mas não existia um plano detalhado sobre o que iríamos fazer, foi algo que se foi desenvolvendo ao longo do tempo. 

Então tudo começou como um projeto descomprometido e relaxante?

Sonic Boom: Não posso dizer que tenha sido relaxante. Tudo aconteceu durante o confinamento. Foi numa altura em que se vivia alguma tensão no mundo. 

PB: É verdade, mas posso confirmar que trabalhar neste disco foi talvez o momento em que me senti mais relaxado durante a pandemia e não me sentia asfixiado com o que se passava no resto do mundo. 

Essa é uma sensação que transparece para o disco, com instrumentais bem relaxados e que deixam o ouvinte numa boa disposição. Apesar das incertezas criadas pela pandemia, sentem que o facto de terem estado mais tempo em casa ajudou a criar o ambiente que ouvimos no disco?

SB: No Reset tentámos conjugar um feitiço e torná-lo o mais medicinal possível. Parecia a altura certa para soar otimista, mesmo que as letras de algumas músicas estejam a lidar com alguns problemas bastante complexos. Decidimos que esta era a maneira certa de lidar com estas questões. Foi uma boa experiência, nunca tinha feito um disco tão atmosférico como este, foi bom poder usar alguns “velhos truques” que nunca tinha conseguido colocar em prática. 

É muito interessante falar nesse contraste das letras, uma das que me chamou mais a atenção foi a Whirpool, onde o Noah canta sobre “afundar-se” e ser “puxado para as profundezas”. Como foi criar esta dinâmica nas músicas?

PB: Foi algo que não aconteceu propositadamente. Com o desenvolvimento das músicas acabaram por soar assim. Antes de começar a trabalhar num disco, existe um período mental em que preparo o projeto, mas quando começo a pôr as ideias em prática, todo esse lado mental desaparece. Prefiro trabalhar seguindo o meu instinto. 

Segue algum critério na sua criação artística?

PB: Se algo soar bem é só continuar a seguir essa direção. Às vezes, para mim, é complicado falar sobre planos ou estratégias de criação musical porque não é assim que eu funciono. 

SB: Apesar de uma parte importante da forma como eu trabalho é voltar a ouvir tudo o que foi criado, porque sinto que as partes criativas e auditivas funcionam de formas muito diferentes, muitas das gravações foram feitas em apenas um take e sem um grande trabalho à posteriori. Gosto de pensar que temos a sorte de ter bons instintos que nos ajudam nestes momentos. 

PB: Os momentos em que gravámos os instrumentais eram muito espontâneos e simples, montávamos os materiais, tocávamos as nossas partes e passávamos à música seguinte.

Acho que é possível sentir essa espontaneidade nas músicas.

SB: Mas às vezes demora algum tempo para que possam soar dessa forma (risos). Às vezes os sons que parecem mais descomprometidos são os que demoram mais tempo a ser feitos. Por exemplo, a música Whirpool, é feita de poucos elementos. As minhas músicas costumam ter letras curtas e simples, mas um grande foco nos seus arranjos, oferecendo um contraste interessante.

Como foi a experiência de colaborar enquanto um duo neste disco?

PB: Acredito que isto era um ponto inevitável que iríamos chegar na nossa relação, como amigos e como colaboradores. Fomo-nos aproximando tanto dos anos que a conclusão lógica era fazermos música juntos.

SB: Não foi algo consciente, foi um desenvolvimento natural. Apesar de existirem alguns interesses em comum, temos gostos musicais e sensibilidades diferentes, e é bom trabalhar com alguém com estas características contrastantes. O Noah às vezes envia-me material onde eu preciso de algum tempo para o assimilar. 

PB: Para pensares que é bom (risos).

SB: O que estou a tentar dizer é que costumo ser surpreendido, ele acaba sempre por apresentar algo imprevisível e que me consegue deixar deslumbrado.

Foi uma experiência complicada colocar os egos de parte para fazer esta colaboração funcionar?

SB: Diria que é mais difícil para o Noah do que para mim (risos).

PB: Sendo um ser humano, acho que às vezes é difícil fazer essa separação. Para mim, é importante colocar o meu ego de parte. Não quero soar altruísta, mas sinto que aquilo que servir melhor a canção é o que prefiro adotar. Muitas vezes isso significa pôr o nosso orgulho de parte e aceitar outras ideias. 

SB: Mas sinto que não temos esse tipo de problemas, já nos conhecemos à tempo suficiente. 

PB: Se aconteceu, foi algo subconsciente e atirei esses sentimentos para a sanita o mais rapidamente possível (risos).

Este disco reúne um grande conjunto de samples de várias músicas, como foi o processo de partilha destas canções?

PB: O Pete acabou por criar muitos mais samples do que aqueles que iríamos precisar. Existe um leque ainda maior do que aquele que acabou por ir para o disco.

SB: A maior parte das músicas que trabalhei eram as raízes do rock ‘n’ roll e do blues.

PB: Sentia uma grande familiaridade no material que acabámos por usar, mas não ao ponto de reconhecer qual era o material original. No entanto, o interessante, é que apesar de existir esta familiaridade, sentia que conseguia oferecer o meu trato pessoal a estas faixas.

Com tantos períodos musicais, porquê optar pelas raízes do rock ‘n’ roll e músicas da década de 1970?

SB: Tinha esta ideia na minha cabeça a marinar há algum tempo. Estava a pensar como a introdução de alguns discos eram tão cativantes, com os primeiros acordes a prenderem a nossa atenção ainda antes da música ter mesmo começado. Também sabia que a eletrónica se funde muito bem com a música rock e achei que isso podia ser algo interessante de explorar. Achei curioso uma discussão que surgiu entre críticos, onde uns diziam que este disco devia ser categorizado como um disco eletrónico e outros diziam que este álbum não tinha nada de eletrónico. Na realidade, quase tudo o que acrescentámos nas músicas eram elementos de música eletrónica, à parte das percussões.

Existe uma sensação de familiaridade e nostalgia nestas músicas, a introdução destes elementos mais acolhedores foi importante durante estes momentos tão incertos?

PB: Acho que foi importante para nós criarmos esta espécie de antídoto. Se tivéssemos feito música triste e sombria suponho que isso também me teria arrastado para um lugar mais sombrio. Por isso, fazer música, não que me tenha distraído do que estava a acontecer, ajudou-me a manter à tona. 

SB: Temos um conceito tão positivo do que foi o nosso passado e tão esperançoso sobre o que será o nosso futuro, mas são imagens que não existem em lado nenhum exceto na nossa mente. É uma área que considero interessante explorar e gosto com músicos, como o Joe Meek, que tem o talento de misturar elementos nostálgicos com alguns mais futurísticos e criam uma visão de um futuro que nunca aconteceu, mas que se mostravam muito otimistas para o encontrar. 

Que momento temporal é que estava a tentar capturar com estas músicas?

SB: Algumas das nossas letras pareciam como telegramas...

PB: Falando de coisas velhas.

SB: Suponho que já ninguém sabe o que é um telegrama (risos). Vamos dizer que são um postal do momento. Quando o Noah me enviou as suas partes das músicas conseguia perceber sobre o que é que ele estava a cantar e parecia capturar tudo aquilo que estava a acontecer durante a pandemia, mas transmitindo, ao mesmo tempo, alguns sentimentos universais e que nos passam na cabeça independentemente do estado do mundo. 

Isso parece ser uma questão que está subjacente a muitos álbuns feitos durante a pandemia. Apesar das emoções descritas parecerem associadas ao sufoco de um confinamento, as músicas acabam sempre por se focar noutras temáticas. Por exemplo, no vosso disco existe uma canção chamada Danger, mas já nos sentíamos em perigo antes da covid-19.

SB: Podes encontrar muitas sensações diferentes nas nossas músicas. Há pouco falávamos de Whirpool, eu costumo associar esta música a relacionamentos, porque a sua letra me faz recordar alguns momentos que vivi. No disco existem vários títulos que são muito visuais e que despertam diversas sensações e interpretações a pessoas diferentes. Quando um objeto artístico consegue ter este tipo de poder, isso transcende qualquer tipo de inspiração.

Onde criaram a parte instrumental do disco? Foi na casa do Pete, em Sintra?

SB: Grande parte do trabalho de samplagem e de mistura das músicas foi feito em Sintra, mas a maior parte das gravações aconteceram em Lisboa.

Imaginei que o ambiente calmo e natural de Sintra tivesse contribuído para formar o som que temos descrito do seu disco.

PB: Na realidade, o disco nasceu lá. Por isso, é normal ter tido um grande peso no trabalho final.

SB: Uma influência determinante que esta minha nova casa teve foi, durante o início da pandemia, ter decidido redescobrir alguns dos discos que marcaram a minha infância, mas neste ambiente completamente diferente. Foi interessante perceber como é que funcionava a energia destas músicas num local novo.

Acham que se este disco tivesse sido criado num país diferente, seja Estados Unidos ou Inglaterra, ele teria soado diferente? 

PB: Provavelmente, nós os dois concordamos que o ambiente tem um papel fundamental na criação artística, quer queiramos quer não. Mesmo que tenha um reflexo que não seja óbvio durante a audição, existem imensas decisões que fazemos durante este processo e todas essas escolhas são afetadas pelo local onde estamos, como está o tempo, como foram as interações que tivemos com as pessoas nesse dia. Todo isso nos afeta de certa forma e acaba por influenciar aquilo que sai de nós. 

SB: Muito do trabalho deste disco foi feito a partir das nossas casas e isso teve um peso significante. Não existia aquela rotina típica de termos de aparecer no estúdio todos os dias. Era mais fácil imprimir as sensações imediatas e por isso é que o disco cresceu de uma forma tão orgânica.

Penso sempre que um disco criado numa cidade maior tem um som muito mais caótico e efusivo. Por exemplo, as músicas dos Suicide, que têm um ritmo que traduzia bem o que era viver em Nova Iorque. Se tivessem nascido em Sintra não sei se alguma vez tinham conseguido desenvolver o seu som revolucionário.

SB: Por acaso o Martin Rev [um dos membros fundadores dos Suicide gosta bastante de Sintra. Ele costuma vir cá várias vezes com a sua namorada. A sua praia preferida é a Praia Grande (risos). 

Sentem que viver em Portugal mudou a forma como fazem música?

PB: Mudou-me como músico e, definitivamente, como pessoa.

SB: Sim, sinto o mesmo.

PB: É algo que é difícil de descrever, mas tenho a certeza que é algo que aconteceu.

SB: Mudei-me para aqui porque queria fazer uma “reset” à minha vida quando cheguei aos 50 anos e não pretendia viver o resto da minha vida na mesma parte do mundo onde sempre vivi. Hoje estava a refletir sobre isso e sinto que consegui aquilo que pretendia. Existem muitas coisas diferentes, algumas para o melhor e outras que são apenas psicadelicamente diferentes. Mas era precisamente isto que queria, estava aborrecido com a minha vida e estou muito feliz com a minha decisão. 

PB: Alguma vez viste o Matrix.

Sim.

PB: Viver em Portugal tem momentos que me fazem questionar se estou dentro do Matrix. No filme, existe um momento em que os personagens entram no Matrix e o Neo vê dois gatos iguais e é aí que percebem que está a acontecer algo de errado. Estou a sentir isso constantemente, estou a ver falhas no Matrix constantemente. 

Qual foi o último a que assistiu?

PB: Existem momentos que são difíceis de compreender. Não é que sejam ameaçadores, é apenas uma quebra na realidade, onde vemos uma interação sem lógica a acontecer. 

Pela minha experiência, gosto de pensar que Portugal é mais parecido a Twin Peaks, com os seus personagens excêntricos.

PB: Isso faz-me recordar o homem “sem rosto” que se costumava estar sentado no Rossio. O senhor tinha um tumor enorme, parecia que o seu cérebro estava a sair da cabeça. Ele morreu em 2021 e a Discovery Channel chegou a fazer um documentário sobre ele. Era uma pessoa fascinante.

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