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FC Porto-Benfica. O dia em que Herr Schmidt foi chamado para a tropa

FC Porto-Benfica. O dia em que Herr Schmidt foi chamado para a tropa

Afonso de Melo 21/10/2022 16:44

Sobreviver com classe às viagens a Turim e a Paris pouco dirão a quem, como o treinador do Benfica, se vê agora empurrado para o inferno azul.

Turim? Paris? Aceitemos que Herr Schmidt ainda não viu nada. É, como se dizia nos meus tempos de Mafra (Máfrica), um maçarico que se prepara para enfrentar a sua primeira grande batalha deste que chegou a Portugal e ao Benfica. Não duvido que, dentro do clube, aqueles que o rodeiam, que o ajudam, que o alertam, já lhe tenham feito desenhos infernais do que é uma visita às Antas (para mim é sempre Antas, fica no Bairro das Antas, não fica?).

De certa forma foi como se o tivessem chamado para a tropa e lhe explicassem toda a hostilidade que envolve um FC Porto-Benfica desde o tempo em que José Maria Pedroto inventou que havia um país a norte e um país a sul, e que a sul se instalavam os mouros que era preciso derrotar a todo o custo.

A filosofia encontrou um seguidor fiel em Pinto da Costa – de quem o meu querido amigo Aventino Teixeira costumava dizer que teve o grande azar de Pedroto não perceber nada de electrodomésticos, pelo visto o único negócio que o sempiterno presidente portista, que merece com todas as letras aquilo que um dia escrevi sobre ele (o Campeão dos Arguidos do Futebol Português, algo que me valeu umas boas temporadas no tribunal do Bolhão até que o TEDH pôs fim a tal palhaçada, para azar dele) – e alimenta os seus habituais lambe-botas.

Um FC Porto-Benfica não é aconselhável a crianças nem a senhoras. Não é espectáculo ao qual se vá, alegremente, com a família pela mão. Houve quem o transformasse numa guerra e agora esteja preso ao labirinto de não mais poder sair dela.

Um FC Porto-Benfica não é, sequer, um jogo para árbitros portugueses, seja qual for o escolhido, tão pusilânimes são todos eles (além de francamente maus), entrando em campo com vontade de apitar por tudo e por nada, para agradar a toda a gente, para parar as refregas, e saindo inevitavelmente pela porta do cavalo, com este a ter, muitas vezes, umas 148 patas.

Pela primeira vez, Herr Schmidt, líder da única equipa portuguesa que não sabe o que é a derrota até esta fase da época, vai enfrentar o mostrengo capaz de o fazer sair da sua (pelo menos aparente) tranquilidade e ver-se envolvido na táctica costumeira da provocação e, desculpem lá, mas não há outro termo, da falta de educação. Está pronto para tal? Sinceramente não sei. Mas devia estar. Poucos serão os que têm neste momento um nível tão alto de auto-confiança.

A pressão O FC Porto de Sérgio Conceição – todo ele sentimento à flor da pele como homem, pouco dado a momentos de reflexão enquanto a bola rola – é uma equipa de pressão. Não apenas de pressão psicológica – algo que exerce como ninguém – mas também uma equipa de pressão a todo o campo, procurando fazer de cada conquista de bola uma vitória particular que, multiplicada por várias, parece garantir-lhe sempre a vitória final.

É verdade que, por mais de uma vez, já a vimos desnorteada por completo, ao ponto de ser, por exemplo, goleada em casa sem piedade por um Brugge que se limitou a explorar as suas inegáveis fraquezas. É preciso ser-se psicologicamente muito forte para tentar sufocar os adversários no campo todo e este FC Porto tem alguns jogadores não direi psicologicamente fracos mas, pelo menos, psicologicamente impreparados para serem sobrecarregados por essa atitude guerreira. Não me admira. Nesse aspecto, dou toda a razão a Sérgio Conceição que anda há épocas a fio a ver a sua equipa fazer transfusões de sangue e a fragilizar-se com elas.

O FC Porto-Benfica de hoje joga-se no campo e fora dele. A cultura do ódio não devia sobreviver sobre a relva e talvez possamos assistir com satisfação à sua não sobrevivência, remetendo-a para as bancadas onde continuam a surgir figuras inenarráveis que promovem a selvajaria, mesmo estando proibidas de entrar em estádios de futebol.

O FC Porto-Benfica de hoje vai jogar-se, na minha opinião, sobretudo nos bancos. Serenidade contra excitação; calma contra nervosismo; racionalidade contra emoção por vezes descontrolada. Vai ser mais um Roger Schmidt-Sérgio Conceição do que outra coisa qualquer.

Estivessem as posições dos clubes trocadas na tabela e a fervura baixaria. Contra uma defesa portista abalada por alterações contínuas, um ataque benfiquista venenoso mas muito pouco prático, tantas são as oportunidades perdidas em cada jogo. Gostaria de pensar que será um grande jogo, no qual o futebol estivesse para lá das inimizades. Infelizmente há muito que todos nós perdemos a inocência.

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