29/11/2022
 
 
Catarina Gomes. "A palavra literatura mete-me medo"

Catarina Gomes. "A palavra literatura mete-me medo"

Teresa Carvalho 20/10/2022 15:25

Com o seu romance de estreia, “Terrinhas”, ganhou o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís, que justamente veio somar-se a outros com que foi já distinguida no campo do jornalismo. Com a protagonista do livro, uma designer de interiores, partilha a escrita ficcional de Catarina Gomes, fluída, bem desenhada e de qualidade marcadamente sóbria, o cuidado construtivo e a capacidade reflexiva.

Há terras de dois nomes, terras de três nomes, talvez umas de quatro e há Arrô, uma terrinha de um país a que demos as costas mas ao qual ainda não dissemos adeus e que está no centro do romance de estreia de Catarina Gomes. Jornalista ao longo de quase duas décadas, em 2017 largou a redacção do Público para secretamente se dedicar a um romance que há muito a tentava.  

Foi jornalista no Público durante 17 anos. O que é que a levou a trocar o jornalismo pela ficção?

Eu continuo a ser jornalista, vou colaborando à medida das minhas possibilidades, mas estava cansada.

Falamos de uma jornalista que arrecadou prémios importantes, como o Prémio Gazeta ou o Prémio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha. Algum desprendimento nessa sua decisão...

Em relação ao jornalismo diário, há um desprendimento total, saturação completa. Chega-se a uma fase em que se consegue fazer coisas diferentes e não era isso que me era pedido numa redacção de jornal diário; já não me preenchia, com ritmo de online, com turnos, sim, porque falamos de fábricas de notícias. Sentia que tinha atingido alguma maturidade, uma certa voz autoral, o que no jornalismo também é pouco apreciado, não é muito bem-vindo... E escrever um romance era um sonho antigo, talvez recalcado, inconfessado. Não iria dizer a ninguém.

E por que razão?

Tinha vergonha de não conseguir e, conseguindo, tinha vergonha que saísse uma porcaria. Se não fosse publicado, não iria confessar o meu fracasso. Era algo que me acompanhava há uns doze anos e foi também por isso que quis sair do jornalismo de redacção. Ter um trabalho a tempo inteiro dificultava bastante. E os livros que fiz depois de sair – “Coisas de Loucos” e “Furriel não é Nome de Pai” – não me teria sido possível escrevê-los, com o fôlego e com a profundidade que pretendia, com a minha voz, estando a trabalhar ao ritmo que uma redação exige.

Convivia mal com esses ritmos acelerados?

O jornalismo de redacção pressupõe um ritmo alucinante, em que a reflexão não é para ali chamada. A ideia do instantâneo, de ser o primeiro, é dominante. Isto não é um problema do Público em particular, que é até um lugar de privilégio face a outros jornais. Mas eu já não me identificava, era como se houvesse um desencontro de tempos. E havia uma necessidade de dizer coisas diferentes. Por outro lado, o que mais me custava era não sair da redacção. A ideia do sedentarismo, o não falar com pessoas, não ver pessoas. A certa altura, no congresso dos jornalistas, fiz uma apresentação, quase como se fosse uma espécie de ponto da situação: “Redações, inimigos da compaixão”. A minha compaixão estava a perder-se, eu estava a ficar pior pessoa.

E havia traços, em particular, que claramente conseguisse identificar?

Sim: indiferença, cansaço, saturação. Se eu não conheço o rosto da pessoa que me está a telefonar e a despacho em breves minutos, eu não vou ser capaz de fazer uma coisa com empatia. Por outro lado, o espaço para a reportagem transformou-se numa coisa muito mirrada. Mas sobretudo o isolamento do jornalista na redacção, transformado num sujeito produtor de conteúdos rápidos e sem espaço para a emoção, reflexão e investigação era o que mais me desencantava. O instantâneo não convida de facto ao envolvimento. E mesmo em circunstâncias que pedem menos rapidez, a emoção é vista como um sentimento de ambíguos no próprio jornalismo.

O uso da primeira pessoa foi, portanto, libertador?

Foi nos livros que comecei a usar a primeira pessoa, o que era uma coisa absolutamente libertadora. Durante quase vinte anos não tive 'eu”: era o Público. Agora que tenho escolha, posso escolher aquilo sobre o qual escrevo, que tem de me envolver, tem de me dizer coisas. Porque estes projectos a que me tenho dedicado são investimentos de muito tempo. Se modo que para persistir, tenho de me envolver. Fui muito feliz como jornalista – e o Público continua a ser a minha casa-mãe – mas estou numa fase diferente da minha vida e tive o privilégio e a sorte de poder escolher.

O romance foi distinguido com o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís. Como é que acolheu este prémio? E como encara os prémios literários?

Posso falar do meu caso, que sou uma outsider. Do que senti falta, relativamente ao meio jornalístico, foi de ter um prazo. Andava a escrever este livro há uma eternidade e, na verdade, se não tivesse ganhado este prémio, este livro talvez nunca tivesse visto a luz do dia, talvez não existisse. Recebi-o com alegria. O prémio legitimou-me, porque andava aqui um pouco a apalpar terreno, fora da minha zona de conforto, e este grupo de pessoas que dá pelo nome de júri disse-me: este é um bom primeiro romance. E isso teve para mim muita importância.

E impressões do meio literário, havia?

Algumas. Fui convidada para o primeiro festival literário umas três semanas depois da publicação do livro e, para mim, um festival literário era uma coisa aterradora, cheia de pessoas inteligentes, intelectualmente muito sofisticadas [risos]. Depois, percebi que eram como eu, com as suas inseguranças, os seus percalços, a sua solidão. E isso foi de certo modo refrescante. A palavra literatura mete-me medo. E é aqui que reside uma das razões da demora do romance. Creio que é talvez por isto que dizia que praticava jornalismo narrativo; não dizia jornalismo literário, porque me parecia que se o fizesse era como se me estivesse a pôr nos píncaros. E quem é que define o que é literário? E por isso a palavra literatura, a palavra romance e, por isso, F oi o superar de um medo.

Este seu “Terrinhas” é um romance de fundo biográfico?

O que desencadeou a ideia do romance é biográfico. Há uns anos, herdei umas terras e foi algum o sentimento de perplexidade diante de uma lista com nomes num papel, como corgo, bouça. A perplexidade foi de facto a protagonista. Pensei: O que é isto? Onde ficará? Porquê eu? Portanto, a herança é verdadeira. E sabia que no tempo dos meus avós a terra era tudo, ou quase tudo, inclusivamente as pessoas casavam-se umas com as outras para unirem pedaços de terra. Senti-me quase uma traidora: estava a herdar terras que tinham pertencido aos meus avós e aquilo não tinha para mim valor nenhum. Houve um sentimento de traição. O valor financeiro daquelas terrinhas é quase nulo. E são estas as terras que ardem, por esse país fora. Pensei em desfazer-me delas, mas a verdade é que, como a Cláudia do livro, nem sabia como poderia ir lá dar: não havia GPS´s, mapas... Lá consegui arranjar uma pessoa que me levou até lá e o sentimento, diante daquelas terras, foi o da protagonista do romance: não saberei cá voltar, isto não me diz nada. Mas depois pensei: há duas gerações, isto foi muita coisa. E foi aí que começou o jogo de imaginação. O que para a protagonista não era nada, tinha sido tanto que até fora causa de uma morte.

A personagem é uma mulher da cidade, mas não inteiramente...

Na contracapa do livro se diz que a protagonista é uma mulher tipicamente citadina, mas na verdade ela não é assim tão citadina, porque herda dos seus pais, provavelmente por mimetismo, a preocupação com as aparências, com o parecer bem.

E que se reflecte também na sua profissão: designer de interiores.

Sim, ela encena casas. Todos nos preocupamos com a opinião dos outros, mas há uma altura a partir da qual isso se torna doentio e castrador. Ela, querendo desprender-se daquele passado rural, é ainda profundamente tacanha, pequena, preocupa-se excessivamente com o que os outros pensam. E eu quis que ela herdasse essa preocupação com as aparências, que é uma coisa que caracteriza muito quem vive em meios pequenos. Não sendo o caso dela, herdou isso. E eu quis falar sobre essas heranças invisíveis, que não se esbatem de um momento para o outro, e que atingem também o meio urbano. E estas terrinhas também são Portugal.

A preocupação da protagonista com o pormenor, com a geometria, é uma tentativa de ordenamento do território?

Eu quis muito que isso servisse de contraste com o caos do que é a terra. Aquelas terras não têm fronteiras visíveis, estão cobertas de urzes e vegetação bravia, que ela não consegue identificar. Aquilo é o anti-jardim. Ela tenta encontrar geometria e regularidade até nas batatas. A terra mais importante, o corguinho, é uma espécie de corredor torto. Ela procura encontrar ali T2 e T0 mas aquilo não é nada. É quase como se a necessidade de ordem defrontasse um mundo que é desordenado. Ela própria, após a morte dos pais, tentou disciplinar os seus sentimentos.

O campo não surge aqui como um mundo de amenidades, bem ao contrário. E este romance mora longe do mito do edílio rural que não poucos preferem deixar intacto. Merecem-lhe pouca simpatia, as dicotomias fáceis...

Existe de facto essa dicotomia. Veja-se o livro do Eça, A Cidade e as Serras, em que Jacinto vem com outras cores, mais fortalecido, mais rosado. Faz pensar, toda esta recente tendência das hortas urbanas, de pessoas muito queridas e boas, cheias de espírito comunitário, tentadas pelo cultivo de tomate biológico... Esse campo não existe, é uma idealização. O campo do qual nós proviemos há uma geração ou duas atrás é um campo bruto, cheio de rivalidades, em que as pessoas se matavam por razões que hoje nos parecem estranhíssimas. As pessoas saíram da aldeia, tantas vezes vista como uma espécie de paraíso perdido, e boa parte das vezes conseguiram vidas melhores que a que tinham. Fugiram à pobreza e ao isolamento.

Curiosamente, é um romance que investe, por ironia, no turismo rural. Ou contra o turismo rural?

Sim, as casinhas todas de pedra, bucólicas, muito bonitas, com aquecimento central... Mas é bom não perder de vista que aquelas casinhas eram miseráveis, não tinham luz ou água canalizada há 40 ou 50 anos. Tudo era desaconchego. Ir para o campo apanhar ar puro, fazer caminhadas de evasão – tudo isso é muito bonito, mas o campo de que falo é duro. Tirava-se da terra, não porque era biológico e sem pesticidas, mas porque as pessoas comiam dali e passavam fome se a colheita não dava; era uma vida de sobrevivência. E todas aquelas frases publicitárias em torno do turismo rural confesso que me causam alguma irritação. Não é possível passar uma esponja por cima de um passado extremamente recente, face a outros países.

É como se houvesse um certo pacto de silêncio?

Sim, e não se fala muito com as pessoas que o viveram. De vez quando, vem aquela história da sardinha que dava para quatro, que é uma história de superação da pobreza. Mas não se fala muito mais sobre isso, é como se essa época se quisesse muda e escondida. Tenho a ideia de que se passou directamente para o turismo rural e para os neo-rurais. Não pretendi ser moralista, não tenho nada contra. Eu próprio já plantei os meus tomates biológicos.

A essa luz, que papel tem o centro de interpretação do mundo rural que aparece no romance?

As aldeias estão cheias destes pseudo-museus, que são ridículos. Põem lá umas sacholas e umas enxadas e está feito, está musealizado; não se dá mais nenhuma explicação, não se diz que as pessoas não sabiam ler, sobretudo as mulheres (70% dos analfabetos são mulheres idosas), que havia trabalho infantil, que a mortalidade infantil era brutal. Esses centros de interpretação do mundo rural são uma espécie de memória de faz de conta, um gabinete de curiosidades. Aquilo não é nada, não tem contexto porque não se quer dar esse contexto. Não vamos estar cá com lamúrias: agora somos um país moderno, da união europeia.

E como é que foi coabitar com uma protagonista tão forte?

Se eu conhecesse uma Cláudia, entrevistava-a, fazia uma reportagem, mas não encontrei. Queria muito alguém que reflectisse sobre estas questões, sobre a ligação à terra literal – grãos de terra – , às propriedades e, por outro lado, à terrinha, àquele lado vergonhoso e que não desapareceu completamente. Como venho do mundo do jornalismo, por vezes sentia-me transgressora e mentirosa: não conheço a Cláudia... Então, entrevistei-a, ou seja, com os meus instrumentos do jornalismo, criei a Cláudia, fiz-lhe uma biografia, arranjei-lhe um rosto, um cabelo. Mas a minha grande dificuldade não foi viver com ela, foi encontrá-la – demorei muito tempo a encontrá-la – e fazer com que ela não se perdesse e não se tornasse incoerente. Quis dar-lhe densidade e também contradição. Demorou tempo até se tornar credível, até ela alcançar uma existência própria, mas não me senti assolada pela personagem.

O foco narrativo quase não larga a personagem principal. Foi uma escolha?

Para primeiro romance, acho que não conseguiria fazer algo com muitas personagens. Também como leitora, gosto de romances com um protagonista forte, sem grandes dispersões, sem grandes enredos. Quando não é assim, perco a orientação, torna-se-me difícil acompanhar.

O jornalismo valeu-lhe, no campo da ficção?

No jornalismo que eu fazia nos últimos tempos, sob a forma de livro, já usava as ferramentas da ficção: a construção de personagens, de cenas, a gestão da informação de modo a criar alguma tensão narrativa. O meu jornalismo já era ginásio de ficção. Daí que não me tenha sentido completamente impreparada.

E agora, em termos de escrita, qual vai ser o caminho?

Agora estou um pouco dividida, porque não deixei de ser jornalista. Aliás, o método que usei para escrever este romance foi o método jornalístico: entrevistei muitas pessoas, gente do campo, produtores de batatas, moleiros. O trabalho de escrita é solitário mas gosto muito de falar com pessoas. Portanto, sei que quero escrever um novo romance mas, para isso, tenho de fazer uma mega investigação jornalística, exigente, espero eu. Estou também a fazer uma reportagem que vai sair em livro. Agora tenho os dois chips e vamos ver se correm em paralelo, ou qual vai chegar primeiro à frente.

Quer avançar com uns dados gerais?

Não, nem pensar. Há um lado que envolve o medo do fracasso, e também um lado quase supersticioso. Como não sou religiosa, tenho de ter outras coisas, outras espiritualidades… faço figas [risos], tenho uma caneta da sorte e outras coisas ridículas.  

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