03/12/2022
 
 
Exposição. Obra de Salvador Dalí ganha nova expressão no metaverso

Exposição. Obra de Salvador Dalí ganha nova expressão no metaverso

DR José Miguel Pires 29/09/2022 22:11

O Centro de Artes Digitais Ideal de Barcelona recebe uma exposição imersiva, que transporta os visitantes numa viagem pela obra de Salvador Dalí, com recursos à realidade virtual. É o culminar de uma visão futurista do artista espanhol.

Salvador Dalí teve, ao longo de toda a sua vida, uma visão que muitas vezes foi muito além do horizonte dos tempos em que vivia. O homem nascido numa Espanha atribulada, em 1904, fez grande sucesso como artista após aterrar nos Estados Unidos, fugido da Segunda Guerra Mundial. Dalí viveria até aos 82 anos de idade, o que lhe deu uma oportunidade que nem todos os artistas têm: atravessou várias décadas, várias formas de ver o mundo, avanços tecnológicos... um sem fim de elementos que lhe permitiram ser um dos mais completos da História, junto com o seu compatriota e contemporâneo Pablo Picasso.

Dalí tinha uma paixão por ferramentas futuristas, e nunca escondeu o seu fascínio por tudo aquilo que era eletrónico. Já na década de 1950, disse que tinha um cérebro eletrónico, e nos anos 70 fez parceria com o artista sul-africano Selwyn Lissack, criando uma série de hologramas que revolucionariam esta tecnologia. Dalí chegou a dizer, em entrevista, corria o ano de 1981, que o futuro da arte seria cibernético, termo que poderia ser equivalente a digital, palavra que não era usada na época. “Não se podem fazer obras-primas sem computadores e cibernética. Este é o futuro da pintura”, disse o artista na altura.

É com base neste pioneirismo de Dalí no mundo da cibernética e do uso da tecnologia e da informática na arte que se criou a exposição imersiva “Dalí Cibernético”, que foi inaugurada no passado dia 20 de setembro, no Centro de Artes Digitais Ideal de Barcelona, em Espanha, e que cobre uma área de cerca de 2 mil metros quadrados. Lá, os visitantes são transportados numa viagem pelo universo onírico e imaginativo criado por Salvador Dalí, numa exibição composta por mais de 200 trabalhos do artista catalão. 

O detalhe mais curioso desta exposição prende-se com o facto de acontecer, em parte, no metaverso, de forma coletiva e com liberdade de movimento, o que transforma esta numa das primeiras experiências do género num centro artístico. Há, aliás, uma sala específica desenhada para interagir nesta plataforma com as obras de Dalí, com sensores e óculos de realidade virtual, onde os visitantes são guiados pela própria voz do artista. 

“É a primeira vez no mundo que foi criado um metaverso que pode ser acedido por 40 pessoas ao mesmo tempo para desfrutar individual e coletivamente de um espaço digital em constante evolução”, disse Jordi Sellas, diretor do Ideal, citado pelo jornal espanhol El País.

Antes de mais, no entanto, convém esclarecer, afinal, o que é o metaverso. Esta palavra cara refere-se a um universo virtual, criado num computador, que replica (ou não) o mundo real através de formações digitais. O termo só seria cunhado em 1992, três anos após a morte de Dalí, que certamente muito teria desfrutado com as suas possibilidades criativas.

No Ideal, em Barcelona, funciona da seguinte forma: é uma experiência de realidade virtual com total liberdade de movimento. Quinze minutos de fantasia daliniana em que o visitante se envolve por completo num mundo surreal, onírico e surpreendente. 

Cada um tem direito a um avatar digital para circular fisicamente naquele espaço virtual e, por lá, poderá interagir com todos os visitantes que estão ligados em tempo real, passando a poder viver a experiência individualmente e ao mesmo tempo coletivamente.

Mas a exposição vai para além desta secção no metaverso. 

Ao todo, a visita dura cerca de 90 minutos e atravessa diferentes salas, onde projeções enormes das obras de Dalí permitem ao visitante sentir-se completamente rodeado pelas rocambolescas e surreais imagens pintadas pelo artista catalão.

O projeto conta com o apoio da Fundação Gala-Salvador Dalí e desenvolve em diferentes salas todo o universo poético e artístico do artista, através de projeções em grande formato, instalações interativas, hologramas, realidade virtual e inteligência artificial. 

Para Montse Aguer, diretora dos museus daquela Fundação, a exposição vai ‘brincar’ com as mensagens e expressões do artista na sua obra, especialmente aquelas que estão ligadas à ciência. A experiência, aliás, “convidará a contemplar de maneira presencial as obras e os centros criados por Dalí”, revelou Aguer, citada pelo jornal espanhol La Vanguardia.

Trata-se de um seguimento natural e lógico para a obra do artista, que em tempos admitiu que a bidimensionalidade já não lhe era suficiente e que buscou “a imortalidade através de seu trabalho e pensou como seu trabalho passaria ao longo dos séculos”.

Pois, ora bem, cá está uma das possíveis respostas ao dilema do artista catalão, que acabaria por falecer em 1989. Trata-se de nada mais e nada menos que o primeiro metaverso coletivo do mundo. “Dalí Cibernético” é uma coprodução internacional da Layers of Reality e do Exhibition Hub, e está prevista para os próximos quatro anos um verdadeiro tour internacional, no qual a exposição poderá ser vista em mais de 30 cidades, incluindo Londres, Bruxelas, Zurique, Budapeste, Munique, Turim, Roma, Colónia, Paris, Bristol, Dublin, Manchester, Antuérpia, Valência e Bilbau.

Dalí e a tecnologia Salvador Dalí é um dos artistas mais extraordinários da história moderna, principalmente pelo seu estilo eclético e ‘fora da caixa’. 

Reconhecido por tratar de temas como a imortalidade e a passagem do tempo, Dalí passou parte da sua carreira a trabalhar em conjunto com cientistas, muitos deles ligados à Física e à Genética, ou pelo menos com base nos seus trabalhos. 

Não é segredo nenhum, aliás, que o catalão encontrava temas como a ótica, o ADN, a quarta dimensão, a bomba atómica, a teoria da catástrofe, a geometria sagrada ou os píxeis como sendo fascinantes.

Corria o ano de 1971 quando, em viagem a Nova Iorque, Salvador Dalí foi contactado por Selwyn Lissack, o artista sul-africano pioneiro no uso de hologramas, que sabia que, para trazer essa nova tecnologia para o panorama artístico, seria necessário colocá-la nas mãos de alguém que a soubesse aproveitar ao máximo das suas potencialidades.

“Eu era fascinado por Salvador Dalí desde criança. A sua obsessão por encontrar e criar em outras dimensões e sua grande compreensão da simetria tridimensional e da perspetiva num plano plano fizeram dele a escolha perfeita”, revelou Lissack, num artigo de opinião de 2014 publicado na plataforma Spie.

“Dalí ficou entusiasmado com a ideia de trabalhar com um meio que lhe deu a capacidade de criar além dos limites do espaço linear, e a sua suíte de hotel  tornou-se o nosso escritório. Nos cinco anos seguintes, encontramo-nos com frequência para discutir as muitas ideias que ele queria explorar. De 1971 a 1976, Dalí e eu colaboramos para produzir sete obras de arte holográficas, que se tornariam alguns dos hologramas de arte mais importantes do século XX”, continua o sul-africano, referindo-se a trabalhos como o holograma Cérebro de Alice Cooper ou Crystal Gotto.

“As contribuições de Dalí para a holografia da arte foram monumentais. Os seus talentos e mente com visão de futuro estavam tão à frente da tecnologia que a arte que ele aplicou na criação dos hologramas seria exatamente a mesma hoje. Os mestres holográficos de Dalí podem ser comparados a placas de moeda; transcendem o tempo e nunca mudam. O que muda, com a evolução da tecnologia, é o sistema de reprodução”, elogiou ainda Lissack, que coloca no artigo a mesma questão que surge no início deste artigo: “À medida que evoluímos para um mundo digital, com impressoras holográficas, muitas vezes me pergunto o que Dalí, que morreu em 1989, teria feito com a nova tecnologia. Dá para imaginar Dalí sentado à frente de um programa do tipo CAD tridimensional para imprimir uma imagem 3D?”.

Afinal de contas, o próprio artista catalão disse que a arte “só é limitada pela própria imaginação do artista”.

Cibernética No Ideal, o espaço que abriu há apenas três anos em Barcelona, e que conseguiu sobreviver aos escuros dias da pandemia da covid-19, o visitante é primeiro confrontado com um vídeo, datado de 1965, onde Dalí surge a falar da cibernética. Mas não se fica por aí. Nessa mesma sala inicial, também é possível observar o artista catalão a pintar a atriz Rachel Welch, com a ajuda de um computador.

“Antes das tábuas de Moisés, a lei já estava contida nos códigos das espirais genéticas”, disse uma vez o artista que, no seu inglês peculiar, não hesitou em afirmar: “Sou o verdadeiro inventor da cibernética”.

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