05/12/2022
 
 
Portugal-Espanha. O lado de cá visto do lado de lá

Portugal-Espanha. O lado de cá visto do lado de lá

AFP Afonso de Melo 28/09/2022 09:15

O jogo-fantasma; os nove-a-zero; Pyroteo - o jogador que mais golos marcou à Espanha; 45 anos sem derrotas lusitanas; o golo de Di Stéfano - um mundo de episódios de uma ruvalidade com mais de 100 anos

É uma espécie de trauma. Iniludivelmente uma fraqueza. Basta ver a tranquibérnia que se gerou por um jornal desportivo espanhol ter feito manchete após a derrota caseira da Espanha face à Suíça dizendo apenas: “Menos mal que nos queda Portugal”. Do lado de cá gritou-se: “Às armas! Por Santiago!” Do lado de lá encolheram-se os ombros. Ainda bem que temos um jogo com Portugal para não ficarmos já eliminados, limitaram-se a traduzir.

Miguel Angel Lara, um camarada jornalista espanhol, lembrou-se de fazer uma lista dos jogos mais marcantes entre Portugal e Espanha, recordando que os portugueses são os que mais vezes defrontaram a Fúria, se bem que haja um quid pro quo na contabilidade comparada com os italianos. Tudo por causa de “El Partido Fantasma”.

Isto é, no mesmo dia, a Espanha (29 de Maio de 1927) realizou dois jogos internacionais: mandou a equipa principal a Itália, onde perdeu por 0-2, e apresentou uma equipa secundária frente a Portugal, em Madrid, tendo ganho por 2-0 e com uma tremenda cara-de-pau assumiu-a como conjunto principal. AFIFA não perdoou e retirou o Espanha-Portugal da lista de jogos reconhecidos.

Se este é um dos momentos lusitanos com mais “salero” para os nossos vizinhos, outro é, e não podia deixar de o ser, a copiosa vitória por 9-0 a contar para a fase eliminatória do Mundial de 1934. No dia 11 de Março de 1934, na presença de Niceto Alcalá Zamora, o Presidente da República Espanhola (soa estranho, mas era assim), aos 14 minutos os espanhóis já venciam por 3-0. Soares dos Reis, que andava a meter os pés pelas mãos, lesionou-se (ou fez que se lesionou) numa das mãos. Enquanto Amaro ocupava o seu lugar, a multidão, trocista, gozando o prato, gritava: “Ponga los dos! Ponga los dos!” Há que reconhecer que não valia a pena amuar por isso.

Lara não se esqueceu de trazer um português para a sua contabilidade. Peyroteo, autor dos dois golos do empate de 11 de Março de 1945, data da estreia do grande Telmo Zarra com a camisola da Espanha, é recordado como o jogador que mais golos marcou à Fúria – sete em cinco jogos, com três duplos seguidos nos três primeiros confrontos em que enfrentou o lado de lá.

À portuguesa “Tenemos la manía de improvisarlo todo”. Não me digam que uma frase destas não sairia facilmente da boca de um portuguesinho da Silva. Quem a proferiu foi Alonso, guarda-redes espanhol do jogo em que Portugal venceu por 3-1 no dia 3 de Junho de 1956. Maguregui queixou-se do calor e do terreno demasiado seco. Quantas vezes não ouvimos queixas do género vindas dos nossos? Pois, a perder de vista por entre os planaltos de Castela.

Di Stéfano também jogou contra Portugal e isso é, sem dúvida, uma nota a sublinhar. Foi em 1958, 13 de Abril. Jogou e marcou a cinco minutos do fim o golo solitário da vitória (1-0). A imprensa do lado de lá enfureceu-se, acusou os portugueses de terem passado o tempo todo a caçar pernas de espanhóis como se caçassem ratazanas, o próprio seleccionador, Manuel Meana, não ficou calado: “No sé cómo se puede venir a jugar un partido en este plan, han sido todos sus jugadores, no uno solo!” Augusto Rocha, o grande Rocha da Académica, foi tido como o mais duro de todos os que se aproximaram de Di Stéfano, assestando umas porradas valentes no argentino naturalizado. Matateu terá, segundo a versão espanhola, dado uma cabeçada a um adversário e ter passado incólume pelo crivo do árbitro. “Vergüenza!”, pois então. E a gente, do lado de cá, a fazer de conta que nada se passara.

Em 15 de Novembro de 1964, a Espanha apresentou-se no Porto orgulhosa do seu estatuto de campeã da Europa, mas Eusébio não quis nem saber: marcou dois golos contra um de Fusté e Portugal ganhou 2-1. Mais queixas vindas da vizinhança? Claro! “El capitán de España, Olivella, tuvo que ser sustituido a causa de una brecha que hizo que hubiera que darle tres puntos de sutura. Sufrió el corte en el minuto uno y aguantó en el campo hasta el descanso. Al vestuario llegó con la camiseta llena de sangre”.

Poderia, com a ajuda de Miguel, continuar a desfiar episódios desagradáveis desta realidade centenária – começou em Dezembro de 1921.

No dia 6 de Setembro de 2003, Portugal recebeu pela primeira vez a Espanha noMinho (a de Braga foi a segunda), e perdeu redondamente po 0-3. Scolari andava a acumular amigáveis para ter uma equipa para a fase final do nosso Euro e a Espanha – estreia de FernandoTorres – tirou proveito da muita apatia de vários portugueses para terminar com um registo incomodativo: 45 anos e cinco meses sem ganhar a Portugal.

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