05/12/2022
 
 

Putin já não pode fingir que a Rússia não está em guerra

O Presidente russo, que é um homem habituado a ser obedecido, enfrenta pela primeira vez se não ainda a indisciplina declarada, pelo menos uma situação em que a sua autoridade começa a ser posta em causa, o que poderá ter consequências.

Passado mais de um século, parece-nos espantoso como em 1914 os jovens faziam fila para se alistarem nos respetivos exércitos. Peter Englund, no sensacional livro A Beleza e a Dor da Guerra, conta, por exemplo, a história de um italo-americano que deixou o conforto de casa e atravessou o Atlântico para se oferecer como voluntário no exército italiano. Acabou internado num manicómio.

O final podia ser triste, mas os jovens viam a guerra como uma aventura de que queriam fazer parte e uma oportunidade de ouro para mostrarem a sua valentia e patriotismo.

Chegados a 2022, a realidade é bem diferente. Os jovens querem divertir-se e gozar a vida, não perdê-la numa guerra estúpida e em que não acreditam. Na Rússia, a mobilização decretada por Vladimir Putin está a encontrar uma resistência que provavelmente ninguém imaginava.

O Presidente russo, que é um homem habituado a ser obedecido, enfrenta pela primeira vez se não ainda a indisciplina declarada, pelo menos uma situação em que a sua autoridade começa a ser posta em causa, o que poderá ter consequências.

Em primeiro lugar, estes recrutas relutantes não vão certamente contribuir para elevar a moral do exército e até podem semear ideias subversivas. Em segundo lugar, é no seio da própria sociedade russa que começa a fermentar o sentimento de revolta.

Se de início a invasão da Ucrânia reforçou a popularidade de Putin, essa mesma popularidade poderá cair muito rapidamente quando os homens são forçados a participar numa guerra que não escolheram e as respetivas famílias veem essa forma de violência a ser exercida sobre os seus entes queridos.

Mas há ainda outro aspeto determinante: é que qualquer semblante de normalidade no dia-a-dia está seriamente ameaçado. A Rússia já não será um país envolvido numa guerra fora do seu território. Está em vias de se tornar um país em conflito consigo próprio, onde o Estado decreta guerra aos seus cidadãos e vice-versa.

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