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Clínicas de tratamento têm cada vez mais pedidos. Há quem peça sigilo e para pagar a prestações

Clínicas de tratamento têm cada vez mais pedidos. Há quem peça sigilo e para pagar a prestações

Maria Moreira Rato 23/09/2022 17:31

A AMG Piolhos Portugal e a Happy Heads Clinic são duas clínicas especializadas no tratamento de piolhos e na prevenção da pediculose. Lidando com este problema diariamente, as chefias explicam que ainda há quem tenha medo de admitir que os filhos estão a passar por este problema. O pior é que essa vergonha tem consequências.

Pode parecer estranho imaginar que, em pleno ano de 2022, muitas pessoas ainda tenham receio de admitir que elas ou os filhos (e restantes familiares, por exemplo) estejam com piolhos. Mas acontece. Mesmo, como explicam a proprietária da clínica AMG Piolhos Portugal e a equipa da Happy Heads Clinic, sendo um problema que pode afetar qualquer pessoa. Independentemente da idade, dos hábitos de higiene e da classe social.

“Há mais piolhos, se é que se pode dizer isso. No confinamento, tínhamos pessoas que nos ligavam a dizer que os filhos tinham apanhado. Temos tido imensa procura, principalmente nos meses de verão, e notamos que ainda há mais dificuldade para tratá-los porque os produtos de farmácia já não surtem efeito, quase como se os piolhos tivessem ganho resistência”, diz ao i Sónia Afonso, uma das proprietárias da clínica de Oeiras do franchising AMG Piolhos Portugal, que está também localizado em Sintra, no Restelo e em Portimão.

“As colónias de férias, escuteiros, surf, piscinas, etc. facilitam porque os piolhos gostam muito do calor, mas atualmente aparecem durante o ano inteiro e antes isto não acontecia. A partir de maio, aparecem mais casos e no regresso às aulas também. Isto porque nem todos os pais tratam. Os piolhos são altamente contagiosos. Os pais que têm cuidados queixam-se daqueles que não têm. Penso que o aumento de clientes será transversal a todas as clínicas”, observa uma das duas sócias-gerentes, referindo que “ainda há vergonha, mas não tanto como ao princípio”.

Mas a verdade é que, precisamente em Lisboa, Luísa (nome fictício), mãe de duas crianças, agora com 8 e 5 anos, sentiu (e sente) vergonha quando tem de comprar produtos na farmácia para cuidar das meninas. “Os meus pais ainda têm a mentalidade de que quem tem piolhos são as crianças que não tomam banho de forma regular. E vivem connosco, por isso não sei se teria coragem de levar as minhas filhas a uma clínica especializada”, admite. “Felizmente, este ano, ainda não tivemos esse problema, mas elas têm sofrido bastante desde que foram para a creche e a escola. Espero que os piolhos não cheguem aqui a casa novamente!”.

“Quando eu e a minha amiga abrimos as clínicas, havia pessoas que nos ligavam e diziam: ‘Estou a ligar-lhe, nem imagina, por causa daqueles bichos’. E até tínhamos miúdos a perguntarem aos pais se estaria mais alguém na clínica ou só eles a serem tratados. Por outro lado, temos adolescentes que vêm juntos. Até de sítios longínquos. Ainda há algum receio”, explica, desmistificando uma ideia que se encontra enraizada na sociedade. “Acho que já se entendeu que acontece a todos: quanto mais limpa é uma cabeça, mais o piolho gosta! O cabelo serve apenas de suporte ao piolho, eles ficam presos é ao couro cabeludo. Antes pensava-se que quem não se lavava é que tinha piolhos”.

“A nossa cliente mais nova tinha 13 meses, apanhou da irmã! Os pais de crianças de colo apanham muito facilmente, os avós também. Existem várias clínicas com várias marcas: somos mais ou menos parecidas nos tratamentos. Temos tratamentos que demoram horas a fazer. Por exemplo, no espaço de uma semana a 10 dias até podem ter de voltar. O tratamento está terminado realizadas as duas sessões e as de garantia, que são posteriores e não têm custos associados. É nisto que somos diferentes, muitas não dão garantia”, observa, referindo que a AMG Piolhos tem um modelo de vales implementado que pode agilizar o processo de pagamento.

“As pessoas compram sessões de meia hora e há crianças que, em altura escolar, vão todas as semanas ou uma vez de 15 em 15 dias para prolongar o mais possível o efeito do tratamento. E optam por esta modalidade para se sentirem mais seguros: chegamos a ter dias e horas certos para os clientes que adquirem vales. É uma questão de precaução”, sublinha Sónia, adiantando que, quanto mais sessões forem adquiridas, menor será o custo final.

“As próprias técnicas vão acompanhando os casos e podem dizer ‘Não é preciso vir todas as semanas’, por exemplo. Todas as técnicas têm formação específica. Em alguns casos excecionais, fazemos domicílios, mas o tratamento implica aspiração, por exemplo, e tudo torna-se mais difícil. A ideia que eu tenho é que as técnicas que trabalhavam só assim devem ter tido sucesso no confinamento, colmataram o facto de as clínicas terem estado fechadas”, diz acerca dos perfis individuais que podem ser encontrados nas diversas plataformas. “Temos clientes fixos e sempre novos a aparecerem. O tratamento varia em função do tamanho do cabelo, mas o preço médio é de 70 euros. Se for alguém de cabelo curto, é mais barato, e os tratamentos mais longos têm um preço distinto. O custo é proporcional ao tempo que é despendido pelas técnicas”, esclarece, indicando que se estivesse “no outro lado”, enquanto cliente, não gostaria de pagar o mesmo, tendo uma filha com cabelo comprido, que um menino com cabelo mais curto, exemplificando, pois seria injusto para este último.

“Por vezes, temos três e quatro irmãos e fazemos descontos consoante esse número. E temos parcerias com instituições, como colégios: até fazemos rastreios gratuitos. E fazer um diagnóstico também é gratuito: se tiverem piolhos, podem agendar o tratamento se assim o entenderem. Se não tiverem vão embora felizes e contentes. Apesar de tudo, as clínicas estão nas cidades principais e há pais que desconhecem a existência das mesmas. Há muitos que vêm ter connosco porque x pessoa lhes falou de nós. Quando chegam até nós, já gastaram imenso dinheiro em tratamentos de farmácia. Fazem as contas e entendem que vale muito mais apostarem nisto”, confessa, explicando que cada posto de tratamento tem uma televisão disponível para que cada criança possa ver aquilo que mais deseja e sentir-se confortável e, claro, distrair-se também.

 

“Para muitos, tratar dos piolhos é um luxo”

“Já tivemos pessoas que, não explicitamente, deram a entender que não podiam pagar. Não usamos químicos, temos uma linha de produtos de prevenção naturais, tinham dificuldades e nós não cobramos ou fazemos um desconto. Também nos pedem prestações ou dizem que só podem pagar no final do mês”, diz Sónia, garantindo que o panorama económico tem vindo, claramente, a piorar desde o surgimento do novo coronavírus e ainda se agravou na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia.

“Temos parcerias com algumas instituições que acolhem crianças, provenientes de situações muito complicadas, e tratamos delas sem custos associados. Já houve alguns casos em que falamos com as pessoas e chegamos a um ponto de entendimento e decidimos aquilo que vamos fazer. Analisamos cada caso individualmente”, confessa. “Quando eu era criança, havia uma portaria que indicava que não se podia ir à escola com pediculose e a doença já não consta nessa lista. Hoje, à partida, ninguém pode ser impedido de ir à escola por ter piolhos e aquilo que os pais nos dizem é que devia haver um apoio financeiro do Estado”, partilha, estabelecendo o paralelismo entre a apresentação de despesas às companhias de seguros, a comparticipação dos manuais escolares e os cheques-dentista.

“Cada vez há mais casos, os piolhos não vão desaparecer e estamos a viver tempos complicados em que as pessoas têm muita atenção aos gastos que têm. Para muitos, tratar dos piolhos é um luxo. Há colégios privados onde só deixam os miúdos voltarem quando completam o tratamento, mas isso é diferente. No público, a situação continua igual e o problema é que os piolhos nunca vão deixar de existir. Portanto, temos de ajudar as pessoas a terem acesso a estes cuidados”, salienta.

Quem vai ao encontro da perspetiva de Sónia Afonso é a equipa da Happy Heads Clinic, situada em Faro. “Decidimos iniciar este negócio em 2019. Começámos a pesquisar informação sobre os clientes (crianças e pais), negócio, fornecedores, franchisings. Depois de muito pesquisar decidimos iniciar por conta própria, queríamos flexibilidade e criar este negócio adaptado à região onde estamos”, explicitam, recordando que prepararam “o plano de negócio, marketing, fornecedores equipamento mais adequado, loja...” e, portanto, “foi um desafio!”. “A nossa expectativa era abrir no início de 2020, mas a covid-19 atrapalhou os nossos planos e só abrimos em agosto desse ano”, clarificam, asseverando que o ano em que têm recebido mais clientes é o corrente e o mais fraco foi o de 2020 devido aos sucessivos confinamentos.

“Temos atendido crianças e adultos. É muito frequente as mães apanharem piolhos das crianças e não só, também temos atendido avós, auxiliares e professoras das creches”, contam, afirmando que têm notado, efetivamente, que lhes chegam mais casos desde o início deste ano letivo. “Especialmente a partir de junho de 2022 começámos a receber mais pedidos”, dizem, evidenciando que o panorama não se complicou somente agora. “Este regresso às aulas tem sido mais complicado a nível de piolhos, mas estamos a comparar com 2021 e 2020 que foram anos atípicos em que existiam regras de distanciamento social. Para se apanhar piolhos é necessário que exista contacto cabeça com cabeça. Com as regras de distanciamento, é mais difícil que aconteça, logo os casos de piolhos foram menores”, clarificam.

“Este ano verifica-se uma maior procura, provavelmente fruto do aumento dos contactos entre as crianças. As pessoas que nos visitam, de uma forma geral, falam de uma forma muito aberta acerca dos piolhos. Temos tido casos de adolescentes que por vezes têm vergonha e não querem ser vistas a entrar num espaço destes, ou clientes que encomendam produtos com algum receio que se saiba”, declaram, alinhando-se com Sónia Afonso.

Apesar de serem associados às crianças mais pequenas, os casos de pediculose em adolescentes não são assim tão raros. Margarida (nome fictício), perto de completar 24 anos, recorda que lidou pela primeira vez com os piolhos aos 17 anos. “Fui dormir a casa de uma amiga cuja sobrinha apanhou piolhos no infantário e os passou para ela que, por sua vez, passou para mim”, recorda. “Uma festa!”, remata em tom jocoso, agradecendo por não ter sido atingida por este problema mais nenhuma vez.

“Ainda existe muita falta de informação e muitos tabus relativamente aos piolhos, por exemplo, os piolhos preferem os cabelos limpos aos sujos, no entanto existe o estereótipo que só as pessoas com falta de higiene apanham piolhos”, frisa a Happy Heads Clinic. Ideia também veiculada pela página da linha SNS24, que acrescenta no entanto que a higiene é importante:_“Os piolhos aderem melhor aos cabelos limpos, sem gordura ou resíduos. No entanto, a falta de higiene no cabelo pode, depois, favorecer o aparecimento de infeções mais graves. Lavar e pentear o cabelo permite expulsar alguns parasitas do couro cabeludo”.

“Os conselhos que podemos dar em primeiro lugar é: relaxe, podemos ajudar. Se os seus filhos apanham piolhos é porque são sociáveis e meigos. Parabéns está a educar bem os seus filhos!”, exclama a algarvia Happy Heads Clinic. “A nível de prevenção os conselhos que damos: as crianças usarem o cabelo curto ou apanhado, educá-las a não partilharem chapéus, escovas, evitar as selfies com os amigos, passar um bom pente fino anti-piolhos pelos cabelos uma vez por semana e usar preventivos naturais de piolhos”, recomenda esta clínica, concluindo que “a nível do tratamento, infelizmente, os piolhos estão cada vez mais resistentes aos produtos, logo sem resultados, para além de não eliminarem as lêndeas”.

Deste modo, à semelhança daquilo que já havia sido dito por Sónia Afonso, “a melhor solução será optar por tratamentos naturais e investir num bom pente fino anti-piolhos para retirar os piolhos e as lêndeas após a aplicação do produto”, defendem. “Caso não consiga tratar em casa, não se preocupe: existem centros especializados no tratamentos de piolhos e lêndeas que podem auxiliar”, asseguram. “Existia algo que sempre quisemos, olhar para o problema de forma positiva, por isso o nome Happy! Queríamos focar no resultado-solução e não no problema. Os nossos valores são alegria, confiança, colaboração e responsabilidade. É uma alegria quando conseguimos ajudar as crianças e as famílias!”.

 

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