03/10/2022
 
 

Pior do que receberem uma má notícia é as pessoas sentirem-se enganadas

Se é a condição necessária para manter a sustentabilidade da Segurança Social e a saúde das contas públicas, então seria irresponsável estar a gastar acima das possibilidades.

É justo que se diga que poucos governos devem ter aumentado tanto as pensões de reforma como os de António Costa ao longo dos últimos sete anos. Não se tratará tanto de uma questão de generosidade ou de sentido de justiça do primeiro-ministro, mas antes de pragmatismo. Com um país cada vez mais envelhecido, Costa sabe que subir as pensões é uma espécie de seguro de vida para quem está no poder. Basta atentar nesta conclusão do Pordata: “Entre 1976 (ano em que se ultrapassou mais de 1 milhão de pensões atribuídas) e 2017, o número de pensões da Segurança Social quase triplicou”.

Ironicamente, este mesmo governante que tanto tem feito pelos pensionistas acabou por ver-se muito contestado por causa do travão previsto para de 2023 em diante, que fará com que o aumento das pensões deixe de ser calculado, como até aqui acontecia, em função da inflação. O Correio da Manhã divulgava ontem uma sondagem segundo a qual “57,8% dos inquiridos dizem que reformados vão ficar pior”.

E a oposição, naturalmente, também não perdoou. Com alguma razão: quando deixou de dar jeito, o Governo mudou as regras do jogo. Mas também com uma boa dose de demagogia.

Quem criticou o aumento dos funcionários públicos, dos pensionistas ou do salário mínimo como medida populista e eleitoralista, em coerência só pode concordar com esta restrição ao aumento das pensões. Se é a condição necessária para manter a sustentabilidade da Segurança Social e a saúde das contas públicas, então seria irresponsável estar a gastar acima das possibilidades. E nem António Costa nem Fernando Medina, como alguns dão a entender, vão meter este dinheiro ao bolso.

O problema, claro, é que o Governo “vendeu” como uma benesse aquilo que outros consideram um corte (na verdade é mais um travão). Só que essa versão foi rapidamente desmascarada e o feitiço virou-se contra o feiticeiro.

Seria bom que o Governo aprendesse a lição. Um primeiro-ministro às vezes tem de dar notícias desagradáveis. Muito pior do que isso é as pessoas sentirem-se enganadas.

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