28/09/2022
 
 

10 anos de crónicas

O corpo também vai dando sinais de uma recuperação mais lenta após uma noitada daquelas e por isso hoje em dia é preciso sair à sexta para estar em boas condições de trabalho na segunda. 

Esta semana comemoro 10 anos a escrever crónicas, divididas entre o jornal SOL e o i. Tem sido uma grande caminhada, num grupo com pessoas com quem me identifico e com quem tenho aprendido muito, sobre jornalismo, escrita e tantas outras coisas que muitas vezes aprendemos com a simples convivência e que pouco ou nada têm a ver com o que estamos a fazer. Nesta coluna, sobretudo dedicada à noite, cultura, juventude e novas tendências acabei por emprestar algumas reflexões pessoais, do que penso sobre a vida, o que me rodeia, os amigos, a família ou a magia dos sonhos. Tenho tentado sempre, através de uma linguagem simples, perceptível a todos, analisar pelo lado positivo, ver o copo meio cheio, porque entre tanta notícia desastrosa que vemos e lemos todos os dias também nos faz bem ter alguém que nos escreva sobre as coisas boas, num lado muitas vezes mais emocional e emotivo mas que não deixa de ser uma visão muito própria que tenho sobre o que quero e para onde gostava que todos fossemos.

A noite mudou muito nestes 10 anos, em parte por ela e noutra parte porque eu envelheci e já não a vejo da mesma forma. Não quer dizer que seja melhor ou pior, tornou-se diferente e eu vejo-a de forma diferente também. Talvez porque há precisamente 10 anos estava eu a partir para África, no que se tornou num amor para toda a vida e que me tornou uma outra pessoa mas também porque as necessidades de uma pessoa são diferentes com o passar dos anos. Sempre gostei de me divertir com amigos, nisso nada mudou, mas mudou a forma como faço. Para isso também é fundamental o rumo que os amigos levam, os caminhos que seguem as pessoas com quem gostamos de estar, as boas companhias que nos fazem rir até altas horas e as conversas intermináveis que nos fazem crescer. O corpo também vai dando sinais de uma recuperação mais lenta após uma noitada daquelas e por isso hoje em dia é preciso sair à sexta para estar em boas condições de trabalho na segunda. Nessa altura não, era tudo muito mais instantâneo, menos pensado, vivíamos o momento e não pensávamos muito no que podia acontecer depois.

É incrível como tanto mudou em tão pouco tempo. A música que se ouve nas discotecas, o comportamento dos mais jovens, a importância brutal que o telemóvel tem na própria noite, o crescimento dos privados, as redes sociais como centro do que vamos fazer, seja como agenda ou como uma espécie de anúncio ao mundo de que vamos ali ou estivemos acolá. Com isso, penso que se perdeu um pouco a magia de uma pista de dança, outros dirão que estou errado ou que estou velho, também aceito, mas acho sinceramente que os telemóveis atrapalham e muito a vivência dos momentos no preciso momento em que eles acontecem. Da mesma forma que nas televisões hoje em dia é possível andar para trás, parece que os momentos gravados nas saídas também podem andar para trás num misto de egocentrismo com uma espécie de culto social. Acho que também por isso (mas não só) exista cada vez um espaço maior entre os mais novos e os mais velhos que os separa na hora de escolher os sítios para onde sair.

Os mais velhos escolhem cada vez mais os restaurantes dançantes onde se possa jantar e beber um copo a seguir sem chegar a casa de manhã, os mais novos continuam a querer ambientes massificados onde a quantidade sobrepõem-se à qualidade, quanto mais cheio e mais barato melhor. Pelo meio, ou melhor já no final, uma pandemia que acabou por mudar os hábitos a muito boa gente e que se habituaram ao estilo de vida e não mais voltaram para trás. No que me toca a mim, mais longe ou mais perto, em espaços onde me identifique mais ou menos, tento seguir a musica que gosto com as pessoas que me fazem feliz. É acima de tudo isso que desejo para os próximos 10. Que possa continuar a escrever, a sair com os meus amigos mesmo que não seja com a mesma regularidade, que continue a privilegiar a boa música e que possa continuar a descrever nesta página as tendências da noite e da vida, os novos espaços e os que nos deixam saudades e que a pista de dança seja sempre um espaço de conforto em mim. 10 anos que passaram num instante mas com tantas histórias boas para contar. Sempre Na linha da Frente.

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