02/10/2022
 
 
Ainda te amamos, Freddie. O legado do vocalista dos Queen

Ainda te amamos, Freddie. O legado do vocalista dos Queen

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Maria Moreira Rato 05/09/2022 18:39

Há 76 anos, nascia, em Zanzibar, aquele que viria a ser o vocalista dos Queen. Mesmo tendo “perdido” a luta contra a SIDA, Freddie inspirou, inspira e inspirará as mais diversas gerações.

Alexandre Bernardo já conhecia os Queen, mas só se apaixonou verdadeiramente pela música deles aos 15 anos quando conheceu aquele que viria a ser um dos seus melhores amigos. Tem apenas 33 anos e, por isso, decidiu homenagear Freddie através do clube de fãs “Queen Portugal”. Mário Marques tinha 30 anos quando planeou ir ver a icónica banda a Londres, após anos de admiração, mas, naquela época, trabalhava numa empresa e o patrão mostrou-se intransigente quanto ao adiantamento de salários e subsídios de férias: hoje, transmite a paixão aos filhos e a quem acompanha o seu trabalho, pintando os mais variados retratos de Farrokh Bulsara.

Sim, era esse o nome do artista que nasceu na Cidade de Pedra, em Zanzibar (atual Tanzânia), no dia 5 de setembro de 1946. Antes de encantar milhares em palco com temas como “Bohemian Rhapsody”, “Too Much Love Will Kill You”, “I Want To Break Free” ou “We Are The Champions”, o menino era “apenas” o filho de Bomi e Jer Bulsara, sendo que a família mudou-se da Índia para Zanzibar para que Bomi pudesse manter o seu emprego no Banco Colonial Inglês.

Naquele país, para além de Freddie, viria a nascer também a sua irmã Kashmira. Aos 12 anos, em Bombaim, formou a banda The Hectics, tendo adquirido a alcunha Freddie devido aos seus amigos.

Volvidos cinco anos, aquando da Revolução Civil de Zanzibar de 1964, os pais de Freddie, assustados perante a incerteza do futuro, decidiram fazer as malas e mudar-se novamente. Mas para Londres. O jovem estudou na Escola Politécnica Isleworth e formou-se em Design Gráfico pelo Ealing Art College. No início do ingresso no mundo laboral, vendou roupas no Mercado de Kensington, com a então namorada, Mary Austin, e chegou mesmo a trabalhar no Aeroporto de Heathrow. No entanto, a vida de Freddie modificar-se-ia em abril de 1970, quando formou, juntamente com o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor, o trio Smile. Que, rapidamente, foi denominado de Queen. 

Podemos considerar que Freddie viveu 21 anos de paixão intensa pela música, da concretização do seu sonho, em pleno, sendo este número reduzido para 18 se assinalarmos o início do seu percurso com o lançamento do álbum “Queen”, em 1973. Seguiram-se Queen II (1974), A Night at The Opera (1975), A Day at The Races (1976) e muitos outros sucessos até que, a 24 de novembro de 1991, Freddie perdeu a vida depois de, já em outubro de 1986, a imprensa britânica ter noticiado que era seropositivo. Inclusivamente, pouco tempo antes do seu desaparecimento, o The Sun lançou um número com a manchete “É Oficial: Freddie Está Gravemente Doente” e conseguiu que aquela fosse a edição de jornal mais vendida, naquele ano, no Reino Unido.

A vida de Freddie foi marcada pelos mais diversos momentos - e também pelas mais diversas polémicas -, sendo que, a título de exemplo, os fãs (e os menos fãs) especulavam se seria bissexual ou homossexual. Os rumores viriam eventualmente a ser esclarecidos, mas “Love Of My Life” será, eternamente, a música que Freddie dedicou a Mary, apesar de ter terminado o relacionamento com a mesma quando se apercebeu de que gostava de pessoas do género masculino. Mas Freddie era muito mais do que isso, até porque a orientação sexual não define ninguém: a voz, o estilo, a personalidade, a presença em palco... Enfim, tantas características que o faziam, fazem e farão ser amado. 

Quem o comprova são pessoas como Alexandre Bernardo, fundador do clube de fãs “Queen Portugal”, nascido em 2011. “A ideia surgiu depois de um evento do Hard Rock, com o concerto de tributo e homenagem, e na altura não havia nada dedicado a ele. Depois desse evento, o meu amigo, Miguel, falou comigo e com o Hélder, sobre fazer alguma coisa. Primeiro chamava-se ‘The Show Must Go On’. Foi um processo gradual”, diz o jovem de 33 anos, em declarações ao i. “Íamos recolhendo toda a informação que conseguíamos. Tivemos um boom maior em 2016 quando houve o concerto no Rock in Rio. Nem toda a gente, principalmente a malta mais nova, adere logo a um clube de fãs”. 

“Até porque podem não gostar assim tanto e, em 2018, com o segundo concerto, até lhes oferecemos o cachecol pessoalmente e estreou o filme. Foi muito especial porque foi um concerto em palco próprio. Conseguimos saber onde é que era o hotel deles e fomos lá. Curiosamente, houve muito nervosismo, muita ansiedade e, quando estávamos para desistir, apareceu o teclista e, depois o Roger e o Brian. O meu primo estava mais nervoso e eu consegui manter a calma e até tenho um vídeo a falar com o Brian. Um vídeo que prova que consegui realmente falar com ele!”, exclama Alexandre, visivelmente entusiasmado. “Tenho uma tatuagem no braço e o Brian gostou dela. A tatuagem é o boneco do ‘News Of The World’, tenho Queen escrito por cima e as cores são alusivas às do primeiro álbum. Foi uma tentativa de juntar duas coisas diferentes”, explica o homem que trabalha como vigilante.

“E tenho uma do dia do concerto de 2016. Eu não sou colecionador, mas o Miguel é. Foi ele que me transmitiu esta paixão. Não somos mesmo primos, mas temos família em comum. Então, andámos na mesma escola e passei a tratá-lo por primo. Sabia que os Queen existiam, gostava deles, mas não tinha noção do que eram, daquilo que representavam. Eu com 15 anos, ele com 16, tornámo-nos amigos e fui-me envolvendo nestas lides!”, recorda, com carinho, o lisboeta. “Antes disso, só tinha gostado mais dos Linkin Park. O Miguel viu os Queen, pela primeira vez, em Madrid, quando fez 20 anos. Fomos a Bournemouth ver o Roger Taylor e em Madrid estiveram lá o Miguel e o Hélder este ano. São eles que continuam a manter o clube de pé, juntamente comigo”, confessa o apaixonado por aquela que é, muitas das vezes, considerada a maior banda de todos os tempos.

“Além de termos uma parceria com o Hard Rock Cafe e de ajudarmos no concerto de tributo, tivemos Walking Tours, com 40 pessoas, para celebrar os Óscares. E se o Rami Malek, que interpretou o Freddie no filme, ganhasse, faríamos isso. E fizemos! E igual no Porto. Ajudámos a Big Picture Films com a promoção do filme também. Em 2018, juntámo-nos à MEO e à promotora e todo o tipo de concertos de tributo”, conta. “Tivemos um passeio de barco em Lisboa dedicado a eles. E no Coliseu juntaram os Queen a canto lírico! Não temos número de membros, quotas, nada. Temos a página de Facebook, o Instagram, o site. Temos seguidores, ‘apenas isso’, mas este projeto é uma enorme parte da nossa vida”, admite com a emoção patente na voz.

“Quanto ao meu álbum preferido, vai sempre variando, mas gosto muito do Queen II e a minha música preferida é a The March Of The Black Queen. Sou vigilante, não trabalho em nada relacionado com música. Gosto muito de guitarra, mas nunca toquei: estou a pensar nisso. Influenciar alguém… Acho que não influenciei, mas tenho amigos que gostavam dos Queen e passaram a gostar ainda mais, exploram mais essa paixão”, acrescenta, refletindo acerca da morte precoce de Freddie, aos somente 45 anos.

“É um sentimento universal: quem nos dera que ele estivesse cá! De personalidade, pelo que consta, ele tinha dois lados: em palco e aquele em festas extravagantes. Mas ele era introvertido, pelo menos, nem que fosse inicialmente no que toca às pessoas. Honestamente, a minha visão, do Miguel e do Hélder é: não queremos saber da vida pessoal de nenhum deles. Nunca procurei saber os detalhes. Somos apaixonados pela música e isso é aquilo que nos une e o mais importante”, sublinha Alexandre, convidando os leitores a irem ao concerto de amanhã no Hard Rock Cafe, de homenagem a Freddie, no dia daquele que seria o seu 76.º aniversário, e a tentarem reservar um dos últimos lugares para o “A Night At The Quiz” no Zénite Bar Galeria, na Rua Passos Manuel, também em Lisboa.

“Freddie tocou Londres de muitas maneiras” e, em suma, a humanidade “’Just one year of love is better than a lifetime alone’: é esse um dos grandes ensinamentos dos Queen. Gosto de viver o momento ao máximo, carpe diem. A vida é demasiado curta. Nos concertos, vivo-os ao máximo: se tiver de fazer figura de maluquinho, faço! Acho que, no primeiro concerto, chorei para aí 90% do tempo”, conclui, rindo-se, indo ao encontro da perspetiva de Mário Marques que, a partir de Cantanhede, em Coimbra, aos 66 anos, continua a acompanhar o percurso dos Queen como fez no primeiro dia. Porque, como explica, “o eterno Freddie” está sempre na sua mente e no seu coração, sendo retratado com minúcia e os resultados finais partilhados na página de Facebook e Instagram “Artes MM”.

Mas há quem faça por lembrar Freddie de um modo que podemos encarar como peculiar. É o caso de Ivana Pondelíková, Professora Assistente na Faculty of Arts, University of Ss. Cyril and Methodius, em Trnava, na Eslováquia, que publicou o artigo “London’s Musical Legacy Reflected In An Iconic Freddie Mercury”, em novembro de 2021, na antologia Faces Of Urban Cultural Landscape. “Freddie tocou Londres de muitas maneiras. Por exemplo, Feltham (o lugar onde ele e a sua família moravam) tem uma placa azul em sua memória na Gladstone Avenue, no Garden Lodge, e lá podemos encontrar flores, cartas, etc. de fãs”, conta, ao i, a docente universitária, destacando que, em todos os aniversários da Rainha Isabel II, os Queen são o grande nome que atua nestes eventos.

“Londres é uma cidade híbrida, cosmopolita, fashion, musical e com uma mistura de culturas que é aquilo que podemos encontrar na identidade de Freddie. Ele poderia ter morado noutros lugares, mas ficou em Londres. Podemos apenas adivinhar as razões, mas as palavras de Samuel Johnson ainda ressoam: ‘Quando um homem está cansado de Londres, está cansado da vida; pois há em Londres tudo o que a vida pode oferecer (Glaser, 2019)”, avança.

“Freddie gostava muito da vida, por um lado adorava festas, mas por outro, ele procurava tranquilidade – ambas podem ser encontradas na capital britânica”.

“Freddie nasceu em Zanzibar, ele é de origem Parsi-Indiana. A palavra parsi é derivada da língua persa e farsi, que é a língua do Irão. Em Gujarati (região na Índia), as pessoas consideram que ele é nativo deles. Não tem de haver uma estátua de uma pessoa em determinado local para sentirmos a sua presença. É isso que acontece em Gujarati”, adianta, fazendo a comparação com a presença da estátua do artista em Montreux, na Suíça, onde este passou grande parte do tempo desde 1978.

“Para nós, eslovacos, a estátua tem grande importância porque a designer Irena Sedlecká era da antiga Checoslováquia. Como Montreaux é a ‘Meca’ para os fãs e restantes músicos, colocar a estátua de Freddie ali foi a melhor escolha porque ele é uma lenda musical”, observa Ivana, recordando que, durante o período da Cortina de Ferro, que durou entre 1946 e 1991, os eslovacos foram a Budapeste ver “um grande concerto que os Queen deram lá”. “Uma das atividades que peço aos meus estudantes que façam, todos os meses, é assinalarem as efemérides importantes”, diz, constatando que, em setembro, indicam sempre o nascimento de Freddie e a morte dele em novembro.

“Ele raramente dava entrevistas, mas no documentário The Untold Story podemos ver Freddie Mercury como um homem humilde, mas também extrovertido. Parece-me que a mensagem mais importante é mostrar às pessoas que, apesar da fama, conseguimos manter a nossa privacidade. Hoje em dia é normal falar de sexo, orientação sexual, mas na era de Freddie, em muitas culturas, era tabu. Certamente, o seu comportamento em relação a essa questão foi novo, chocante e quebrou todas as convenções”, declara a professora que se doutorou em Estudos Culturais, Comunicação Intercultural e Línguas Estrangeiras.

“Estou a planear pedir uma bolsa universitária sobre paisagem cultural e transferência cultural porque desejo levar os meus alunos a uma tour dos Queen e depois escrever outro artigo”, partilha, finalizando que “importa também dizer que o amor pela arte e a moda, que Freddie tinha, é muito importante porque conecta o Oriente (Zanzibar, Índia) com o Ocidente (Londres) e cria uma identidade harmoniosa de uma personalidade extraordinária”.

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