07/10/2022
 
 

Sem tom nem som

Esta coisa dos incêndios, muito pitoresca e fotogénica, faz excelentes directos nos telejornais onde um bando de jornalistas semi-desempregados profere umas quantas banalidades em directos não informativos, sempre com muitas chamas atrás (ou como quem diria “no background”).

Por estes dias começaram aquelas manifestações a que chamam “rentrée”, como quem diz, regresso dos partidos políticos à actividade. De facto, a segunda quinzena de Agosto costuma ser mais fresca que o mês e meio precedente e já vai chamando para o regresso ao trabalho. Trabalho, é como quem diz…

No entanto, a maioria dos portugueses ainda está na praia, no campo e para alguns, no estrangeiro, mas que importa? Os políticos já sentem a comichão do regresso à política e às frases tonitruantes que não querem dizer nada. A nós, pelo menos. 

Este é o período a que chamam a “silly season”, a época em que só se fala de férias, quem está onde e quem se afogou. Ritualmente, um bando de idiotas de aldeia, pirómanos, desleixados e perfeitos imbecis anda por aí a pegar fogo ao país, aproveitando o dito aquecimento global para incendiar a serra da Estrela às três da manhã, que é uma hora a que o “global warming” lhe dá muito forte…

Esta coisa dos incêndios, muito pitoresca e fotogénica, faz excelentes directos nos telejornais onde um bando de jornalistas semi-desempregados profere umas quantas banalidades em directos não informativos, sempre com muitas chamas atrás (ou como quem diria “no background”).

Ficamos assim a saber que um incêndio “dominado” é para reacender no dia seguinte, que um incêndio extinto, só depois de queimar uns quantos milhares de hectares, que dos nossos gloriosos Canadair, que seriam três, só um está operacional, que os bombeiros não têm qualquer coordenação e que o Siresp, escusado seria dizê-lo, não funciona por uma questão de princípio, apesar de o Dr. Costa ter gasto mais de 500 milhões de euros com ele; em suma, que o País soma e segue. 

De que falam os políticos, com este panorama de fundo? Pois de fazer mais oposição e manter o rumo da governação, voz grossa e corpo hirto para transmitir dureza e determinação, umas quantas piadas pelo meio para achincalhar os opositores e uns convites a estrelas convidadas que dão mais directos nos telejornais.

Outra coisa a que os telejornais se dedicam muito, porque enche chouriços maravilhosamente, é a guerra da pobre Ucrânia. E, claro, à crise alimentar que se acerca (não de nós, que somos ricos), à inflação que tudo isto causa (a guerra da Ucrânia tem as costas largas) e à perspectiva de passarmos o Inverno a tinir de frio, por falta de gás. Sobretudo os alemães.

A este respeito, chegou aos media uma daquelas notícias que nos deixam boquiabertos: o chanceler alemão, o Sr. Scholz, teria declarado que queria muito um pipeline para transportar gás natural de Sines para a Alemanha. Oh espanto, o mundo mediático e político entrou em polvorosa e desatou a comentar esta maravilhosa oportunidade. Claro que não interessa que o Sr. Scholtz não tenha dito bem isso, tenha referido o assunto como uma das necessidades europeias de interligação da rede de abastecimento de gás, que os alemães tenham em curso a instalação de vários terminais metaneiros na Alemanha que não precisam do tal pipeline para nada. Nada interessa. Houve logo quem viesse com mais uma fantasia de também transportar hidrogénio no dito cujo, e com isto, se gastaram editoriais, comentários, directos televisivos em barda, sábios a depor…

Não vai acontecer, mas se fosse pelas notícias, já aconteceu. 

No que aos portugueses concretos diz respeito, aos que estão ainda de férias, aos desgraçados que morrem afogados, que perdem casas e fazenda em incêndios, aos que andam a pegar fogos por maldade, divertimento ou desleixo, aos que regressam ao trabalho e aos que nunca deixaram de trabalhar, às grávidas que veem as urgências de obstetrícia fechadas ora sim, ora não, aos que têm cancro mas não têm dinheiro para se tratar no privado, a todos, todas e todes, isto diz o quê?

A única coisa que aqui interessa é que a inflação está a comer os nossos parcos rendimentos e que se a coisa segue por esta via, vamos mesmo tinir de frio no Inverno, mais do que antes, porque não vai haver dinheiro que chegue para pagar o aquecimento. Deixem lá os alemães porque eu tenho aqui um dedo mindinho que me diz que quando eles estiverem a passar frio, nós estaremos congelados. 

Mas há muito boas notícias, diz-nos a propaganda do governo: temos o melhor crescimento económico da UE (bom, se não é o melhor, é o logo a seguir, ou por aí…). Para quem tenha olhos na cara, a única boa notícia é que o Governo está a arrecadar muitíssimos mais impostos que o previsto, entre directos e indirectos, IVA e combustíveis. Olhando para o preço dos combustíveis, não é difícil de ver quem é o maior beneficiário do pânico artificial gerado pela guerra da Ucrânia: é o governo, que nunca arrecadou tanto imposto. Alguém me há-de explicar o mistério de saber como é que com o preço do petróleo ao nível de há dois anos, a gasolina está a um preço exorbitante, superior a dois euros o litro. 

Os nossos governantes, que nisso são exímios, vêm-nos explicar que é devido aos lucros “exorbitantes” das gasolineiras. Não ao IVA nem ao imposto especial sobre combustíveis, não, são os lucros exorbitantes, que é como quem diz “windfall profits”. Viram como está tudo explicado?

É nestas coisas que se nota como é excelente para o PS ter uma maioria absoluta, que os dispensa de dar muitas explicações e aquelas hipocrisias de fingir que ligavam muito às idiotices do Bloco de Esquerda e do PC e que se verifica como é lamentável que a dita oposição não faça a mínima e pálida ideia do que seja opor-se e construir uma alternativa política. 

Confesso que já começo a ficar cansado - mas é porque ainda não descansei devidamente - de dizer estas coisas e repisá-las. Continuo a ver o País a ir pelo cano, a estagnar sem perspectivas de futuro, a ouvir frases tonitruantes sobre coisa nenhuma e não vejo no horizonte nenhum raio de sol que me alumie a alma. Deve ser defeito meu. 

Advogado, ex-secretário de Estado da Justiça, subscritor do Manifesto por uma Democracia de Qualidade

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