02/10/2022
 
 
Andreia C. Faria. "Como o eco fala a deus nas catedrais"

Andreia C. Faria. "Como o eco fala a deus nas catedrais"

Diogo Vaz Pinto 12/08/2022 12:09

Em Canina, a poeta procede a uma articulação das ruínas presentes e futuras, superando o ensimesmamento da condição humana, bem como o falso realismo e a histeria apocalíptica da época, para reaver a capacidade de representar contradições, compondo uma unidade superior, elusiva e musical.

No limite, a crítica literária vê-se hoje condenada a assumir e reforçar o seu pedantismo amoroso, na medida em que se implica num esforço metódico de resgate de uns quantos casos singularíssimos que se furtam ao regime geral, estando, actualmente, o espaço literário, e o campo da poesia em particular, alinhado com um mundo de indistinção e de pulsões indiferenciadas. É bem notório como esta forma literária se tornou um objecto preferencial de falsificação e falseamento por parte de uma pseudoliteratura que vive de desvitalizar a língua, da remastigação de banalidades sentimentais, de tranquilizadoras glosas e torpes imitações do classicismo para se guarnecer de truques e ilusões com vista a convencer-se de que a autenticidade e o vigor da inspiração lírica estão ao alcance de qualquer um. Quando partirem mais quatro ou cinco autores significativos, e os novos que tenham revelado um verdadeiro talento abdiquem inteiramente de assumir uma atitude de reserva, não se misturando e batendo-se por fornecer um antídoto contra o enfraquecimento da realidade pela expansão do espectáculo comercial-cultural, então só restará ao crítico viver da sua paixão como um exilado. Poderá empenhar-se de forma isolada em tentar arrancar à vida que foge e frente à imbecilidade reinante uma ilusão de duração para aquelas obras que se distinguem da escória, fazendo o papel da alma penada, do desmancha-prazeres que não se deixa comover pelo festival pindérico em que todos são reis e rainhas e todos vão nus. A tese geral é de que as coisas não estão, hoje, melhores nem piores do que sempre foram. Afinal, nunca faltou por aí exemplos de modistas de província que copiavam os seus modelos dos catálogos encomendados em Paris (“somos a França traduzida em calão”, dizia Eça). Só que agora nem Paris já resiste como eixo para as novas tendências, não há um centro de irradiação e, na verdade, hoje nem é preciso saber costurar. Cada um afia a sua antena e repete para quem o quiser ouvir que sintonizou o canal do porvir, isto quando antes o grande desejo de quem escrevia era ter o privilégio de ser apanhado na corrente do ancestral rio de melodia, cativar os mortos mais admirados, ter deles a anuência para se lhes juntar.

Dizia o Nemésio que os mortos podem ser tratados por tu, e é esse o desejo. Afinal, a admiração é um modo de coser a própria sombra a partir dos astros que se quer, um modo peculiar de arrastar sóis, ter na vida interior um regime temporal próprio, poder gerir a sua órbita, as suas relações de gravidade. Mas isto é diferente desse modelo de apropriação em que de um casaco se aproveita um botão, não é comparável a esse consumo de mortos, estes que trazem cemitérios no bolso, agitam-nos como a chaves, acham-se organizadores de almas. Mais vale o desejo de partir em selvagens peregrinações, ser sacudido e enredado, entregar-se ao grande prejuízo dos versos, e o poeta deve “evitar acima de tudo tornar-se um mero cabide em que o mundo pendura as suas honrarias”. Temos visto como esses que se servem do título publicamente não passam de encantadores das moscas que, com a sua agitação e zumbidos, dão ao pensamento mais comum a ideia de que está ali a passar-se algo de inquietante. Na verdade, e há medida que começam a desaparecer algumas das figuras que se guindaram às “marabuntas da interpretação esfaimada”, que, instaladas na academia, precisavam a todo o custo criar a ficção de uma herança que não se perdera, foram-se inventando estes poetas sem qualquer perspectiva crítica ou uma leitura mais concreta do mundo em que vivemos, e se persistem esses seres que se sentam à mesa a escrever, como alguém num banco de jardim a atirar miolo de pão aos pombos, julgando assim engordar o seu próprio destino, tornou-se essencial também desvalorizar toda a instância crítica, tudo o que não corresse no regime da troca de favores, da viscosa lisonja, e é por isso que o dólar literário hoje vale tanto como qualquer papelito esborratado de tinta. O esforço de assinalar aqueles casos dignos de serem resgatados do naufrágio, o qual se tornou tão evidente como nunca, resultou em mais um modo gestionário, um regime de arrumadores que ocupam posições e exigem gorjeta pela sinalização de algo que está ao alcance de qualquer leitor reconhecer. Com isto, damo-nos conta de que só resiste uma vaga relação hierárquica que se organiza segundo critérios de afinidade com o poder, acesso privilegiado aos canais mediáticos, e os argumentos não contam para nada. Nesta ordem conventual, vemos por aí os eternos seminaristas do lirismo, aguardando nos corredores por uma audiência com alguma das madres, algum dos sacerdotes ou outro qualquer chulo dessa corte celestial.

A vida literária por cá é uma aldeia onde todos cantam num emaranhado de sobreposições que, à distância, se ouve como uma opereta carregada de contrastes, desencontros, alianças e inversões de alianças, mas, à medida que o ouvinte silencioso se aproxima, dá-se conta de como tudo aquilo acaba, na verdade, por resultar num modo de conserva de frutas que perderam o gosto e até o perfume, mas que são cozidos aos pedaços com açúcar, resultando assim numa compota ou geleia que cabe toda num mesmo frasco, e que aceita ficar preservada enquanto alguns ainda a provam antes de, por fim, se desistir dessa geração, deitando fora o conteúdo, para que seja enchido pelos frutos do ciclo seguinte. Assim, se persistem alguns vultos semi-desolados do princípio deste século, ruminando ainda uma indefinível melancolia, estão hoje praticamente reduzidos a cadáveres tossicantes, desenhando na areia do tédio círculos de esmerado inferno, mas, entretanto, começou a impor-se agora uma escola de astrólogos pantomineiros, valdevinos tocadores de rabeca criando um ambiente de festa que, mesmo murcha, se publicita com uma fingida euforia. E, se nunca nos faltaram as figuras morbidamente angelicais, poetas que sempre procuraram estar alinhados com o pululante discurso e as últimas tendências a nível de baldrocas progressistas, hoje isto exprime-se nessas formas de distracção que passam pela obsessiva interrogação acerca da identidade, a qual se expressa na declarada complacência de se entregar a uma espécie de mística da performance social que obriga a que o artista se emoldure a si mesmo e se entregue como uma figura de cera em lenta imolação. Não são já indivíduos, é difícil até falar de vozes ou leituras pessoais, pois raramente damos por obras que se afastam da ideia puritana e hipócrita de vergonha, de uma sinalização moralista, e não temos propriamente autores, mas figuras numa perpétua campanha eleitoral, incapazes de vincar admiravelmente a sua diferença, ou de defender até à infâmia uma relação primorosa e arbitrária com o mundo. Damos por nós perante agregados pulsionais, sonhos colectivos, ou identificações do eu com a realidade que transborda e se perde, sem chegar a instituir-se uma fronteira face ao mundo. De resto, uma literatura ansiosa em proclamar a sua não pertença, a sua não inscrição ou a sua originalidade, pode também converter-se num rançoso repertório de lugares comuns, como os dicionários de rimas que há algumas décadas eram compilados de forma a sugerir a rima que estava em falta para dar o poema por concluído. Nos quadros de representação, interessa cada vez menos o mundo, e aderiu-se a esta apoteose da figuração de si mesmo, de tal modo que têm vindo a impor-se esses exercícios de uma visceralidade convencional que já vinculam o discurso poético a uma sentimentalidade que procura distrair-nos do enfraquecimento da realidade que está em processo.

Cada expressão literária, cada forma, é um umbral, uma zona no limite de inumeráveis elementos, tensões e movimentos distintos, um deslocamento das fronteiras semânticas e das estruturas sintácticas, um contínuo desmontar e montar de novo do mundo, nos seus marcos e imagens. Quando a literatura faz o seu trabalho, esta inventa a linguagem, contraria a gramática e a sintaxe, propondo uma outra ordem, cria uma nova perspectiva e até outro sabor para as velhas palavras, quase como se regressasse à origem da vida de modo a estar de novo apta a ler os sinais do seu tempo. Quem estuda estas coisas sem preconceito, sabe que a poesia tem uma mente autónoma, uma vontade e as suas ânsias, as suas próprias convicções e instintos, alimenta-se de uma relação instável, funciona um pouco segundo a consideração que Musil tinha por Thomas Mann, comparando-o com o estômago de um cetáceo, cheio de fragmentos de ideologias e sistemas de pensamentos europeus mal digeridos, mas aqui, ao invés de uma natureza de ordem lógica, impera a alogia, os encadeamentos de imagens que buscam capturar esse irredutível resíduo de mistério e de encanto que mantém aberta a hipótese de um espírito se ligar profundamente ao mundo, consciente de que a relação com a existência acabará por suspender-se do tempo, sem haver razão para temer o fim, “quando à terra/ chegam ossos de indigesto esplendor”. A verdadeira poesia funciona segundo uma perturbação no limiar do contacto de sentidos, ela desfaz e nega, propõe outros valores e significados, articula e desarticula o sentido do mundo com um movimento sem tréguas que desafia as noções estabelecidas. Na melhor poesia pressente-se um cansaço tal das coisas, uma virtude que se exerce sem exigir que algo mais decorra dali; um verso estarrecedor é um gesto que não mede o seu alcance, não tem grande consideração pelo que se seguirá, e resplende na sua imperfeição, que é, na verdade, o seu elemento decisivo, e no qual escapa a esses gestos circulares em que outros se deixam encurralar.

Canina, o mais recente livro de Andreia C. Faria (n. 1984), é uma gema, rude e pulsante, nuclear e tensa, com “o porte mudo e aromático de um coração”, que entretece uma teia de imagens que afinam a percepção e se complementam, sendo a um tempo cativantes e radiosas, mas que ficam a ecoar longamente, gerando desconforto e inquietação. Este livro força os leitores minimamente sérios a reconhecerem como os autores que gozam actualmente de grande favor nas feiras de produtos de contrafação lírica e que espelham a nossa “camorra de medíocres” estão muito abaixo daqueles poucos nomes que realmente têm vindo a refazer o alcance deste exercício, que nunca prescinde de se impulsionar nessa relação de gravidade para com algumas figuras esquivas na nossa semovente tradição. Não é difícil encontrar afinidades profundas entre esta obra e a de nomes como Luiza Neto Jorge, Luís Miguel Nava, Daniel Faria, e, não deixaria também de ser proveitoso reconhecer outras referências lá fora, sendo que entre elas, e acima de todas, impõe-se a “paciência selvagem” de Adrienne Rich, uma poeta que tem em comum com Andreia C. Faria a mesma agudez percetiva, a adjetivação exata, aquela santidade do ínfimo pormenor, e a compenetração diabólica, avançando e criando uma sensação de vertigem, mesmo nos poemas mais breves. Depois há também uma seriedade invulgaríssima, versos cheios de fibra, de uma frontalidade que choca com o regime irónico e até cínico que caracteriza tanta da poesia que, por estes dias, usa as impressões humoradas e sarcásticas do mesmo modo que veste de desdém o seu desinteresse e a sua ignorância. Há uma forte componente emocional nestes poemas, uma grande capacidade de se assumir e às suas vivências, ainda que longe de qualquer registo confessional. “Muitas coisas é preciso imaginá-las/ nuas como alguém que um dia amámos./ Outras surdas, violentas, melancólicas/ na tela impermanente de que já ninguém/ distingue o mar. E alguns corpos,/ como se afogados e tardiamente/ concebendo o riso, o vulto, as vértebras,/ regressando à vida em seus pousados/ ossos, era a mim que vinham dar.”

De qualquer modo, teria sempre de se pensar para lá da demarcação dos géneros literários, e levar em conta sobretudo aquilo que fere a consciência e os sentidos e que está para lá de tudo o que a arte poderá alguma vez digerir, podendo falar-se mais de um feixe de sintomas, de um corpo acossado, restabelecendo um vínculo instintivo com o mundo, havendo aqui uma relação com esse morse angustiado que se capta nas margens do discurso daqueles que andam sempre com o papel higiénico da ideologia para se limparem da merda que fazem. Vem, então, à superfície o lado animal que tem sido obliterado. “Nada espalha as minhas brasas como um lento apocalipse,/ um herbário onde o movimento pára, lento/ entre as árvores que o vento esvaziou, canino,/ a casca oca onde ele uiva ou pelo fogo/ se agiganta.” Há neste livro uma peremptória rejeição de toda a amálgama de conceitos, dessas arquitecturas simbólicas projectadas para dar uma justificação ao espírito, desse refúgio junto de ideias anémicas, da obsessão de redenção e dessa lepra lírica em que chafurdamos: “A fé dos homens, o talento,/ as ossadas e as vias que se extinguem,/ as grandes mágoas/ da natureza já nada me dizem./ Ninguém que atravesse o mar/ morrendo ainda me comove./ Não tenho alento: recrio em olhos secos/ a luz das emoções possíveis.// Em inglês chegam os bárbaros,/ os bem-aventurados repartidos em milícias,/ belas causas que me cansam/ o fecundo coração. Nesta cidade/ há comércio e combustão e eu procuro/ o teu perfume de há mil anos entre as hortaliças.// Tuas roupas sempre foram meu farol, minha neblina./ Se te dispo sem memória,/ se entre as saias macero um alimento/ e roubo à morte o seu melhor bocado,/ é porque impróprio o meu afecto é como um cardo/ em Setembro, quando o fogo já colheu/ o gosto provável que tudo tem no fim.” Assim, Andreia C. Faria assinala essa difusa sensação de que entrámos já numa concatenação de crises que vicia e enfarta o juízo, perante um ambiente cultural que se balança nessa “mistura indecente de banalidade e apocalipse” (Cioran), colocando-nos sempre perante uma situação sem saída, em que não há alternativa, e que produz uma consciência de culpa avassaladora, expandindo-se até dar conta de tudo, uma ideia de catástrofe irreversível, que nos lança no desespero ou na negação, e que, de qualquer modo, abre caminho ao ambiente niilista em que nos vemos imersos. Mas a torção que Andreia opera faz sentir esta fatalidade como uma promessa de outra coisa, falando na culpa como “um caroço adoçando toda a terra”. Assim, em vez de uma apreensão de um quadro global, de uma totalidade com grandiloquente ênfase catastrófica, há essa capacidade de recolher “a beleza como nota escrita à margem, texto-sombra da destruição”, ir entre a fuligem e o pó negro da grafite, entender como persistem certos vínculos essenciais, ainda que humildes: como a terra “se abria aos gregos, à lenta astronomia, à agonia poderosa de um vulcão, filmada”. E se sentimos um cerco disfórico de condições degradantes e infernais, se é possível ler os sinais muito concretos de um imenso colapso, se a “terra vai secando, estiolando, doendo de metais pesados e de tanta lama”, se já se invertem as correntes e “ao grande gelo caem-lhe os caninos”, o poeta não deixa de restabelecer a hipótese de fascínio, esse olhar que persiste e amplia e vê ainda uma nova relação amável na tessitura das coisas: “A terra vai desaparecendo. Poder-se-ia reduzi-la à questão da solubilidade das imagens – que a desarticula o sal, como a um navio.”

Às tantas, surge-nos aquele que é certamente um dos melhores poemas escritos na nossa língua já este século, um “organismo superlativo absoluto vivo, apenas com palavras despropositadas, movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes” (Herberto Helder), um desses organismos de inteligência radiante e, por isso, clarividente, que consegue libertar-nos da fixação apocalíptica e desse fácil pessimismo que adoptaram tantos dos maestros da retórica actuais, esses pensadores que se limitam a organizar recitais renovando o anúncio de novos desastres e proclamando que não se pode esperar do futuro outra coisa que não o horror e o vazio absoluto. “Espero o golpe”, assim se chama. “Depois da extinção seremos fábula,/ holograma, amarga erva/ ou musgo, plantas espectrais,/ tundra sem clamor ou combustiva/ carne, sangue e voz à superfície,/ mas os ossos não fundados nem cristãos,/ sem um cão que os vigie,/ sem um pai que reconheça o rosto/ alastrado noutro rosto –/ a terra lenta e colossal.// Seremos pasto,/ écloga sem canto/ de pastores ou de cativos.// Fulvos, brandos, arbustivos,/ falando em insonoras águas/ por sinais como faíscas,// ou da sombra/ disperso, algorítmico pó.// Mas ainda espero o golpe/ que me abata as dimensões –/ três, arteriais, propícias,/ abertas pela fronte como um boi.// O golpe em que cintile/ o nervo, a flor dos rins desfeita/ a pulso e o cálice dos lábios/ junto à terra e sem arrumação.”

É um poema que toma balanço no que de melhor tem a tradição poética e seria possível traçar uma linhagem enredada entre momentos muito altos, desenhar uma constelação que gozasse com todos os efeitos de rotação e translação entre as épocas e os grandes momentos de desesperança e fascínio perante o fim das civilizações, sendo certo que não se pode prescindir do vínculo com “Ozymandias”, o célebre soneto de Shelley, mas, depois, e pela proximidade, há uma espécie de soneto que se desatavia da austera relação da forma mas alcança plenamente a reverberação autêntica de uma inextinguível chama, um soneto de Manuel Resende: “Longe de mim querer corromper a juventude,/ É um trabalho que sobreleva as/ Minhas capacidades./ Antes cicuta./ Mas tenho que explicar o sentido/ Da palavra “desesperança”.// É uma esperança negativa./ A gente senta-se num cais/ E deixa o sol trabalhar./ O sol minúsculo, isto é, o calor na pele./ Chamo a isto a experiência mínima.// Feito isto:/ Venha de lá então/ Essa catástrofe.”

 A “experiência mínima”, ou seja, a realidade que nos toca. Não aquilo que se emprenha de ouvido, mas o que o ouvido descobre, sente ressoar dentro, como nesta outra imagem de Andreia C. Faria: “espécies rebentando-me por dentro/ com os seus anzóis extintos”. Porque a vida continua a ser a relação de maior fascínio, e aquilo que é preciso salvar a cada momento, essa estranheza de se ser deixado numa relação directa, numa experiência mínima, e que, no entanto, dá para sentir de um astro a uma distância inimaginável o seu toque, que sentimos como um calor, e que refaz a única ligação essencial. “É tão estranho viver, tão roubado/ às flores, ao sono, ao vinho”, escreve Andreia. E, no mesmo poema, mais à frente, vinca o vigor dessa insistência, do seu apesar de tudo: “Escrevo ainda,/ qual aranha com as patas na penumbra./ Escrevo as coisas que das mãos/ me caem, rachadas e celestiais.” Estes versos, no meio dessa imensa festa sensaborona, aquela em que os letrados se comprazem em trocar as suas receitas de caldos de galinha, demarcam-se face ao que García Lorca vira já no seu tempo: “Olha a ânsia, a angústia de um triste mundo fóssil/ que não encontra o tom de seu primeiro soluço.”

Depois da desilusão que foi o livro de Margarida Vale de Gato, na mesma colecção de poesia, da garridez dessa nulidade impante de versos a cantarolar marchinhas marotas no jardim da Raquel Nobre Guerra, este livro de Andreia C. Faria consegue retraçar o caminho e reapropriar-se de forma espantosa do tom daquele primeiro soluço. Não tem de ser um começo de choro, pode ser o próprio núcleo da metamorfose entre sentidos que se animam na sua irresolução, num jogo de similitudes que  fazem ressaltar íntimos contrastes, na forma de subverter as notas na pauta, sem infringir o tempo ou o ritmo, carregando de subtileza e reforçando esse transcurso dos sentimentos e das paixões, esse processo contínuo e ambivalente em que um sentimento se atenua convertendo-se num outro que lhe é contíguo, até acabar por transformar-se num sentimento que chega, às vezes, a opor-se-lhe, o que também revela a precariedade das nossas noções frente ao tempo e à experiência das coisas sujeitas ao seu efeito. E esta poesia acompanha essa evolução, pois, como se lê num dos poemas… “Como um clima, a minha língua/ tem seus trópicos,/ a sua crueldade,/ trapos crus no deflagrar da boca/ e a beleza/ que intercede pela violência/ como o eco fala a deus nas catedrais.”

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